Deriva de herbicidas ameaça a produção de frutas no Rio Grande do Sul
Evento da UFSM reúne agrônomos, técnicos e especialistas em debate
Foto: Divulgação
Em 2011, o técnico agrícola Alexandre Maia notou algo diferente nas videiras da Cooperativa Agrária São José do município de Jaguari, fundada em 1932. Fora do comum, as folhas estavam retorcidas e com crescimento anormal. Maia lembra que o mesmo foi percebido em mais de 50 vinhedos da região, inclusive propriedades que não tinham lavouras próximas nem indícios de aplicação de herbicidas nas imediações.
Isso levantou a suspeita de que o produto estivesse sendo transportado pelo ar a longas distâncias. A hipótese era de que os sintomas estivessem relacionados à deriva de herbicidas hormonais, especialmente o 2,4-D. A deriva nada mais é que o desvio de um produto durante a pulverização agrícola. Nos anos seguintes, Maia e outros técnicos buscaram comprovações para identificar a origem dos danos.
De lá para cá, as plantas começaram a perder a força gradualmente. Segundo Maia, a região da Cooperativa tinha mais de 120 hectares de vinhedos e passou a ter cerca de 70 hectares ou menos. Ele afirma que aproximadamente 40% das áreas já haviam sido erradicadas. Em paralelo, uma queda de 50% na produtividade foi registrada na propriedade, já que a redução da matéria-prima fez a indústria operar abaixo da capacidade, aumentando os custos de produção.
O relato de Maia abriu o seminário “Deriva de Herbicidas Hormonais: Evidências, impactos e caminhos para a Agricultura Gaúcha” realizado na manhã desta quinta-feira (1), no Auditório do Colégio Politécnico UFSM. O evento discutiu os impactos e possíveis caminhos para amenizar ou reduzir os danos causados pela deriva.
Quem palestrou ao lado do técnico foi a engenheira agrônoma Aline Fogaça que, assim como Maia, se deparou com os efeitos negativos da deriva em sua vinícola, a Velho Amâncio, em Itaara, município vizinho de Santa Maria. Os primeiros danos foram percebidos ainda em 2015 e se agravaram: “A partir de 2023 e 2024, chegamos a um nível de dano com o qual simplesmente não é mais possível conviver”, ela relata.
Durante as discussões da Subcomissão dos Herbicidas Hormonais, instalada em abril de 2025 na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, Aline e outros produtores organizaram a Aliança pela Fruticultura. A entidade busca ampliar o espaço de discussão sobre os danos provocados pela deriva e promover o diálogo com instituições públicas e de pesquisa.
Segundo a produtora, os herbicidas hormonais atuam sobre o crescimento das plantas. As culturas frutíferas são sensíveis às auxinas sintéticas presentes nesses produtos e podem sofrer danos mesmo quando expostas a pequenas quantidades transportadas pelo ar. Os efeitos podem comprometer o desenvolvimento das videiras e a produção de frutos.
“É difícil pautar essa questão”, diz professor sobre a deriva de herbicidas
Apesar de ser um problema latente, Gustavo Pinto da Silva, professor do Colégio Politécnico e coordenador do evento, disse que o assunto é “invisível” perante os meios de comunicação. “É difícil pautar essa questão”, desabafou em seu discurso. Além da cobertura da imprensa, Aline Fogaça enxerga uma lacuna de pesquisas nessa área. “Não temos muitos estudos sobre o tema. Este é um dos primeiros eventos que acontecem, e agradecemos ao Colégio Politécnico por abrir as portas e querer discutir o assunto, porque percebemos uma barreira muito grande para essa discussão”, conta.
Na UFSM, Gustavo tem liderado um projeto que investiga os efeitos da deriva por meio dos relatos dos produtores regionais. Alguns dos resultados foram apresentados no Seminário durante a mesa ministrada pelo coordenador ao lado do professor Roberson Macedo de Oliveira.
A “barreira”, mencionada por Aline, foi sinalizada por Gustavo, que afirmou existir uma resistência em reconhecer o problema como algo que merece atenção. “É um tema com diferentes percepções. Não estamos aqui para confrontar uma cultura com a outra. Queremos soluções”.
Na mesma linha, a reitora da UFSM Martha Adaime destacou que o objetivo do encontro é proporcionar o diálogo. “Todos os entes envolvidos nessa problemática vão ter o seu papel”, ela disse. “O papel da universidade é mostrar pra sociedade a ciência que ela produz e é isso que está na programação de hoje. O desejo é que vocês consigam ter uma compreensão de como equacionar essa questão.”
Enquanto o assunto tenta conseguir mais visibilidade, alguns avanços já foram registrados. Integrante da mesa de abertura do seminário, o engenheiro agrônomo Luiz Fernando Oliveira, assistente técnico e regional da Emater/RS, afirmou que a expansão das lavouras de grãos no estado, que substituíram a vegetação nativa, ampliou os problemas com a deriva de herbicidas. Segundo ele, em 2019, uma instrução normativa estabeleceu a obrigatoriedade de capacitação para agricultores que quisessem adquirir e utilizar esses produtos.
A primeira norma abrangia 21 municípios gaúchos, seis deles na região. Para atender à exigência, a Emater desenvolveu um programa de formação de 16 horas, em parceria com a UFSM e outras instituições. O primeiro curso, realizado em Silveira Martins, teve mais interessados do que vagas disponíveis. Desde então, a iniciativa contabilizou 1.031 capacitações, qualificou 24.330 pessoas para a aplicação dos herbicidas, auxiliou agricultores a cadastrar suas áreas sensíveis e inspecionou 3.500 equipamentos.
A última mesa do evento ficou a cargo do professor Benjamin Dias Osório Filho, da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS), que palestrou sobre alternativas à utilização de herbicidas hormonais. O evento foi transmitido ao vivo pelo Youtube do Curso Técnico em Fruticultura do Colégio Politécnico.