Do plantio ao silo: cuidados para conter micotoxinas no milho
Como reduzir os riscos de micotoxinas na produção de milho
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Doença associada a fungos do gênero Fusarium pode comprometer a qualidade dos grãos, provocar descontos e limitar o uso de lotes contaminados.
A podridão rosada da espiga exige atenção dos produtores de milho por seus efeitos sobre a produtividade, a qualidade e a segurança dos grãos. Associada principalmente a fungos do gênero Fusarium, a doença pode provocar a formação de micotoxinas, substâncias tóxicas capazes de comprometer o valor nutricional do produto e restringir sua utilização.
O problema ganha importância durante a colheita, que ocorre em grande parte das regiões produtoras entre maio e setembro. Nesse período, condições de umidade e temperatura podem favorecer tanto a infecção das espigas no campo quanto o desenvolvimento dos fungos após a retirada dos grãos da lavoura.
Entre as micotoxinas relacionadas à doença estão as fumonisinas, a zearalenona e os tricotecenos. A presença dessas substâncias pode causar a reprovação de lotes, descontos no preço pago ao produtor e restrições ao uso do milho na produção de rações e alimentos. Na criação animal, a contaminação pode afetar o ganho de peso, a produção de leite e ovos, a fertilidade e a imunidade. Algumas categorias, como suínos e aves poedeiras, podem ser mais sensíveis. O material, porém, não apresenta níveis de contaminação nem estimativas quantitativas dos prejuízos.
Os fungos responsáveis pela podridão rosada sobrevivem em restos culturais de milho e outras gramíneas, em sementes infectadas e no solo. Seus esporos podem ser transportados pelo vento, por respingos de chuva e por máquinas agrícolas. A infecção ocorre principalmente durante ou depois da polinização. Os fungos podem entrar pelos estigmas, conhecidos como “cabelos” da espiga, ou por ferimentos provocados por insetos e danos mecânicos.
A colonização costuma avançar a partir da ponta da espiga, provocando uma coloração rosada ou avermelhada. Além dos sintomas visíveis, os fungos podem produzir micotoxinas ainda no campo.
A presença de lagartas, percevejos e outras pragas aumenta o risco, porque os danos nos grãos abrem caminhos para a entrada dos patógenos. Períodos de chuva ou alta umidade durante o enchimento dos grãos e a pré-colheita também favorecem a doença.
Outros fatores de risco são o uso de híbridos mais suscetíveis, espigas pouco protegidas pela palha, atraso na colheita, secagem lenta e armazenamento com umidade elevada ou pouca aeração.
Prevenção começa no planejamento
Como as possibilidades de controle são limitadas depois que a doença se instala, a principal estratégia é a prevenção. O planejamento deve considerar o histórico da área, as condições climáticas previstas, a pressão de pragas e a estrutura disponível para secagem e armazenamento. Áreas cultivadas repetidamente com milho, sem rotação adequada, podem apresentar maior quantidade de restos contaminados. Esses resíduos funcionam como fonte de fungos para a safra seguinte.
A rotação com culturas não hospedeiras, como leguminosas de grão ou oleaginosas, pode ajudar a reduzir essa fonte de contaminação. O manejo da palhada também contribui para sua decomposição, desde que seja feito sem aumentar os riscos de erosão ou comprometer a conservação do solo. A escolha do híbrido é outra decisão importante. Materiais com bom empalhamento protegem melhor as espigas. Híbridos com menor suscetibilidade às podridões também tendem a apresentar menor risco de contaminação.
A época de semeadura deve ser planejada para reduzir a possibilidade de a floração e o enchimento dos grãos coincidirem com períodos de estresse hídrico, temperaturas desfavoráveis ou excesso de umidade. A recomendação deve seguir os zoneamentos oficiais e as orientações de cada região.
Pragas facilitam entrada dos fungos
O manejo integrado de pragas é uma das principais medidas para reduzir a podridão rosada. Lagartas e percevejos causam danos que facilitam a entrada dos fungos nas espigas. O acompanhamento da lavoura deve ser realizado por meio de amostragens de plantas e espigas. A aplicação de inseticidas, quando necessária, precisa considerar os níveis de dano econômico e seguir o receituário agronômico, o rótulo e a bula dos produtos.
