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El Niño eleva risco para produção de cacau

Cacau tem superávit, mas segue volátil


Foto: Pixabay

O mercado global de cacau segue pressionado em meio ao ambiente macroeconômico marcado pela escalada do conflito entre Estados Unidos e Irã, com impactos diretos sobre os custos de energia, fretes e seguros. Nesse cenário, o aumento do prêmio de risco global tem influenciado a dinâmica da commodity, ao mesmo tempo em que fatores climáticos e o balanço entre oferta e demanda permanecem no radar dos agentes de mercado.

De acordo com a Hedgepoint Global Markets, a safra 2025/26 deve registrar superávit de cerca de 356 mil toneladas, volume levemente inferior à estimativa anterior. O resultado reflete uma recuperação parcial da produção combinada com retração da demanda, mantendo o mercado sensível a mudanças nos fundamentos, especialmente diante da maior probabilidade de ocorrência do El Niño.

Segundo Carolina França, analista de Inteligência de Mercado da Hedgepoint Global Markets, o cenário macroeconômico tem exercido influência direta sobre o setor. “As interrupções no Estreito de Ormuz e a maior insegurança no Mar Vermelho reduziram o tráfego por rotas estratégicas como o Canal de Suez, encarecendo fretes, seguros e afetando a logística global”, afirma.

Esse contexto também pressiona os custos de energia e fertilizantes, especialmente os nitrogenados, ampliando riscos inflacionários e adicionando volatilidade ao mercado de cacau.

No lado da demanda, a Ásia apresentou desempenho positivo no primeiro trimestre de 2026, com destaque para a Malásia, onde a moagem cresceu 8,7% no período. O avanço contribuiu para um crescimento de 5,2% na moagem asiática, região responsável por cerca de 23% do processamento global. Em sentido oposto, a Europa registrou queda de 7,8% na moagem, pressionada por importações líquidas reduzidas, enquanto os Estados Unidos também apresentaram retração no processamento.

No Brasil, a indústria enfrenta desafios adicionais, como restrições às importações, alterações no regime de drawback e incertezas regulatórias, em um cenário de leve queda na moagem no primeiro trimestre.

No campo da oferta, os principais países produtores atravessam uma fase do calendário agrícola entre a safra intermediária e o florescimento que dará origem à safra principal 2026/27, o que mantém o mercado atento às condições climáticas.

No médio e longo prazo, a maior probabilidade de ocorrência do El Niño surge como um dos principais pontos de atenção. “As projeções indicam que o evento pode se estender até o fim de 2026 e início de 2027, elevando os riscos para as commodities agrícolas em um contexto de possíveis temperaturas recordes. A análise de safras passadas indica que o El Niño não apresenta uma relação direta e homogênea com volumes de chuva ou níveis de produção, gerando efeitos distintos entre origens e muitas vezes defasados no tempo. Esses impactos refletem o caráter perene do cacau e a interação com condições climáticas regionais, podendo resultar tanto em perdas pontuais quanto em ajustes positivos posteriores. De forma geral, o fenômeno aumenta o risco produtivo e exige acompanhamento contínuo.”, destaca Carolina França.

Apesar da projeção de superávit para a safra 2025/26, o mercado segue suscetível a oscilações no curto prazo. Segundo a Hedgepoint Global Markets, o saldo positivo não elimina a volatilidade, já que mudanças em fatores como clima, demanda ou custos podem alterar rapidamente o equilíbrio global. “Mudanças em qualquer fundamento podem alterar significativamente esse equilíbrio”, conclui a especialista.

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