Proteção à inovação é fundamental para avanço da biotecnologia no campo
Uma das principais apostas para absorver a produção está na expansão dos combustíveis
Foto: Divulgação
O Workshop Biotecnologia no Brasil – Oportunidades, Inovação e Futuro no Agro, promovido pela Bayer, reuniu especialistas para discutir os desafios e as oportunidades que devem impactar o agronegócio nas próximas décadas. Entre os temas abordados estiveram a demanda global por soja, a expansão dos biocombustíveis, a segurança jurídica para a inovação e o papel da biotecnologia no aumento da produtividade agrícola.
Durante o evento, o fundador da Veeries, Fabio Meneghin, apresentou uma análise sobre as transformações que podem alterar a dinâmica do mercado da soja nos próximos anos. Segundo ele, embora a China continue sendo o principal destino das exportações brasileiras, o crescimento do consumo interno pode se tornar o principal motor de expansão da cadeia produtiva.
Meneghin destacou que os planos chineses preveem reduzir a dependência das importações de soja até 2035, elevando a autossuficiência da produção local. No entanto, lembrou que metas semelhantes já foram anunciadas anteriormente e não se concretizaram devido à competitividade da soja brasileira. “A soja brasileira continua chegando ao mercado chinês com custos mais competitivos do que a produzida localmente e, muitas vezes, também mais barata do que a soja norte-americana”, afirmou.
Apesar disso, o especialista alertou que o setor deve acompanhar com atenção os movimentos chineses e buscar novas oportunidades de crescimento.
Uma das principais apostas para absorver a produção brasileira está na expansão dos combustíveis renováveis. Segundo Meneghin, o potencial de crescimento é expressivo quando comparado aos mercados atuais.
Enquanto o mercado brasileiro de etanol gira em torno de 40 bilhões de litros por ano, o consumo global de gasolina ultrapassa 1,3 trilhão de litros. O mercado mundial de biodiesel já movimenta cerca de 240 bilhões de litros e o combustível sustentável de aviação (SAF) pode alcançar centenas de bilhões de litros nas próximas décadas.
A aprovação da Lei do Combustível do Futuro foi apontada como um marco para a expansão desse mercado. A legislação estabelece metas de aumento gradual da participação dos biocombustíveis na matriz energética nacional e cria previsibilidade para investimentos.
No biodiesel, a expectativa é que a mistura obrigatória continue avançando até atingir 20% nos próximos anos. Já o SAF e o HVO, conhecido como diesel verde, aparecem como novas fronteiras de crescimento para a demanda por óleos vegetais. “O mercado doméstico tende a ganhar relevância cada vez maior. Se no passado o crescimento da soja dependia principalmente das exportações, especialmente para a China, nos próximos anos os biocombustíveis podem se tornar o principal indutor da demanda interna”, destacou.
As projeções apresentadas indicam que a participação do mercado doméstico na expansão da demanda por soja poderá superar 70% até o início da próxima década, impulsionada principalmente pela transição energética.
Ainda durante a apresentação especialistas mencionaram sobre a contribuição da tecnologia para o aumento da produtividade agrícola. Segundo os dados apresentados, a produtividade média da soja brasileira cresce cerca de 2,3% ao ano. Esse avanço permitiu ao país ampliar significativamente a produção sem a necessidade de expandir proporcionalmente a área cultivada.
Meneghin diz que, se a produtividade atual fosse a mesma observada há cerca de duas décadas, o Brasil precisaria de aproximadamente 31 milhões de hectares adicionais para alcançar os atuais volumes de produção. “A tecnologia permitiu produzir mais utilizando menos área. Esse é um dos maiores ganhos da agricultura brasileira nas últimas décadas”, ressaltou.
Apesar dos avanços, os especialistas alertaram para a existência de diferentes realidades dentro do agronegócio. Dados apresentados durante o evento mostram que produtores mais capitalizados registram ganhos de produtividade superiores à média nacional. Por outro lado, agricultores com menor acesso a recursos financeiros e tecnologia apresentam evolução mais lenta.
A avaliação é que um dos grandes desafios para os próximos anos será ampliar o acesso à inovação para todos os perfis de produtores.
“Existe um agro dentro do agro brasileiro. O desafio é fazer com que mais agricultores tenham acesso às tecnologias que já estão disponíveis e consigam transformar produtividade em competitividade”, observou o palestrante.
Já Catarina Corrêa, gerente de Relações Institucionais da Bayer, abordou avanços em genética, biotecnologia e melhoramento de sementes dependem de um ambiente capaz de proteger a inovação e garantir segurança para os investimentos realizados ao longo de anos de pesquisa. A discussão abriu espaço para um dos temas mais sensíveis do setor atualmente: como garantir que a inovação chegue ao produtor rural e, ao mesmo tempo, seja protegida para estimular novos ciclos de investimento em pesquisa agrícola.
O consenso entre os participantes foi de que o futuro do agronegócio passa necessariamente pela combinação entre inovação, segurança jurídica, biotecnologia e acesso à tecnologia. Em um cenário de mudanças nos fluxos globais de comércio e de expansão dos biocombustíveis, esses fatores serão decisivos para manter a competitividade do Brasil como uma das principais potências agrícolas do mundo.