Como evitar perdas com caruncho no feijão
Manejo pós-colheita protege o feijão armazenado
Foto: Ibrafe
O armazenamento adequado do feijão é um dos principais aliados dos produtores para evitar perdas provocadas pelo caruncho, praga considerada uma das maiores responsáveis pela redução da qualidade e do valor comercial dos grãos após a colheita. O ataque é causado, principalmente, pelos insetos Acanthoscelides obtectus e Zabrotes subfasciatus, que se desenvolvem no interior dos grãos e podem comprometer o peso, a qualidade nutricional, o cozimento e até inviabilizar a comercialização de lotes.
Os danos provocados pelo caruncho ocorrem, em muitos casos, durante o período de armazenagem, quando o manejo pós-colheita não recebe a mesma atenção dedicada ao controle de pragas na lavoura. Grãos armazenados com umidade acima do recomendado, em galpões quentes, sem higienização adequada ou em estruturas mal organizadas criam um ambiente favorável para a rápida multiplicação dos insetos.
O ciclo da praga começa quando as fêmeas depositam ovos sobre os grãos ou em pequenas fissuras da casca. Após a eclosão, as larvas penetram no interior do feijão, onde consomem o tecido rico em amido e proteína até completarem o desenvolvimento. Ao emergirem como adultos, deixam perfurações características e reiniciam o ciclo, ampliando a infestação, principalmente em ambientes quentes e úmidos.
Além da redução no peso dos grãos, o ataque provoca aumento da quebra, piora da classificação comercial, perda de qualidade para cocção, redução do valor nutricional e maior risco de contaminação por fungos, já que as perfurações facilitam a entrada de microrganismos. Em situações mais severas, os lotes podem ser recusados por compradores ou destinados apenas à alimentação animal.
Antes mesmo do armazenamento, o planejamento é apontado como uma etapa decisiva para reduzir riscos. Entre os principais cuidados estão a secagem adequada dos grãos, a medição do teor de umidade, a inspeção para identificar a presença inicial de insetos, a avaliação das condições do armazém e da infraestrutura disponível para conservação do produto.
O controle da umidade é considerado uma das medidas mais importantes para preservar o feijão armazenado. A recomendação é que os grãos sejam armazenados apenas quando atingirem níveis seguros de umidade, evitando que o excesso favoreça tanto o desenvolvimento do caruncho quanto de fungos. Também é indicado monitorar esse índice durante todo o período de estocagem.
A limpeza das instalações também desempenha papel fundamental no controle da praga. Restos de grãos, poeira, sacarias antigas e rachaduras em pisos e paredes podem servir de abrigo para os insetos. Por isso, a recomendação é remover resíduos antes da entrada de um novo lote, descartar corretamente materiais contaminados e manter telas de proteção para reduzir o acesso de insetos ao ambiente.
O feijão pode ser armazenado tanto em sacarias quanto em sistemas a granel. Nas sacarias, é importante manter os sacos sobre estrados, afastados das paredes e organizados de forma a facilitar a circulação de ar e o monitoramento dos lotes. Já os sistemas graneleiros permitem maior controle da temperatura, da ventilação e, em alguns casos, da atmosfera interna, reduzindo o risco de infestação.
Outra alternativa é o uso de embalagens herméticas e sistemas de atmosfera modificada. Nessas condições, o próprio processo de respiração dos grãos reduz a concentração de oxigênio e aumenta o gás carbônico no interior da embalagem, criando um ambiente desfavorável para a sobrevivência dos carunchos, desde que o produto seja armazenado com umidade adequada e a vedação seja eficiente.
O controle da temperatura também contribui para reduzir a proliferação da praga. Entre as recomendações estão manter boa ventilação nos galpões, proteger as estruturas da incidência direta do calor e, quando possível, utilizar sistemas de aeração para manter temperaturas mais baixas e homogêneas na massa de grãos.
Mesmo com todas as medidas preventivas, o monitoramento periódico continua sendo indispensável. A retirada de amostras em diferentes pontos dos lotes, a inspeção visual em busca de perfurações e insetos adultos e o acompanhamento da temperatura e da umidade ajudam a identificar precocemente qualquer foco de infestação.
O manejo do caruncho também começa ainda na lavoura. A colheita no momento correto, a redução de danos mecânicos durante a operação e o beneficiamento, além da limpeza constante das áreas próximas ao armazém, diminuem as chances de que a praga seja levada para os lotes armazenados.
Caso seja necessário recorrer ao controle químico, a orientação é seguir rigorosamente a legislação vigente, utilizando apenas produtos registrados para grãos armazenados, mediante receituário agronômico, com acompanhamento de profissional habilitado e adoção dos equipamentos de proteção individual exigidos para garantir a segurança durante as operações.
O manejo integrado, reunindo colheita adequada, secagem, higienização, armazenamento correto, monitoramento constante e, quando necessário, controle químico orientado tecnicamente, é apontado como a estratégia mais eficiente para reduzir perdas e preservar a qualidade do feijão durante todo o período de armazenagem. Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação de um(a) engenheiro(a) agrônomo(a) em condições reais de campo.