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Fim da escala 6x1 preocupa o campo: "uma lavoura não espera"

Abisolo defende diálogo antes de qualquer mudança na jornada de trabalho rural


Foto: Divulgação

A discussão sobre o fim da escala 6x1 chegou ao agronegócio — e o setor pede cautela. Em artigo publicado pelo presidente do Conselho Deliberativo da Abisolo, Clorialdo Roberto Levrero, a entidade defende que qualquer mudança na jornada de trabalho rural precisa considerar as especificidades operacionais do campo antes de ser implementada. O argumento central é direto: a agricultura opera sob condições biológicas, climáticas e sazonais que não se encaixam em calendários legislativos nem em jornadas fixas predefinidas.

O ponto de partida do argumento do setor é a natureza da atividade agrícola. "Uma lavoura não espera. Uma janela de plantio ou colheita perdida pode representar prejuízos irreversíveis para toda uma safra", escreve Levrero. Situações emergenciais envolvendo pragas, doenças, condições climáticas adversas ou manejo de culturas "exigem respostas imediatas" — e, nesses casos, a produtividade e a viabilidade econômica da atividade dependem justamente da capacidade de agir no momento certo.

A diversidade interna do setor também é destacada. A dinâmica de uma propriedade produtora de grãos é distinta da horticultura, da fruticultura, da cana-de-açúcar ou da pecuária. Há atividades com forte concentração operacional em períodos específicos do ano e outras que exigem acompanhamento permanente — o que, segundo a entidade, torna inviável uma regulamentação uniforme para todo o setor.

A Abisolo não questiona a legitimidade do debate. "Toda iniciativa voltada ao aperfeiçoamento das relações de trabalho deve ser analisada com responsabilidade, equilíbrio e diálogo", reconhece Levrero. A preocupação está na forma: o risco, segundo ele, é "criar obstáculos operacionais para atividades que já enfrentam desafios relacionados à disponibilidade de mão de obra qualificada, aumento de custos de produção e necessidade constante de ganhos de eficiência."

O presidente do conselho aponta que muitos segmentos produtivos já possuem mecanismos de negociação coletiva e modelos de organização do trabalho adaptados às suas necessidades. "Em grande parte dos casos, a própria dinâmica do mercado permitiu construir soluções equilibradas entre empregadores e trabalhadores, respeitando as características de cada atividade", afirma.

Os impactos econômicos também estão no centro da preocupação. Levrero alerta que "alterações abruptas na jornada podem ampliar significativamente os custos operacionais, pressionando despesas com horas extras, novas contratações e encargos trabalhistas." Esse aumento, segundo ele, "inevitavelmente repercute ao longo de toda a cadeia, chegando à indústria, à distribuição e, por fim, ao consumidor." Há ainda o risco de efeito colateral indesejado: o crescimento da informalidade. "Quando uma legislação não consegue refletir adequadamente a realidade operacional dos diferentes setores produtivos, surgem distorções que podem gerar exatamente o efeito contrário ao pretendido, dificultando relações de trabalho equilibradas", escreve o dirigente.

O contexto macroeconômico reforça o argumento. Em um momento em que o Brasil busca ampliar sua competitividade global e fortalecer sua posição como um dos principais fornecedores de alimentos do mundo, Levrero defende que "decisões que impactam diretamente a produtividade exigem cautela redobrada."

A posição da Abisolo não é de resistência à mudança, mas de exigência de processo. As entidades representativas do agronegócio defendem "a construção de soluções que considerem as especificidades setoriais, mecanismos de transição adequados, segurança jurídica e negociações coletivas como instrumentos fundamentais para qualquer mudança estrutural", segundo Levrero.
 

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