Da vassoura-de-bruxa à retomada: a trajetória do cacau brasileiro
Brasil revisita uma trajetória de altos e baixos que marca sua relação com o cacau
Foto: Pixabay
No Dia Mundial do Chocolate, celebrado nesta terça-feira (7), o Brasil revisita uma trajetória de altos e baixos que marca sua relação com o cacau: de potência mundial na virada do século 20 a vítima de uma das pragas mais devastadoras da agricultura nacional — e agora, décadas depois, em processo de recuperação gradual, puxado por Bahia e Pará.
O cacau chegou ao Brasil ainda no século 17 e encontrou na Bahia o solo ideal para prosperar, transformando o estado no principal polo produtor nacional e em um gigante mundial da cultura no início do século 20. Essa fase de expansão sustentou a economia regional e atraiu investimentos por décadas, até que, entre o fim dos anos 1980 e o início dos anos 1990, a vassoura-de-bruxa — doença causada pelo fungo Moniliophthora perniciosa — se espalhou pelas lavouras baianas. A praga dizimou plantações inteiras, derrubou drasticamente os volumes produzidos e provocou uma crise socioeconômica profunda na região, da qual o setor levaria décadas para começar a se recuperar.
O cenário atual, no entanto, aponta para uma retomada. Dados preliminares do Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA), do IBGE, projetam crescimento de 5,3% no volume de cacau produzido na Bahia em 2026 na comparação com 2025 — sinal de recomposição gradual depois de anos de retração agrícola na região. O movimento é puxado, em parte, pela valorização do cacau tanto no mercado nacional quanto no internacional, o que tem estimulado novos investimentos na cultura. A retomada também aparece nos números mais recentes da cadeia: o recebimento de amêndoas no primeiro trimestre de 2026 cresceu 61,1% frente ao mesmo período do ano passado, com Bahia e Pará concentrando praticamente toda a produção nacional, enquanto o Pará desponta como nova fronteira produtiva do cacau brasileiro.
A força de uma associação criada há mais de 20 anos
Parte dessa reorganização do setor tem origem em 2004, quando as principais indústrias moageiras identificaram a necessidade de uma entidade que representasse a cadeia diante dos desafios e oportunidades de crescimento do mercado. Nascia ali a Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC), formada desde então por Barry Callebaut, Cargill e Olam, com a chegada da IBC como nova associada em 2024. Juntas, essas empresas respondem por algo entre 93% e 95% de toda a compra e moagem de cacau no país — uma concentração que dá à AIPC papel central no debate sobre o futuro da cultura.
A cadeia do cacau vai muito além da moagem: segundo a associação, o setor sustenta mais de 4.000 empregos diretos e indiretos e integra uma rede de mais de 120 mil pessoas, entre produtores rurais e indústrias de chocolate, gerando cerca de R$ 23 bilhões por ano em valor para o país.
Chocolate em alta, mas com espaço para crescer
O avanço da matéria-prima tem reflexo direto na mesa do brasileiro. Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Cacau, Amendoim, Balas e Derivados (Abicab), o país produziu 805 mil toneladas de chocolate em 2024, volume que subiu para 814 mil toneladas em 2025. Os números de 2026 ainda não fecharam, mas o presidente da entidade, Jaime Recena, estima que a produção segue em trajetória de crescimento.
Ainda assim, o brasileiro consome bem menos chocolate que os grandes mercados mundiais: o consumo per capita no país é de quase 4 kg por ano, contra 9 kg a 10 kg por ano nos mercados norte-americano e europeu, de acordo com Recena — uma distância que a indústria enxerga como potencial de expansão para os próximos anos.
Preço elevado ainda pesa sobre a cadeia
Se a produção brasileira vive um momento de retomada, o mercado internacional segue em um patamar de preços que ajuda a explicar por que o chocolate não chega mais barato ao consumidor. Depois de meses de forte volatilidade, as cotações internacionais mostram sinais de acomodação, mas seguem elevadas: segundo a Organização Internacional do Cacau (ICCO), o preço diário da commodity foi de US$ 5.169,23 por tonelada em 1º de julho de 2026, recuando para US$ 5.116,52 por tonelada no dia seguinte. Nos contratos futuros de Nova York, as cotações ficaram em US$ 5.178,33 e US$ 5.141,67 por tonelada nos mesmos dias, enquanto em Londres os contratos fecharam em £ 3.883,00 e £ 3.811,33 por tonelada.
Mesmo abaixo dos picos históricos do período de escassez global, o mercado avalia que o cacau entrou em um novo patamar de preços, estruturalmente mais alto que o observado em anos anteriores. Para a indústria de chocolates e derivados, o desafio deixou de ser apenas a oscilação diária das bolsas e passou a ser o custo elevado da matéria-prima como um todo — o que reduz margens, limita promoções e mantém pressionados os preços de barras, bombons, coberturas, achocolatados e insumos usados pela confeitaria. No Brasil, as cotações acompanham esse movimento externo, somado a fatores internos como logística, disponibilidade de produto, qualidade das amêndoas e variação cambial.
É nesse cruzamento entre retomada histórica e preço internacional ainda pressionado que o Dia Mundial do Chocolate encontra o setor em 2026: mais de três décadas depois da crise causada pela vassoura-de-bruxa, o cacau brasileiro volta a crescer, mas o caminho até uma barra de chocolate mais acessível ainda passa por um mercado global em reacomodação.