Transição sustentável exige novos incentivos
Um dos pontos destacados é o viés do presente
Um dos pontos destacados é o viés do presente - Foto: Pixabay
A adoção de práticas sustentáveis no agronegócio tem avançado, mas ainda em ritmo inferior ao exigido pela urgência climática e pelas novas demandas de competitividade. Segundo Clandio Ruviaro, professor associado, os sistemas agroalimentares respondem por cerca de 31% das emissões globais, chegando a 16 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente, o que transforma a sustentabilidade em tema central para a sobrevivência econômica e a resiliência dos negócios.
Apesar da pressão crescente, a transição encontra obstáculos que vão além de tecnologia, crédito ou regulação. Um dos principais entraves está no comportamento humano. Pela ótica da Economia Comportamental, as decisões no campo não seguem apenas critérios racionais, já que produtores e empresas também são influenciados por percepções de risco, experiências anteriores e pela necessidade de proteger resultados imediatos.
Um dos pontos destacados é o viés do presente. A agricultura regenerativa exige investimento, adaptação e aprendizado no curto prazo, enquanto benefícios como recuperação do solo, eficiência produtiva e eventuais prêmios ESG tendem a aparecer mais adiante. Na prática, a segurança da safra atual costuma pesar mais do que ganhos futuros. Por isso, incentivos imediatos, como crédito mais barato, pagamentos por serviços ambientais e mecanismos que tornem a decisão sustentável mais concreta, podem acelerar a mudança.
Também pesa a aversão à perda, associada ao viés do status quo. Alterar um modelo produtivo consolidado é frequentemente visto como risco elevado, sobretudo diante do receio de queda de produtividade, margem ou previsibilidade. Nesse cenário, seguros agrícolas, assistência técnica e projetos-piloto podem reduzir a percepção de risco e permitir testes sem comprometer o negócio.
Outro fator relevante é a forma como a sustentabilidade é apresentada. Quando aparece como custo, obrigação ou sacrifício, tende a gerar resistência. Ao ser enquadrada como oportunidade de inovação, eficiência, acesso a mercados e atração de investimentos, passa a dialogar com a competitividade. Além disso, as normas sociais influenciam decisões no campo. Casos locais de sucesso ajudam a mostrar que práticas de baixo carbono já podem fazer parte de sistemas rentáveis.