Em áreas com histórico de forte pressão de insetos, podem ser considerados híbridos com eventos biotecnológicos destinados à proteção das espigas. Nesse caso, é necessário respeitar as recomendações para o manejo da resistência dos insetos.
O controle de plantas daninhas que servem de abrigo para as pragas também integra a estratégia de prevenção.
Nutrição favorece formação dos grãos
Plantas bem nutridas e com bom desenvolvimento das raízes suportam melhor os períodos de estresse. Isso contribui para uma polinização mais uniforme e para a formação de grãos menos suscetíveis aos fungos. A adubação deve ser definida com base em análise de solo e, quando necessário, em análise foliar. Tanto a deficiência quanto o excesso de nutrientes devem ser evitados.
Apesar de contribuir para a sanidade da lavoura, a nutrição equilibrada não substitui as demais medidas de controle. A redução das micotoxinas depende da combinação de diferentes práticas ao longo de todo o ciclo da cultura.
Momento da colheita é decisivo
O atraso da colheita aumenta o tempo em que as espigas permanecem expostas às condições de campo. Quando há doença e umidade elevada, essa permanência pode favorecer o acúmulo de micotoxinas. O produtor deve monitorar a umidade dos grãos e planejar a operação de acordo com a capacidade de secagem disponível. Quando houver estrutura adequada, a colheita pode ser antecipada para reduzir o período de exposição.
Também é recomendado evitar a operação durante a chuva ou logo após precipitações. Grãos colhidos com excesso de umidade podem aquecer rapidamente e oferecer condições favoráveis ao crescimento dos fungos. A avaliação das espigas antes da colheita permite identificar áreas com maior incidência da doença. Com essa informação, é possível antecipar a retirada dos grãos ou planejar a separação dos lotes.
Regulagem evita danos aos grãos
A colhedora deve ser regulada para minimizar quebras e ferimentos. Grãos danificados são mais vulneráveis à entrada e ao desenvolvimento dos fungos. Entre os principais ajustes estão a rotação do cilindro ou rotor, a abertura do côncavo e a velocidade de avanço da máquina. A regulagem deve considerar o volume de material colhido e as orientações do fabricante.
As perdas e os danos precisam ser verificados ao longo da operação. A máquina também deve passar por limpeza e manutenção preventiva para evitar o acúmulo de material úmido ou contaminado.
Limpeza e secagem reduzem riscos
Depois da colheita, a limpeza permite retirar impurezas, restos de palha, fragmentos de sabugo e grãos muito danificados ou ardidos. Essa operação ajuda a melhorar a qualidade do lote e a reduzir a quantidade de material com maior risco de contaminação. Lotes com elevada presença de grãos afetados podem ser separados. A destinação deverá considerar os resultados das análises e as exigências da cadeia que receberá o produto.
A secagem deve começar o mais cedo possível. O milho não deve permanecer por longos períodos em moegas ou silos pulmão com teor de água elevado.
O processo precisa ser uniforme e utilizar temperaturas, tempos e fluxos de ar compatíveis com o equipamento. Uma secagem inadequada pode deixar pontos úmidos ou provocar danos térmicos.
O material indica, de forma geral, um teor de água em torno de 13% ou menos para períodos prolongados de armazenamento. O valor adequado, no entanto, deve considerar o tempo de permanência no silo, a estrutura utilizada e as recomendações técnicas aplicáveis.
Monitoramento
Mesmo depois da secagem, os grãos podem desenvolver fungos quando existem problemas de aeração, infiltrações ou pontos de aquecimento. Antes da entrada de uma nova safra, pisos, paredes e tetos dos silos devem ser inspecionados. Resíduos antigos e grãos deteriorados precisam ser retirados.
Durante o armazenamento, é necessário acompanhar a temperatura e a umidade da massa, além de observar possíveis odores e focos de mofo. A aeração deve ser definida de acordo com as condições internas do silo e com a temperatura do ar externo. Esses cuidados evitam a concentração de calor e umidade em determinados pontos, situação que favorece a deterioração dos grãos.