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Cartas de Algodão leva memórias e histórias de família à SPFW

Desfile comemora os dez anos do Sou de Algodão


Foto: Flávia Macedo

Por Flávia Macedo

Quando foi a última vez que você recebeu uma carta? De papel, escrita à mão, com uma letra que permitia reconhecer o remetente antes mesmo de chegar à assinatura. Uma dessas que a gente lê, dobra e guarda para encontrar de novo quando bate a saudade.

Com algumas roupas acontece algo parecido. Um vestido que marcou uma festa, uma camisa que veio de presente, um bordado feito por alguém querido. O tempo passa, a peça deixa de ser usada, mas continua guardada. Desfazer-se dela significaria abrir mão de um pedacinho da própria história.

Foi nesse encontro entre tecido e recordação que o estilista Ronaldo Fraga buscou inspiração para “Cartas de algodão”, coleção apresentada pelo Sou de algodão na São Paulo Fashion Week, na quinta-feira, 15 de outubro. O desfile marcou os dez anos do Movimento Sou de algodão, iniciativa da  iniciativa da Associação Brasileira dos Produtores de algodão (Abrapa).

Para entender o que chegou à passarela, é preciso voltar algumas décadas. O ponto de partida de Ronaldo estava nos cartões que seus pais trocaram durante o namoro, entre o fim dos anos 1940 e o início dos anos 1950. Quando menino, ele se encantou com os desenhos. Já adulto, encontrou naquele material outras possibilidades de contar histórias.

“São cartas que não são enviadas, mas nunca param de chegar”, disse o estilista ao explicar a relação da coleção com as próprias lembranças.

Ao revisitar as imagens dos cartões, Ronaldo também quis ampliar os personagens representados. Os casais brancos das ilustrações deram lugar, em sua proposta criativa, à diversidade. Uma memória de família se tornou ponto de partida para falar de outras pessoas, outros encontros e outras formas de amar.

Antes de assistir ao desfile, eu também fiz esse exercício. Peguei papel e caneta e escrevi uma carta de verdade, endereçada ao Sou de Algodão. Queria contar àquela fibra brasileira como ela já fazia parte da minha vida, muito antes de eu estar ali para uma cobertura.

“Venho por meio desta carta te contar que as minhas roupas têm memória”, escrevi.

Entre as lembranças que vieram, havia uma que nem sequer era uma roupa. Era um pano de prato de algodão, que ganhei no bingo do chá de bebê do meu sobrinho. Eu seria sua madrinha. Mas ele virou anjo aos oito meses de gestação. 

Guardo esse pano até hoje. É uma memória triste, mas bonita, de um amor que já existia e de uma chegada que a família preparava. Na carta, contei que ele está guardado a sete chaves. Um objeto simples, desses que fazem parte da rotina de tantas casas, tem para mim um valor que ninguém enxergaria apenas olhando o tecido.

Lembrei também do meu vestido de 15 anos. De quando comprei a primeira peça no shopping que eu considerava cara na época e, depois, da ocasião em que a vesti pela primeira vez. Era um blazer de alfaiataria. Ao colocar essas histórias no papel, ficou mais fácil compreender a proposta da coleção. O tecido acompanha acontecimentos e, muitas vezes, permanece com a gente quando o compromisso ficou no passado.

Essa relação também ajuda a aproximar o consumidor de uma história que começa antes da roupa pronta. Para Alessandra Zanotto, produtora rural e porta-voz do Sou de Algodão, “Cartas de Algodão” é uma maneira de comunicar a ligação entre a produção no campo e a moda.

Ela destacou que 79% da produção brasileira de algodão é certificada pelo programa Algodão Brasileiro Responsável (ABR), o, que estabelece critérios sociais, ambientais e econômicos para a produção.

“Além dessa certificação, nós conseguimos ainda carregar toda essa história, toda essa trajetória nas roupas”, ressalta.

Assim, a origem da fibra encontra espaço em uma conversa que passa pela criação, pelo trabalho da indústria e pelo significado que cada pessoa atribui ao que veste. O algodão que chega ao guarda-roupa traz uma trajetória produtiva e, com o uso, passa a fazer parte de novas histórias.

Na minha carta, terminei agradecendo ao algodão pelos afetos guardados em cada peça. E deixei um pedido: “Espero sua carta-resposta”.

Naquela tarde, ela veio pela passarela. Ao perguntar a Ronaldo que sentimento ele gostaria que o público levasse para casa, a resposta voltou ao Brasil. À emoção de apresentar uma coleção criada por um artista brasileiro, com matéria-prima, tecelagens e trabalho realizados no país.

“Uma coleção que une esse ponto da excelência de quem produz com a excelência de quem desenha”, definiu. “É esse Brasil, essa moda que eu não quero perder de vista.”

É essa produção que o emociona e que ele espera que também emocione outras pessoas. Emocionou mesmo. O desfile foi belíssimo e aplaudido com fervor, gritos e sorrisos. 

 

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