Pesquisa aposta em fungos contra carrapato bovino
Pastagens viram alvo no combate ao carrapato
Foto: Pixabay
O avanço do carrapato bovino tem preocupado produtores rurais e especialistas em sanidade animal no Rio Grande do Sul. O aumento da resistência aos produtos químicos utilizados no combate ao parasita, aliado às mudanças climáticas, tem ampliado os desafios enfrentados nas propriedades gaúchas. Diante desse cenário, uma pesquisa desenvolvida pelo Instituto de Pesquisas Veterinárias Desidério Finamor aposta no controle biológico aplicado às pastagens como alternativa para reduzir a infestação nos rebanhos.
A médica veterinária e coordenadora de Defesa Sanitária Animal da Emater/RS-Ascar, Thaís Michel, explica que o trabalho de orientação aos produtores ocorre há mais de uma década em parceria com o instituto de pesquisas. Segundo ela, as ações envolvem educação sanitária, capacitações técnicas, acompanhamento em propriedades e monitoramento da resistência dos carrapatos aos carrapaticidas.
De acordo com Thaís Michel, o principal desafio atual é a perda de eficiência dos produtos químicos utilizados no controle do parasita. “Hoje, praticamente todas as propriedades já apresentam algum grau de resistência aos carrapatos. O uso repetido do mesmo princípio ativo e as aplicações fora do período adequado acabam selecionando e potencializando os carrapatos resistentes”, afirma.
Ela destaca que o ciclo biológico do carrapato favorece a rápida multiplicação da infestação. Cada fêmea pode depositar até três mil ovos no solo. Parte do desenvolvimento ocorre no animal, mas grande parte da infestação acontece nas pastagens, onde os ovos evoluem até o momento em que as larvas retornam ao gado.
Segundo a veterinária, as condições climáticas também influenciam no aumento da população parasitária. Invernos menos rigorosos e períodos mais longos de calor reduziram o intervalo natural de controle proporcionado pelas baixas temperaturas. “O frio intenso funcionou interrompido o ciclo do carrapato durante o inverno. Hoje, com essa instabilidade climática, esse período ficou menor e favorecendo a sobrevivência da parasita”, explica.
Outro fator apontado como agravante é o perfil genético dos rebanhos gaúchos. As raças taurinas, predominantes na região Sul, apresentam maior suscetibilidade ao carrapato em comparação às raças zebuínas, mais comuns em outras regiões do país. Como estratégia, a orientação técnica também inclui seleção genética para ampliar a resistência natural dos animais.
Diante das limitações dos métodos tradicionais, o controle biológico passou a ganhar espaço nas pesquisas conduzidas pelo Instituto de Pesquisas Veterinárias Desidério Finamor. O médico veterinário, pesquisador e diretor do instituto, José Reck, explica que o método utiliza microrganismos presentes no próprio solo para combater os carrapatos nas áreas de pastagem. “O controle biológico baseia-se no uso de inimigos naturais do parasito. Coletamos microrganismos do solo e identificamos aqueles com capacidade de eliminar os carrapatos, sem causar danos aos bovinos ou às pessoas”, relata.
Após a seleção em laboratório, fungos e bactérias são multiplicados em larga escala e aplicados nas pastagens em formulação líquida. A proposta é atingir justamente a fase do ciclo em que o carrapato permanece no ambiente, antes de retornar ao animal.
José Reck afirma que a principal diferença entre o controle químico e o biológico está no comportamento evolutivo dos organismos envolvidos. Enquanto os produtos químicos permanecem inalterados ao longo do tempo, os microrganismos utilizados no controle biológico também evoluem, acompanhando as mudanças dos carrapatos. “Quando usamos drogas químicas repetidamente, acabamos selecionando os indivíduos resistentes. Já no controle biológico, microrganismos e carrapatos evoluem juntos”, explica.
Os primeiros resultados obtidos em propriedades monitoradas pelo instituto são considerados positivos. Segundo o pesquisador, as áreas tratadas já apresentam redução na quantidade de carrapatos, embora os dados ainda estejam em fase de análise científica.
A expectativa é de que a tecnologia possa chegar aos produtores rurais nos próximos anos por meio de empresas do setor de bioinsumos. “O papel do Instituto é validar a tecnologia. Depois disso, cabe ao setor privado produzir e levar essa solução até o campo”, afirma Reck.
Enquanto a pesquisa avança, a Emater/RS-Ascar reforça junto aos produtores a importância do manejo preventivo, do uso correto dos produtos e da redução da dependência química no combate ao carrapato bovino. Para Thaís Michel, a nova tecnologia representa uma alternativa concreta no enfrentamento de um problema que se intensifica a cada ano no Estado.
Com informações da Emater/RS-Ascar*