Déficit de petróleo deve persistir no 3º trimestre
Recuperação total dos níveis anteriores ao conflito é esperada apenas para 2027
Foto: Agência Petrobras
O mercado global de petróleo deve continuar operando em déficit ao longo do terceiro trimestre de 2026, mesmo após o cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã ter aliviado os preços no início de junho. É o que aponta a 36ª edição do Relatório Trimestral de Perspectivas para Commodities, divulgado pela StoneX no dia 7 de julho, que avalia os principais fatores que devem influenciar os mercados de commodities nos próximos meses.
O segundo trimestre de 2026 foi marcado pela maior disrupção de oferta de petróleo da história recente. O bloqueio do Estreito de Ormuz e a escalada do conflito entre Estados Unidos e Irã interromperam parte significativa dos fluxos vindos do Golfo Pérsico, levando o contrato mais ativo do Brent a superar os USD 118 por barril no final de abril — o maior patamar em quatro anos. Com o acordo de cessar-fogo mediado pelo Paquistão, as cotações recuaram para a faixa de USD 92 por barril no começo de junho.
Apesar da queda nos preços, a oferta global segue comprometida. Segundo dados divulgados pela StoneX, com base em informações da OPEP, a produção conjunta do grupo caiu cerca de 10 milhões de barris por dia entre fevereiro e maio, reflexo direto dos gargalos logísticos enfrentados pelos produtores do Golfo Pérsico. O tráfego de navios pelo Estreito de Ormuz, que costuma registrar em torno de 45 travessias diárias, ficou reduzido a apenas duas passagens por dia durante o auge do conflito.
Diante do cenário, os Estados Unidos assumiram papel de destaque para amortecer a crise, elevando as exportações de petróleo e derivados para 12,8 milhões de barris por dia entre abril e junho — movimento sustentado, em parte, pelo uso dos estoques estratégicos do país, que caíram ao menor nível desde 1983. Outros produtores, como Brasil, Cazaquistão, China, Guiana e Canadá, também ampliaram participação no abastecimento global, mas não o suficiente para compensar integralmente as perdas registradas no Golfo Pérsico.
"O mercado encontrou fontes alternativas de suprimento ao longo do segundo trimestre, mas elas não foram capazes de substituir completamente os volumes perdidos na região do Golfo. Isso manteve o balanço global apertado e contribuiu para uma redução importante das reservas ao redor do mundo", afirma Bruno Cordeiro Santos, especialista de Inteligência de Mercado da StoneX.
Na Ásia, os efeitos da crise foram sentidos com força. Em maio, a China registrou o menor volume de importação de petróleo dos últimos oito anos, com queda expressiva na utilização das refinarias estatais. Já a Índia reduziu as compras externas e aumentou a dependência do petróleo russo para manter o abastecimento interno.
De acordo com a StoneX, a normalização da oferta global deve ser gradual ao longo do segundo semestre. Projeções do Departamento de Energia dos Estados Unidos indicam que a produção conjunta da OPEP12 e dos Emirados Árabes Unidos — que recuou para 19,4 milhões de barris por dia em maio — só deve retornar a um patamar próximo de 29 milhões de barris por dia no quarto trimestre deste ano. A recuperação total dos níveis anteriores ao conflito, por sua vez, é esperada apenas em 2027.
"A recomposição da produção no Golfo Pérsico tende a ser mais lenta do que a queda observada durante a crise. Além dos desafios operacionais, ainda existe cautela por parte das empresas marítimas e limitações logísticas importantes que podem retardar a normalização dos fluxos comerciais", destaca Cordeiro. A capacidade dos Estados Unidos de seguir atuando como amortecedor do mercado também deve ficar mais limitada nos próximos meses. Ainda que a produção americana continue em expansão, o nível historicamente baixo dos estoques estratégicos reduz a margem de resposta a eventuais novos choques de oferta — e a temporada de furacões no Golfo do México acrescenta um risco adicional à produção offshore do país. No Leste Europeu, a guerra entre Rússia e Ucrânia segue como variável relevante, já que ataques a portos, refinarias e oleodutos continuam ameaçando os fluxos energéticos russos.