Colheita de milho na chuva: como reduzir perdas
Os impactos da chuva vão além da redução do rendimento
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Em anos em que a colheita do milho coincide com frentes frias, chuvas frequentes ou atraso do período seco nos principais polos produtores do país, como Bahia, Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Piauí, Paraná e Rio Grande do Sul, o produtor precisa mudar a lógica de trabalho no campo. O foco passa a ser planejar a ordem de colheita dos talhões, ajustar as máquinas para grãos mais úmidos, evitar áreas encharcadas e organizar toda a logística de transporte e secagem para dar conta de picos de fluxo em janelas curtas de bom tempo.
A colheita do milho nessas regiões frequentemente coincide com períodos de transição de estação, principalmente em safras semeadas tardiamente ou em segunda safra. Quando as chuvas se prolongam ou vêm em sequência, a colheita é interrompida e o milho permanece mais tempo no campo, o que eleva os riscos agronômicos e operacionais. Entre os principais problemas está o atraso da colheita além do ponto ideal, o reumedecimento de espigas e grãos já secos — favorecendo fungos e micotoxinas —, o aumento de acamamento e quebramento de colmos, a maior ocorrência de espigas caídas ou quebradas com perdas na plataforma, a dificuldade de acesso das máquinas por atolamento, o aumento de umidade dos grãos na entrada da secagem e o maior risco de grãos ardidos, chochos e de menor peso hectolítrico.
O ponto fisiológico de maturação do milho é indicado pela formação da camada preta na base do grão, quando o enchimento de grãos se encerra e o potencial produtivo já está definido, segundo a Embrapa Milho e Sorgo (2012). A partir desse ponto, o que ocorre é principalmente perda de umidade e aumento do risco de perdas de campo. Em condições ideais, com clima seco e boa previsão de tempo, a recomendação é colher na faixa de umidade que equilibra menor dano mecânico, menor custo de secagem e menor tempo de exposição da lavoura a chuvas, ventos e pragas. Com chuvas recorrentes na época de colher, porém, a lavoura pode ficar em campo por semanas adicionais, o que aumenta as infecções por fungos de espiga, como Fusarium e Aspergillus, e o risco de micotoxinas, incluindo fumonisinas e aflatoxinas, além das perdas de espigas no chão e da degradação da palha e do pendão, que expõem as espigas. Por isso, em anos chuvosos, é comum antecipar a colheita para faixas de umidade um pouco mais elevadas do que em anos ideais, desde que a unidade de secagem e a estrutura de armazenagem suportem esse aumento de carga de umidade — decisão que deve ser tomada com base em análises técnicas e econômicas, sempre em conjunto com um engenheiro agrônomo e o responsável pela pós-colheita.
Os impactos da chuva vão além da redução do rendimento em toneladas por hectare e atingem diretamente a qualidade comercial e industrial do grão. No campo, aumentam as espigas caídas ou arrancadas por vento e chuva forte, os grãos debulhados naturalmente e perdidos no solo, e as espigas roladas entre linhas, mais difíceis de recolher pela plataforma. Na qualidade física, cresce a proporção de grãos quebrados e partidos, resultado da combinação entre reumedecimento e secagem rápida com ajustes inadequados da colhedora, além do aumento de impurezas e da redução do peso hectolítrico, penalizado na classificação comercial. Do ponto de vista sanitário, a Embrapa (2015) aponta maior incidência de grãos ardidos e mofados e elevação do risco de presença de micotoxinas, o que prejudica o uso do milho tanto para ração animal quanto para alimentação humana, podendo levar ao descarte de lotes contaminados. No campo operacional, o produtor enfrenta maior consumo de combustível pelo esforço das máquinas em solos úmidos, aumento do tempo de ciclo da colheita, maior custo e tempo de secagem, e possível redução da vida útil dos equipamentos por trabalho em condições mais severas.
