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Bicudo pode comprometer formação de maçãs no algodão

Praga é a principal deste período


Foto: Pixabay

O estádio reprodutivo do algodoeiro, quando a planta emite botões florais, flores e maçãs, é a fase mais sensível a pragas sugadoras e mastigadoras, com potencial de comprometer diretamente a produtividade e a qualidade da fibra. De acordo com Lourenção e Grigolli (2015), o bicudo-do-algodoeiro (Anthonomus grandis) é a principal praga desse período, atacando botões e flores e provocando queda e redução do pegamento de maçãs. Também representam ameaça os percevejos, como Dysdercus spp. e Piezodorus guildinii, que sugam maçãs e sementes em desenvolvimento, causando deformação, queda de frutos e manchas na fibra. Completam a lista as lagartas de estruturas reprodutivas, capazes de perfurar flores e maçãs jovens, a mosca-branca (Bemisia tabaci), que suga seiva e excreta fumagina, e os ácaros, que tendem a aumentar em lavouras com uso intenso de inseticidas não seletivos, segundo dados divulgados pela Embrapa Algodão.

Os danos causados por essas pragas nem sempre são percebidos de imediato, o que reforça a importância da observação atenta no campo. Segundo Gallo et al. (2002), o bicudo perfura botões e flores para oviposição e alimentação, causando aborto e queda dessas estruturas — em infestações altas, a formação de maçãs na parte baixa e média das plantas pode ser drasticamente reduzida, deslocando a produção para as partes superiores e aumentando o risco de perdas por chuvas tardias na colheita. Os percevejos, por sua vez, provocam queda de maçãs jovens ao sugar sementes e tecidos internos, além de causarem manchas na fibra e sementes chochas ou mal formadas, o que afeta tanto o rendimento de óleo quanto a classificação da fibra. Já a mosca-branca, ao favorecer o surgimento de fumagina em folhas e estruturas próximas, interfere no processo fotossintético e pode comprometer a limpeza da fibra colhida, de acordo com a Embrapa.

A identificação desses sintomas no talhão passa por um monitoramento sistemático, que deve considerar o registro de porcentagem de botões perfurados ou caídos, presença de orifícios em maçãs, sintomas de sucção em frutos e manchas em sementes, além de sinais foliares como bronzeamento, amarelecimento e presença de fumagina.

A tomada de decisão sobre o controle, conforme dados divulgados pela Embrapa Algodão, deve ser baseada em monitoramento sistemático, e não em calendário fixo. A recomendação é realizar inspeções semanais, podendo aumentar a frequência para duas vezes por semana em períodos de maior pressão de pragas ou em áreas com histórico crítico, inspecionando um número representativo de plantas por talhão em zigue-zague ou transectos. A decisão pela aplicação de inseticidas deve considerar os níveis de ação — parâmetros que estabelecem a densidade de pragas ou o percentual de estruturas danificadas a partir do qual o controle se torna economicamente justificado. Esses valores podem variar conforme cultivar, época de plantio, tecnologia empregada e custo de controle, devendo ser sempre consultados em publicações técnicas e ajustados com apoio de engenheiro agrônomo. Segundo Lourenção e Grigolli (2015), na fase de maior pegamento de maçãs, o limite de tolerância a perdas de botões tende a ser menor, já que qualquer falha nessa janela reduz o número final de frutos — o que explica por que a decisão baseada em nível de infestação real tende a ser mais eficiente do que a aplicação preventiva por calendário, prática que eleva custos e o risco de resistência sem necessariamente corresponder à pressão real de pragas presente na lavoura.

Esse risco de resistência é justamente um dos pontos de atenção levantados por Silva et al. na Revista Brasileira de Oleaginosas e Fibrosas: o uso contínuo de um mesmo grupo químico e as aplicações sem critério de nível de ação favorecem a resistência em bicudo, percevejos e mosca-branca, além de reduzirem as populações de inimigos naturais, abrindo espaço para que pragas secundárias, como os ácaros, atinjam níveis de dano. Para preservar a eficácia dos inseticidas ao longo da safra, a orientação da Embrapa é integrar diferentes táticas de controle — culturais, biológicas e químicas —, com rotação de ingredientes ativos e seleção de produtos mais seletivos a inimigos naturais, sempre seguindo rótulo e bula. Agentes de controle biológico à base de bactérias, fungos entomopatogênicos, vírus e parasitoides são citados como alternativas mais seletivas e compatíveis com a preservação de inimigos naturais, podendo ser usados de forma preventiva ou no início da infestação, desde que a compatibilidade com produtos químicos seja verificada previamente.

O planejamento das próximas semanas de manejo deve considerar a integração entre dados climáticos e o estágio fenológico da planta, aponta a Embrapa Algodão. O acompanhamento do estádio da cultura — início de florescimento, pico de formação de maçãs ou fase final de enchimento — combinado à previsão climática ajuda a antecipar decisões, já que a sensibilidade da planta às perdas de estruturas reprodutivas varia ao longo do ciclo. O manejo de bordaduras também é destacado como ponto de atenção, uma vez que essas faixas podem concentrar a entrada de pragas como bicudo e percevejos, exigindo monitoramento mais intenso nessas áreas.

Entre as práticas que devem ganhar espaço nas próximas safras para reduzir a dependência do controle químico, Lourenção e Grigolli (2015) citam a preservação de inimigos naturais por meio da manutenção de cobertura vegetal adequada e da seleção de inseticidas mais seletivos, além de ações voltadas à nutrição e sanidade da planta — já que cultivos bem nutridos e sem estresse hídrico tendem a suportar melhor ataques moderados. A dessecação e a destruição correta dos restos culturais ao final do ciclo também são apontadas pela Embrapa Algodão como etapas-chave para reduzir a população de pragas que sobreviveriam entre safras, especialmente o bicudo, com impacto direto sobre a pressão de pragas reprodutivas na safra seguinte. O manejo de plantas daninhas, quando equilibrado e sem eliminação total da vegetação benéfica, é mencionado como fator que também contribui para a conservação de predadores e parasitoides na lavoura.

 

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