Chuvas ameaçam a qualidade do trigo e preocupam produtores
Qualidade será decisiva para o preço recebido pelo produtor
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A safra brasileira de trigo enfrenta perdas de produtividade e qualidade em importantes regiões produtoras, impulsionadas pela redução da área semeada e pelas condições climáticas adversas. Segundo dados divulgados pela Central Internacional de Análises Econômicas e de Estudos de Mercado Agropecuário (CEEMA), o cenário pressiona os preços do cereal de melhor padrão e pode elevar as importações brasileiras para até 9 milhões de toneladas na temporada 2026/27.
No mercado internacional, o trigo negociado na Bolsa de Chicago encerrou a quinta-feira (8) cotado a US$ 6,83 por bushel, ante US$ 6,82 uma semana antes. As altas anteriores foram impulsionadas pelo atraso no plantio norte-americano e pelas preocupações com a logística de embarques na região do Mar Negro. Ao longo da semana, o mercado passou por ajustes técnicos, enquanto os investidores aguardavam a divulgação do relatório de oferta e demanda de 9 de outubro. A previsão de tempo mais seco nos Estados Unidos também alimentou expectativas de aceleração do plantio do trigo de inverno. Até 4 de outubro, o plantio norte-americano havia alcançado 36% da área prevista, abaixo da média histórica de 46% para o período.
As exportações dos Estados Unidos, por outro lado, avançaram. Na semana encerrada em 24 de setembro, os embarques somaram 289,3 mil toneladas, alta de 8% em relação à semana anterior e de 5% na comparação com a média das quatro semanas anteriores. México, Filipinas, Singapura, Indonésia e Peru foram os principais compradores. Nos primeiros seis dias úteis de outubro, o trigo em Chicago permaneceu abaixo de US$ 7,00 por bushel para o primeiro vencimento, depois de passar boa parte de setembro acima desse patamar.
No Brasil, os preços avançam diante da expectativa de uma safra menor e das perdas provocadas pelo clima. Nas principais praças gaúchas, o trigo de qualidade superior foi negociado entre R$ 75,00 e R$ 78,00 por saca. No Paraná, as cotações ficaram entre R$ 79,00 e R$ 82,00 por saca.
A colheita brasileira ocorre em meio a dificuldades nas lavouras de diferentes regiões. Segundo dados divulgados pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), 36,4% da área nacional havia sido colhida até 2 de outubro. O ritmo supera os 31% registrados no mesmo período do ano passado e a média de 34,6% das últimas cinco safras. Ainda assim, quase dois terços das lavouras permaneciam por colher, em um cenário de excesso de umidade e novas precipitações na Região Sul.
A situação preocupa porque as chuvas podem comprometer tanto o rendimento quanto a qualidade dos grãos. Para o fim de semana mencionado no levantamento, havia previsão de volumes de até 200 milímetros de chuva no Rio Grande do Sul, além de ventos fortes e possibilidade de granizo em algumas regiões.
A Conab aponta danos irreversíveis em áreas gaúchas e registra trigo abaixo do padrão esperado em São Paulo. No Paraná, segundo dados divulgados pelo Departamento de Economia Rural (Deral), predomina a classificação de menor qualidade em parte das áreas produtoras.
No Rio Grande do Sul, cerca de 4% das lavouras haviam sido colhidas até 8 de outubro, percentual ligeiramente superior à média de 3% para o período. As primeiras áreas colhidas no norte do estado apresentaram produtividade média de apenas 38 sacas por hectare, com peso do hectolitro (PH) de 74, segundo informações da Emater. O índice está abaixo do PH 78 indicado no levantamento como mínimo necessário para a panificação.
O avanço da colheita não tem demonstrado melhora nesse quadro, o que aumenta a preocupação com a disponibilidade de trigo de qualidade superior para a indústria. Além das perdas no campo, o excesso de umidade e a continuidade das chuvas mantêm a atenção voltada às áreas ainda não colhidas.
No Paraná, segundo maior produtor nacional, a colheita havia atingido 70% da área até 5 de outubro. Apesar do avanço dos trabalhos, as lavouras registraram produtividades abaixo do esperado e predominância de grãos de menor qualidade em parte das áreas.
