Método identifica uso real de irrigação no campo
Tecnologia identifica áreas agrícolas irrigadas por meio da umidade do solo com IA
Foto: Pixabay
A Embrapa Territorial desenvolveu um método baseado em imagens de satélite e Inteligência Artificial para mapear a variação anual de áreas agrícolas irrigadas a partir dos índices de umidade do solo. A iniciativa atende a uma demanda do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional para monitoramento de políticas públicas voltadas à irrigação e já está sendo aplicada em polos localizados nos estados de Goiás e Mato Grosso.
Responsável pelo mapeamento inicial em Goiás, o analista Rafael Mingoti explicou que o desafio foi diferenciar áreas efetivamente irrigadas daquelas que apenas possuem infraestrutura. “O objetivo é identificar as terras que foram efetivamente irrigadas no ano em questão e não as que apenas têm a infraestrutura”, afirmou. Segundo ele, o método utiliza índices de umidade obtidos por imagens do satélite Sentinel-2 para superar limitações de abordagens anteriores.
O trabalho também considera particularidades regionais, como o uso da irrigação durante o período chuvoso em Goiás, motivado por veranicos e irregularidade climática. O coordenador do MIDR, Antônio Guimarães Leite, destacou que a tecnologia é aplicada em diferentes regiões do país tanto para evitar perdas quanto para ampliar a janela de cultivo. “Em algumas situações, isso permite estender a janela de cultivo e viabilizar até três colheitas no mesmo ano agrícola”, disse.
Para diferenciar a umidade causada por chuva da irrigação, os pesquisadores utilizam padrões geométricos das áreas cultivadas. “Nós usamos outros indicadores. Geralmente as áreas irrigadas não são muito pequenas e têm formatos regulares - retângulos, círculos ou triângulos”, explicou Mingoti. Além disso, o método incorpora tecnologia de radar e vetorização para aumentar a precisão na medição das áreas.
A metodologia já foi aplicada em polos de irrigação em Goiás e Mato Grosso, com resultados iniciais indicando crescimento de áreas irrigadas. Em um dos polos goianos, foi registrado aumento de 7 mil hectares entre 2023 e 2024. Os dados devem ser integrados ao Sistema Nacional de Informações sobre Irrigação para subsidiar políticas públicas.
Segundo Leite, a irrigação tem impacto direto no desenvolvimento regional. “Em fruticultura, por exemplo, um hectare irrigado gera até três empregos. É uma forma muito eficiente de gerar renda e emprego”, afirmou. Ele destacou que o país historicamente enfrentou limitações na obtenção de dados precisos sobre irrigação.
Esse cenário começou a mudar com o lançamento do Atlas Irrigação pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, que apontou que 98% das áreas irrigadas estavam fora de programas oficiais. A partir desse diagnóstico, foram estruturadas políticas públicas e a organização territorial em polos de irrigação.
Com a ampliação dos programas, surgiu a necessidade de monitoramento contínuo. “Procuramos a Embrapa Territorial para desenvolvermos um método que permitisse verificar, dentro dos polos em que o Ministério já vem trabalhando a política pública, o que tem acontecido. A área está se expandindo? A expansão tem ocorrido dentro do previsto?”, afirmou Leite.
Para o coordenador, a disponibilidade de água para irrigação é um diferencial estratégico e está diretamente relacionada à segurança alimentar. “Quando falamos em segurança alimentar, não se trata só de ter comida na mesa, mas também dessa variedade nutricional. Precisamos pensar nessa política tão importante para a vida do brasileiro e trabalhar de forma mais organizada. Só conseguiremos isso com informação”, concluiu.