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Plantio da soja enfrenta atrasos após chuvas no Paraná

Impacto financeiro já aparece nos gastos com manejo


Foto: Sheila Flores

O calendário agrícola do Paraná passa por mudanças devido às chuvas persistentes, com possíveis consequências para a produção de milho de segunda safra. Segundo informações do Sistema FAEP, agricultores estão revendo as datas de semeadura da soja, enfrentando dificuldades para comercializar o trigo com a qualidade esperada e registrando despesas adicionais nas propriedades. O cenário preocupa porque os atrasos nas operações atuais podem reduzir o tempo disponível para o cultivo seguinte.

Em algumas áreas, o impacto financeiro já aparece nos gastos com manejo. O produtor Mauro César Volponi dos Santos, que cultiva aproximadamente 750 hectares de soja e 180 hectares de trigo em Engenheiro Beltrão e Roncador, no Noroeste paranaense, calcula um custo adicional de R$ 200 por hectare onde for necessária uma nova aplicação de herbicidas. A operação tem como principal objetivo controlar a buva, cuja presença exige novas intervenções em determinados talhões.

As dificuldades começaram ainda durante a implantação da safra de verão. Santos iniciou a semeadura da soja em 25 de setembro, com a intenção de concluir o serviço cerca de um mês depois. Entretanto, as interrupções provocadas pelas chuvas fizeram o trabalho acumular aproximadamente 20 dias de atraso. Com apenas 30% da área plantada no período relatado, a nova previsão de término passou para perto de 10 de novembro, condicionada à melhora do tempo.

O agricultor também registrou danos físicos nas áreas cultivadas. Em uma única semana, o volume de precipitação chegou a 250 milímetros, provocando erosão e acúmulo de água no solo. Essas condições restringem o tráfego de máquinas e dificultam tanto a continuidade do plantio quanto a execução dos tratamentos necessários às lavouras.

O problema não se limita às propriedades do Noroeste. No Vale do Ivaí, Marcelo Alberton também precisou rever a estratégia de produção nos 87,1 hectares destinados à soja. O agricultor, que trabalha ainda com 43 hectares de trigo em Manoel Ribas e Ivaiporã, pretendia iniciar a safra com cultivares de ciclo longo, mas não conseguiu cumprir o prazo planejado de 5 de outubro.

A alternativa passou a ser o uso de variedades de ciclo curto, com intenção de concluir a semeadura até 20 de outubro. Mesmo essa programação ficou comprometida pela falta de períodos adequados para trabalhar. Segundo Alberton, que possui 22 anos de experiência nas culturas, foram apenas seis dias de condições favoráveis às operações agrícolas desde o início de setembro, período em que também precisava finalizar a retirada do trigo.

Nas áreas onde a soja conseguiu ser implantada, o desenvolvimento inicial apresenta dificuldades. O excesso de água no solo interfere no estabelecimento das raízes e provoca diferenças na emergência das plantas. A situação também limita a aplicação de produtos fitossanitários dentro dos períodos planejados.

De acordo com Ana Paula Kowalski, coordenadora do Departamento Técnico e Econômico (DTE) do Sistema FAEP, precipitações intensas podem provocar o deslocamento de sementes e plantas jovens. A permanência de condições úmidas também favorece doenças, elevando a possibilidade de novas aplicações de fungicidas e, dependendo dos danos, de replantio.

Os relatos dos agricultores ocorrem em um período de precipitações acima do padrão histórico no Estado. Informações do Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar) indicam que 14 estações meteorológicas registraram, em setembro, os maiores acumulados para o mês em mais de 25 anos de medições.

O reflexo dessas condições aparece nos números da safra. Conforme levantamento do Departamento de Economia Rural (Deral), da Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento (Seab), o Paraná havia semeado 39% da área prevista para a soja ao final da primeira quinzena de outubro. A estimativa de cultivo é de 5,7 milhões de hectares. Além da implantação da oleaginosa, a comercialização do trigo tornou-se outra fonte de preocupação. A demora para retirar o cereal do campo compromete características que determinam sua classificação e seu preço de venda. Entre os parâmetros afetados estão o peso hectolítrico, conhecido como PH, e o Falling Number, utilizado para avaliar propriedades relacionadas à qualidade da farinha.

Na prática, os agricultores podem receber menos pelo cereal, mesmo quando conseguem colher o produto. Santos relata que parte de sua produção teve a classificação alterada, passando a ser destinada a outros usos. Alberton também identificou redução nos indicadores de qualidade. Segundo Ana Paula, valores mais baixos de PH prejudicam a tipificação comercial do trigo. Já a queda do Falling Number pode fazer com que a farinha obtida não apresente condições adequadas para panificação. Em situações mais severas, os danos associados à umidade podem inviabilizar a própria colheita.

A necessidade de secagem também se tornou um obstáculo para a saída do produto das propriedades. Alberton relata dificuldades no recebimento pelas cooperativas, cuja estrutura de secagem não tem conseguido atender à demanda elevada de grãos úmidos. A situação gera esperas prolongadas, despesas com transporte e paralisação de equipamentos que poderiam estar sendo utilizados em outras operações.

Para o presidente do Sistema FAEP, Ágide Eduardo Meneguette, a sucessão de problemas evidencia a exposição econômica dos produtores às condições climáticas. Ele defende o fortalecimento do seguro rural e de políticas públicas que ajudem a preservar a continuidade das atividades agropecuárias diante das perdas.

A preocupação com os próximos meses envolve principalmente o milho safrinha. Como a implantação da soja está ocorrendo mais tarde em determinadas áreas, sua colheita também poderá ser deslocada, interferindo no início do cultivo do cereal. Ana Paula acrescenta que a menor disponibilidade de luminosidade durante períodos prolongados de nebulosidade pode contribuir para o alongamento do ciclo da oleaginosa.

Na propriedade de Santos, por exemplo, a previsão inicial era começar o plantio do milho no fim de janeiro. Diante das alterações na safra de soja, o produtor já considera realizar a operação durante fevereiro, com possibilidade de avançar até a primeira quinzena de março em parte da área.

 

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