XX Congresso Brasileiro de Fisiologia Vegetal reúne ciência e produção no Vale do São Francisco
Conexão entre ciência e produtor é "o grande negócio", diz pesquisadora do GEESP
Foto: Divulgação
Evento celebra os 40 anos da Sociedade Brasileira de Fisiologia Vegetal e reunirá academia e setor produtivo em Juazeiro (BA) entre 17 e 22 de agosto de 2026
O Vale do São Francisco sediará, entre 17 e 22 de agosto de 2026, o XX Congresso Brasileiro de Fisiologia Vegetal (XX CBFV), no Complexo Multieventos da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), em Juazeiro (BA). Com o tema "Fisiologia Vegetal, Tecnologias Emergentes e Mitigação de Estresses", o evento marca também os 40 anos da Sociedade Brasileira de Fisiologia Vegetal, segundo informações divulgadas pela organização do Congresso.
A escolha da região semiárida como sede da edição não é aleatória. Segundo Ana Rita Leandro dos Santos, engenheira agrônoma, mestre em Agronomia, professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sertão Pernambucano e presidente do GEESP (Grupo de Estudos em Ecofisiologia e Estresse de Plantas), o Congresso Brasileiro de Fisiologia Vegetal é uma das principais ações promovidas pela Sociedade Brasileira de Fisiologia Vegetal, entidade que já soma 40 anos de atuação reunindo fisiologistas de todo o país. "São 40 anos da sociedade e 20 anos em que o Congresso Brasileiro de Fisiologia Vegetal acontece em diferentes regiões do país. Para nós, do Vale do São Francisco, é particularmente importante, porque aqui na região a fisiologia vegetal é, de fato, aplicada em todas as nossas ações", afirmou.
Ainda segundo a pesquisadora, é esse conhecimento aplicado que explica os resultados obtidos pela fruticultura regional mesmo em condições climáticas adversas. "É por isso que vivemos numa região de clima semiárido, de caatinga, e conseguimos ter uma excelência na produção agrícola, principalmente voltada para frutas frescas. Aqui a gente tem desde os cultivos que são mais aclimatados ao semiárido até plantas que agora já estão sendo amplamente conduzidas com muita qualidade, como é o caso do mirtilo e da pera — sem falar na uva e na manga, que já são conhecidas no mundo inteiro", disse Ana Rita.
Estresse ambiental e fitossanitário são os principais desafios da fruticultura
Ao ser questionada sobre os principais desafios enfrentados pelos fruticultores da região, a presidente do GEESP foi direta: "O nosso principal desafio é mitigar os estresses ambientais que incidem sobre as plantas — não apenas os estresses abióticos voltados para problemas decorrentes da temperatura, da umidade relativa do ar muito baixa, da radiação solar intensa e, muitas vezes, também dos efeitos da radiação ultravioleta sobre as plantas. Além disso, há também os problemas fitossanitários decorrentes de estresses causados por fungos, bactérias, insetos, ácaros e outros agentes."
Segundo ela, esses desafios não são exclusivos da região. "A nossa fruticultura não deixa de passar pelos mesmos desafios que outras regiões enfrentam. Só que, no nosso caso, isso é intensificado exatamente pela condição de clima semiárido na qual estamos inseridos", explicou.
Um dos pontos mais relevantes destacados pela pesquisadora na entrevista é sua opção conceitual por um termo específico para tratar do tema. "Na verdade, eu nem gosto muito de usar o termo 'mitigação de estresse'. Eu falo em 'gestão do estresse', porque temos várias provas de que o estresse ambiental, quando bem manejado, pode inclusive favorecer a fisiologia da planta, induzindo respostas de aclimatação que são surpreendentes", afirmou. Para Ana Rita, essa gestão só é possível graças aos conhecimentos da fisiologia vegetal sobre como a planta interage e responde aos fatores ambientais e aos manejos adotados. "Não tenha dúvida de que é a tecnologia que a fisiologia vegetal nos proporciona que, de fato, traz todas essas possibilidades de fazermos uma agricultura tão eficiente, tão moderna", completou.
Pesquisadora defende conexão mais rápida entre ciência e setor produtivo
Uma das missões do Congresso, segundo a organização, é fortalecer o diálogo entre comunidade científica, setor produtivo e setor técnico. Questionada sobre como o setor pode avançar para que o conhecimento científico chegue com mais agilidade ao produtor rural, Ana Rita afirmou que essa é a pergunta que mais gosta de responder quando fala sobre o evento. "A gente não pode se afastar do setor produtivo. É ele quem, de fato, dá sentido à nossa ciência. Temos como tema central desta edição do Congresso 'Fisiologia vegetal, tecnologias emergentes e mitigação de estresse', e precisamos fazer com que a fisiologia ofereça respostas para os grandes desafios que a agricultura impõe à economia e à vida do produtor — seja o pequeno produtor, no modelo familiar, seja os grandes empresários rurais. Todos precisam dos conhecimentos da fisiologia para fazer sua agricultura funcionar bem", disse.