A decisão de iniciar ou interromper a colheita em períodos chuvosos deve considerar diversos fatores além da umidade do grão. A situação da lavoura pesa na análise, com observação do grau de maturação pela camada preta e coloração das espigas e da palha, do nível de acamamento e quebramento — priorizando talhões com mais plantas tombadas — e do histórico de doenças de espiga, já que áreas com maior pressão de fungos devem permanecer menos tempo em campo. A condição do solo e do acesso também entra na equação, considerando a capacidade de suporte do solo, a presença de áreas encharcadas e baixadas e a condição das estradas internas e externas para escoamento do grão. A infraestrutura de secagem e armazenagem disponível, incluindo a capacidade de secagem em toneladas por hora e o volume de grãos que poderá ser colhido nas próximas janelas de bom tempo, além da previsão meteorológica de curto prazo e da tendência para os dias seguintes, completam os critérios que orientam essa decisão. Em geral, a tendência técnica em anos chuvosos é antecipar a colheita, desde que o sistema de pós-colheita esteja preparado para isso.
O ajuste da colhedora é outro ponto central quando os grãos estão mais úmidos e a palha ainda verde ou parcialmente úmida. Na plataforma, é preciso revisar a regulagem das pontas divisoras e dos rolos puxadores para minimizar a perda de espigas, especialmente em lavouras com acamamento, além de ajustar a altura de corte e, em áreas com espigas caídas, reduzir a velocidade de deslocamento. No cilindro ou rotor, a recomendação é reduzir a rotação e ajustar a abertura do côncavo conforme as orientações do fabricante, para minimizar danos mecânicos em grãos mais úmidos. No sistema de limpeza, a abertura das peneiras e o fluxo de ar do ventilador devem ser ajustados para lidar com maior presença de palha úmida sem perder grãos por arraste, com limpezas mais frequentes para evitar entupimentos. A velocidade de trabalho também deve ser reduzida em solos úmidos, tanto para evitar patinagem quanto para melhorar o recolhimento em lavouras com acamamento e espigas baixas. Pereira Filho e Cruz recomendam medir as perdas de colheita em diferentes regulagens, utilizando bandejas de coleta e cálculos de perda aceitável, conforme manuais técnicos e orientação da assistência técnica.
Quando a capacidade operacional é limitada pela chuva, a priorização de talhões e o sequenciamento estratégico da colheita se tornam essenciais. Devem ser priorizadas as áreas com maior risco de acamamento, os talhões com maior pressão de doenças de espiga ou histórico de grãos ardidos, e as áreas de acesso mais difícil, que tendem a ficar intransitáveis com novas chuvas. A colheita também precisa ser planejada em função da capacidade de recebimento dos secadores e silos, evitando longos períodos com grãos úmidos sem aeração adequada, com alinhamento prévio junto às unidades de secagem terceirizadas quando for o caso. O transporte interno e externo deve ser organizado com rotas que evitem trechos mais sujeitos a lama e atolamentos, e em alguns casos pode ser viável ampliar a jornada para turnos noturnos, quando o solo se apresenta mais firme, desde que garantidas segurança, equipe treinada e manutenção preventiva adequada.
Colher milho em solo úmido aumenta consideravelmente o risco de compactação, principalmente nas camadas subsuperficiais, o que prejudica o desenvolvimento radicular e a infiltração de água nas safras seguintes. Entre as estratégias mitigadoras estão evitar entrar em áreas visivelmente encharcadas ou saturadas, mesmo que isso exija colher talhões em etapas, utilizar sistemas de tráfego controlado concentrando o rodado das máquinas nas mesmas faixas, ajustar a calibragem dos pneus para menor pressão quando tecnicamente possível e avaliar o uso de pneus de alta flutuação ou esteiras em áreas mais sensíveis. Após a safra, o monitoramento da compactação com penetrômetro pode indicar a necessidade de intervenções como escarificação ou subsolagem localizada, sempre integradas ao sistema de manejo de solo e rotação de culturas.
Nos cuidados de pós-colheita, a Embrapa (2015) recomenda medir a umidade de todos os carregamentos, evitando misturar volumes com umidades muito diferentes no mesmo silo, e não manter grãos úmidos parados por longos períodos sem aeração adequada, já que isso favorece aquecimento, mofo e desenvolvimento de fungos produtores de micotoxinas. A temperatura e o tempo de secagem devem ser ajustados para evitar fissuras excessivas nos grãos, que resultam em maior quebra na movimentação, com monitoramento regular da temperatura e da umidade em diferentes pontos dos silos. Em lotes suspeitos — grãos ardidos, cheiro de mofo ou histórico de chuva prolongada na pré-colheita — a recomendação é realizar amostragens e análises específicas de micotoxinas.