Mel de abelhas sem ferrão gaúcho recebe registro federal
Registro federal abre novos mercados e pode impulsionar a meliponicultura gaúcha
Foto: Seane Lennon
Dedicada à criação de abelhas sem ferrão, a meliponicultura vem ganhando espaço no Rio Grande do Sul. Uma pesquisa realizada pela Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi), divulgada em 2024, identificou mais de 16 mil famílias gaúchas envolvidas na atividade. O diagnóstico revelou ainda que a maior parte da produção é destinada ao autoconsumo e quase 40% dos produtores não obtinham renda com a prática.
Agora, uma novidade pode ampliar as oportunidades para o setor. Em junho de 2026 foi envasado o primeiro mel gaúcho de meliponas com registro no Serviço de Inspeção Federal (SIF), que permite a comercialização em todo o país e no exterior. "Dessa forma a gente consegue fazer com que o produtor venda seu mel de maneira formal, fomentando a produção em todo o Estado. Também é uma forma de valorizar os produtores e toda a cadeia, e levar ao consumidor um mel de primeira classe", avalia o extensionista rural da Emater/RS-Ascar, Samuel Sperandio.
O primeiro lote com o selo federal teve origem em Caraá, no Litoral Norte, na propriedade de Vinícius Monteiro Gomes. Com a criação de 15 espécies nativas e uma produção estimada em 250 quilos por ano, o produtor acredita que o registro pode impulsionar a meliponicultura no Estado. "A inspeção federal vai representar um crescimento gigantesco para esse setor, porque é um setor que ficava mais na venda de colmeias. Agora o pessoal pode produzir mel e vai ter a oportunidade de colocar na prateleira do supermercado, não só no seu município, mas fora dele", explica.
Gomes utiliza o espaço da Associação de Apicultores e Meliponicultores de Caraá (Apimel Caraá) para o processamento do mel. Foi a partir do trabalho dos 30 associados, em parceria com a Emater/RS-Ascar e outras organizações, que o registro se tornou uma realidade. "O fruto que nós estamos vendo vem do trabalho de inúmeras instituições que se juntaram à Associação, buscando fomento, o crescimento da cultura, da atividade. Dessa forma, a gente conseguiu estar hoje com um produto disponível para todo o Brasil e para fora dele", salienta Samuel Sperandio.
PRODUÇÃO DIFERENCIADA E PRESERVAÇÃO AMBIENTAL
Além de enaltecer o trabalho artesanal e familiar dos meliponicultores gaúchos, o registro federal concedido ao mel de abelhas sem ferrão permite dar ainda mais valor ao produto, que passa por um processo diferenciado de produção. "Cada espécie das abelhas produz o seu mel, diferentemente da apis [abelhas com ferrão], onde a gente tem o mel da florada A ou B. São méis bem diferentes e quem experimenta se apaixona", pontua o extensionista da Emater/RS-Ascar.
"Hoje a legislação permite três formas de comercialização do mel de abelhas sem ferrão: maturado, pasteurizado ou in natura refrigerado. A melhor forma que a gente conseguiu no momento para entregar um produto preservando os sabores foi a pasteurização. Então aqui na indústria a gente utiliza esse processo", complementa Vinícius Gomes.
De acordo com o extensionista Samuel Sperandio, além de gerar renda, a meliponicultura tem ainda um importante papel ambiental. "Se nós pensarmos na preservação das espécies, nós estamos trabalhando com abelhas nativas do Rio Grande do Sul, então tem um equilíbrio ambiental que é muito interessante. Elas estão entre as principais polinizadoras. Boa parte da produção frutícola vem através dessas abelhas", reforça.
NOVAS POSSIBILIDADES AOS PRODUTORES
Para Vinícius Gomes, que trocou a docência pela meliponicultura, o registro também representa uma oportunidade de crescimento para os produtores gaúchos. "Vou conseguir aumentar a gama de produtos. Acho que tem uma perspectiva muito boa pela frente na meliponicultura no Estado todo", afirma.
Para que a meliponicultura ganhe ainda mais força, o produtor convida novos meliponicultores e apicultores a participarem da Apimel Caraá. "A nossa associação tem espaço para novos sócios. Quem tiver interesse em comercializar o seu mel com inspeção federal, una-se a nós. Como costumo dizer, a meliponicultura não tem concorrência. Todos somos possíveis parceiros uns dos outros", finaliza Vinícius.