Goiás perde força na safra de grãos e acende alerta para 2026/27
Goiás cai para 4º lugar entre maiores produtores de grãos
Foto: Divulgação
Goiás caiu da terceira para a quarta colocação no ranking nacional de produção de grãos na safra 2025/26, com redução de 11,4% no volume produzido. Segundo dados divulgados pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o milho segunda safra foi o principal responsável pelo resultado, em um ciclo marcado por atraso no plantio e restrição hídrica.
O Estado foi ultrapassado pelo Rio Grande do Sul e se tornou o único entre os oito maiores produtores brasileiros a registrar queda na produção. Enquanto Goiás recuou 11,4%, o Brasil alcançou novo recorde, com aproximadamente 360,8 milhões de toneladas, alta de 2,4% sobre a safra anterior.
Produção de grãos de Goiás recua
A produtividade foi um dos principais fatores que explicaram o desempenho goiano na safra 2025/26. Segundo dados divulgados pela Conab, o milho segunda safra teve estimativa de queda de 31,4% na produção. Para Vilmar Eurípedes, analista de mercado do Instituto para o Fortalecimento da Agropecuária de Goiás (Ifag), o resultado está ligado à combinação entre condições climáticas desfavoráveis e atraso no calendário de plantio.
“De fato, Goiás acabou sendo um destaque negativo entre os grandes estados produtores, e o milho segunda safra explica a maior parte dessa redução. O clima pesou justamente em fases críticas da cultura, principalmente na floração e no enchimento dos grãos. Além disso, o atraso da soja comprometeu a janela de semeadura do milho e aumentou a exposição das lavouras à restrição hídrica”, explica.
Atraso da soja comprometeu a safrinha
Segundo Vilmar Eurípedes, o problema começou ainda durante o plantio da soja. A falta de chuvas satisfatórias atrasou a semeadura da oleaginosa, enquanto o excesso de chuva posteriormente dificultou o avanço da colheita.
Esse cenário estreitou a janela disponível para o plantio do milho segunda safra e aumentou o risco climático enfrentado pelas lavouras. “Essa soma de fatores pressionou o plantio do milho para fora da janela ideal. Cerca de 43% do milho foi plantado fora da janela que consideramos ideal, que seria até aproximadamente 20 de fevereiro”, afirma o analista do Ifag.
Menor produção pode elevar compras de milho
A queda na oferta estadual também pode afetar o abastecimento de milho em Goiás. A demanda pelo cereal é impulsionada por atividades como a produção de etanol e a cadeia de proteína animal. “Foi uma redução significativa em relação à última safra. O setor sucroenergético para a produção de etanol através do milho está crescendo bastante e o consumo animal também está aquecido. No futuro, pode ser que a gente precise trazer milho de outro estado para atender à demanda”, avalia Vilmar.
O analista explica que empresas goianas já recorrem normalmente à compra de milho produzido em outras regiões. A diferença, diante da menor produção estadual, pode estar na necessidade de antecipar essas operações ou ampliar os volumes adquiridos.
Safra 2026/27 exige planejamento
Diante das perdas registradas na safra 2025/26, o planejamento para o próximo ciclo ganha importância. Segundo Vilmar, o cenário financeiro dos produtores também exige cautela, especialmente diante do nível de endividamento e das dificuldades de acesso ao crédito. “O planejamento também ocorre em meio ao fortalecimento do El Niño. A atualização do NOAA/CPC de 13 de agosto aponta mais de 90% de probabilidade de o fenômeno atingir intensidade muito forte durante o segundo semestre de 2026 e o início de 2027”, destaca.
Para Goiás, um dos principais pontos de atenção será a regularização das chuvas durante a primavera, período decisivo para a implantação da soja e, posteriormente, para a formação da janela de plantio do milho segunda safra. “É de extrema importância que o produtor se atente bastante, principalmente porque grande parte dos produtores está com um endividamento elevado e com as contas mais apertadas. Ele precisa buscar estratégias para reduzir os riscos que vai correr”, pontua.
Sorgo ganha espaço como alternativa
O analista recomenda atenção às janelas estabelecidas pelo zoneamento agrícola e avaliação criteriosa das culturas escolhidas. Uma das alternativas adotadas na última safra foi a substituição de parte do milho pelo sorgo, especialmente em áreas com maior risco de restrição hídrica. “A safrinha pode ser uma oportunidade para buscar um pouco mais de lucro, mas também envolve um risco muito elevado. É importante investir com segurança, respeitar as janelas estabelecidas para o zoneamento e buscar alternativas, como o sorgo, que muitos produtores adotaram nesta safra para reduzir o risco do cultivo”, afirma Vilmar.
Fertilizantes pressionam custos da segunda safra
Os preços e a disponibilidade de fertilizantes também permanecem no radar dos produtores para a segunda safra. Segundo Vilmar, o custo dos insumos pode comprometer diretamente o orçamento das propriedades, principalmente porque o cultivo exige desembolso relevante. “O fertilizante tem impacto direto no bolso do produtor, já que a segunda safra exige um desembolso relevante com insumos, o que pressiona ainda mais o fluxo de caixa do produtor. Entre os principais fertilizantes utilizados na segunda safra, observamos altas expressivas nas cotações de mercado acompanhadas pela Confederação Nacional. Entre janeiro e junho, a ureia acumulou alta de 26%, o MAP avançou 24%, o cloreto de potássio subiu 9% e o sulfato de amônio registrou valorização de 15%”, explica.
Crédito continua como desafio
O acesso ao crédito também é apontado como um dos principais pontos de atenção para o planejamento da atividade. Além dos juros, produtores que acumulam perdas ou já possuem garantias comprometidas podem encontrar dificuldades adicionais para obter novos recursos. “A obtenção do crédito vem se tornando cada vez mais rigorosa. Muitos produtores já estão apertados pelas perdas das últimas safras e, em alguns casos, têm as garantias comprometidas. Isso acaba criando uma série de dificuldades para conseguir financiamento e tocar a atividade”, conclui.