O risco permanece nas lavouras mais tardias, ainda expostas às condições climáticas adversas. No norte e no oeste paranaenses, parte dos lotes colhidos apresenta PH ou falling number baixos, indicadores utilizados na avaliação da qualidade do trigo. Também há áreas abandonadas após a germinação dos grãos. Em São Paulo, o quadro é mais crítico. As fortes chuvas comprometeram as lavouras, e praticamente todo o volume já colhido apresenta qualidade inferior ao padrão esperado, conforme os dados da Conab citados no levantamento.
Importações de trigo podem chegar a 9 milhões de toneladas
A produção brasileira está estimada em 5,5 milhões de toneladas, com uma parcela significativa de trigo de qualidade inferior. Diante desse cenário, a necessidade de importação tende a crescer.
As estimativas mais recentes mencionadas pela CEEMA apontam para importações de até 9 milhões de toneladas na temporada 2026/27, acima dos 8 milhões de toneladas projetados na semana anterior. O volume importado será importante para complementar o abastecimento da indústria, especialmente diante da menor disponibilidade interna de trigo de melhor padrão.
Segundo análise atribuída à Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo), a necessidade de ampliar as compras externas exige atenção aos prazos de reposição, às condições de transporte e às oscilações cambiais. A concentração da demanda em períodos mais curtos, somada às incertezas geopolíticas e aos custos de frete e seguro, torna mais complexo o planejamento dos moinhos. A recente valorização do real favorece as importações e tende a limitar a valorização do trigo no mercado interno.
No Rio Grande do Sul, os negócios com trigo da safra antiga são escassos. As operações ocorrem por cerca de R$ 1.550,00 por tonelada no interior, enquanto os vendedores pedem R$ 1.600,00. Para a safra nova, os moinhos oferecem R$ 1.400,00 por tonelada.
Um navio com trigo uruguaio é esperado em outubro. O último preço conhecido do produto importado era de US$ 305,00 por tonelada em Rio Grande. Em Santa Catarina, os moinhos relatam falta de trigo de qualidade e reajuste de 11,5% nos preços das farinhas, considerado insuficiente. Na região, o trigo gaúcho é ofertado a R$ 1.600,00 por tonelada, acrescidos de R$ 180,00 de frete. O produto paranaense também é cotado a R$ 1.600,00 por tonelada, mas há incertezas quanto à qualidade.
No Paraná, quase não há oferta de trigo da safra velha, com exceção de sobras de sementes negociadas a R$ 1.600,00 por tonelada, na modalidade FOB. Para a nova safra, produtores buscam renegociar contratos, enquanto os moinhos já aplicam tabelas de descontos em lotes que não atendem aos padrões desejados.
As indicações para o trigo tipo 1 eram de R$ 1.550,00 por tonelada para entrega em setembro, R$ 1.500,00 em outubro e R$ 1.450,00 em novembro, embora as ofertas desse padrão tenham desaparecido. O trigo paraguaio chegou a US$ 320,00 por tonelada nos Campos Gerais, enquanto o argentino alcançou US$ 325,00 em Paranaguá, segundo informações atribuídas à TF Agronômica.
O avanço da colheita nas próximas semanas será determinante para dimensionar a produção final e a quantidade de trigo de qualidade superior disponível para a indústria brasileira. Para os agricultores, a valorização do cereal não significa necessariamente preços melhores para toda a produção. Os lotes que atenderem aos padrões exigidos poderão alcançar cotações mais elevadas, enquanto os grãos de qualidade inferior podem receber descontos expressivos ou ser comercializados a preços de triguilho, destinado à alimentação animal.
Para os moinhos, a menor oferta de trigo adequado à moagem aumenta a dependência do mercado externo e exige planejamento das compras, considerando câmbio, transporte e custos logísticos.
O mercado brasileiro, portanto, deve acompanhar não apenas o volume colhido, mas também a qualidade dos grãos e o ritmo das importações. Esses fatores serão decisivos para a formação dos preços e para o abastecimento da indústria ao longo da temporada 2026/27.