A pesquisadora também chamou atenção para a dificuldade enfrentada por muitos produtores diante do grande volume de tecnologias disponíveis no mercado. "Muito me inquieta ver como o produtor fica perdido, muitas vezes, diante de tantas tecnologias, tantas ferramentas que prometem e que, de fato, entregam muitos resultados. Mas o que serve para aquela realidade? O que, de fato, atende à minha necessidade e que vale a pena em termos de custo-benefício? Essa conexão entre a academia e o setor produtivo é o grande negócio", afirmou. Segundo ela, isso não significa desconsiderar a importância da ciência básica. "Não podemos conceber uma fisiologia vegetal que não seja aplicada à agricultura, com todo o reconhecimento e respeito à pesquisa básica, que é realmente necessária para fundamentar tudo o que vem a partir daí. Mas chegou a hora de entregar respostas para o setor produtivo. A pesquisa básica caminha, e a pesquisa aplicada precisa caminhar também, com um alvo, um foco, um direcionamento: entregar essas respostas para a agricultura", completou.
Programação reúne pesquisadores de destaque e novidades como o InovaE
Em relação às tecnologias e inovações que devem ganhar destaque na programação, Ana Rita adiantou que a organização buscou montar uma grade com palestrantes e temas alinhados a esse propósito. "A palestra de abertura será da Profª Dra Cristine Foyer, que é um dos maiores nomes — se não o maior nome — em fisiologia vegetal, em metabolismo primário de plantas, com foco em fotossíntese, estresses, entre outros temas. Também teremos o professor Fabrício Rodrigues, que tem se debruçado sobre pesquisas voltadas à fisiologia e à nutrição de plantas e como elas se integram para entregar respostas nas mãos do produtor", afirmou.
Segundo a pesquisadora, a programação também contemplará temas como uso de bioinsumos e manejo pós-colheita, além de uma novidade batizada de InovaE. "É um desafio de ideias acadêmicas em que vamos verificar o que há na cabeça dessa turma mais jovem, pensando em tecnologias novas, inovadoras, que possam solucionar problemas da agricultura de uma maneira bem direta", explicou. Ana Rita destacou ainda que tanto as palestras quanto as ações paralelas do Congresso têm o mesmo objetivo. "A gente pensa, sim, em entregar respostas para o setor produtivo, seja em termos de conhecimento, de serviços ou mesmo de produtos, porque os estandes que os nossos parceiros estão levando para o Congresso também têm essa mesma tônica. Vamos apresentar equipamentos, serviços e tecnologias que entreguem essas respostas", disse.
Outra novidade mencionada pela pesquisadora são as salas de mentoria. "Vamos ter à disposição dos congressistas consultores de renome em diferentes áreas, que vão estar lá para atender diretamente aos agricultores, aos acadêmicos e aos cientistas que queiram conversar, discutir e até mesmo encontrar alguma solução diante dessa conversa mais direta, mais olho no olho, bem próxima, entre consultores e produtores presentes no Congresso", afirmou.
Pela primeira vez, Congresso alcança equidade de gênero na programação
Ana Rita também destacou um dado inédito na história do evento: a equidade de gênero entre os palestrantes. "Pela primeira vez, a gente consegue trazer para um evento dessa magnitude a equidade de gêneros. Temos 52% de palestrantes, entre instrutores de minicurso e prelecionistas, do sexo feminino — são 52% de mulheres e 48% de homens. Isso nós fizemos pela primeira vez, buscando grandes nomes no Brasil e fora do Brasil para atender à programação do Congresso, mantendo essa equidade de gênero como uma grande novidade dentro da nossa programação", afirmou.
Edição marca 40 anos da Sociedade Brasileira de Fisiologia Vegetal
Ao projetar o legado da edição de 2026, que coincide com os 40 anos da Sociedade Brasileira de Fisiologia Vegetal, Ana Rita afirmou que o objetivo é ampliar o alcance do Congresso. "Eu tenho muito respeito pela ciência, pela educação. Entendo que essa é a única forma de transformar a humanidade como um todo, em todos os segmentos, desde o lado mais social até a parte econômica e cultural. Diante de todo esse respeito que temos pela academia, pelo setor produtivo, pelo contexto formativo, pela educação de maneira geral, é que a gente quer oferecer essa história nova: que esses 40 anos sejam um marco que transforma o Congresso de Fisiologia Vegetal não apenas num congresso acadêmico, que conversa sobre temas de biologia molecular, mas principalmente naquele que vai mostrar ao público como a fisiologia vegetal é transformadora da agricultura", afirmou.
A pesquisadora adiantou que a celebração dos 40 anos contará com homenagens a nomes históricos da entidade. "Esse marco vai ser celebrado com a presença de ex-presidentes que já passaram pela nossa entidade, com homenagens também aos grandes nomes que se fazem presentes e que estão entre nós — infelizmente, alguns já partiram. É algo que queremos que seja não apenas mais uma celebração de 40 anos, mas um marco transformador, para mostrar à sociedade, com toda clareza e toda alegria, a riqueza da nossa programação e o quanto a fisiologia vegetal é responsável pela transformação da agricultura", disse.
Por fim, Ana Rita relacionou a relevância do Congresso ao cenário atual de mudanças climáticas. "Estamos falando de produção de alimentos, estamos falando de produção de matéria-prima, e por isso precisamos que a fisiologia vegetal se faça presente de uma maneira marcante e transformadora, mostrando caminhos e soluções para que o agricultor, de fato, tenha nessa atividade econômica algo rentável e sustentável ambientalmente", concluiu.