Dia de Campo enfatiza Manejo de Solos e Irrigação como Estratégias de Resiliência
Experiência local mostrou ganhos de produtividade do milho com irrigação
Foto: Pixabay
O manejo adequado do solo e o uso da irrigação como estratégias de resiliência climática na agricultura foram os destaques de um Dia de Campo realizado na quarta-feira (21/10), na Linha Butiá Norte, em Campina das Missões. Promovida pela Emater/RS-Ascar, em parceria com a Escola de Ensino Médio Casa Familiar Rural Filhos da Terra, a atividade contemplou orientações técnicas e experiências práticas voltadas à promoção da resiliência climática na agricultura.
Uma das estações foi conduzida pelo professor doutor da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), campus Cerro Largo, Douglas Rodrigo Kaiser, que abordou a disponibilidade de água para as plantas, a capacidade de infiltração da água da chuva e a relação entre as características do solo, o manejo e a produtividade das lavouras. "Não temos como controlar a falta e o excesso de chuva, mas podemos tornar o solo mais resistente. O solo é o principal patrimônio da propriedade", destacou Kaiser.
O professor explicou que solos mais profundos e bem estruturados apresentam maior capacidade de infiltração e armazenamento de água, favorecendo o desenvolvimento das plantas. Nesse contexto, chamou a atenção para os efeitos da compactação, que restringe o crescimento das raízes e dificulta o acesso à água e aos nutrientes. "Um solo com cobertura e cheio de raízes não compacta e dificilmente tem erosão", ressaltou.
Entre as recomendações, Kaiser enfatizou a importância de observar o comportamento da água na lavoura durante as chuvas, verificando se ocorre infiltração ou escoamento superficial. A avaliação permite identificar problemas de compactação e erosão e orientar a adoção de práticas conservacionistas, como a manutenção da cobertura do solo, a diversificação de plantas e o sistema de plantio direto. O palestrante também apresentou o terraceamento de base larga como alternativa para reter água nas lavouras e reduzir os efeitos das enxurradas, assim como o uso de gramíneas de verão como forma de estruturação do solo através das raízes.
As orientações apresentadas no Dia de Campo também se relacionam a resultados de um trabalho desenvolvido recentemente pela Emater/RS-Ascar, em parceria com a Embrapa, a Setrem, a UFFS e a Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (Uergs). A iniciativa, denominada Caravana da Infiltração da Água no Solo, percorreu 22 municípios e realizou medições da capacidade de infiltração de água em Latossolos e Neossolos da região.
Os resultados demonstraram grande variação entre as áreas avaliadas, com taxas de infiltração que foram de 1 a 391 milímetros por hora. A diferença evidencia como as condições do solo e as práticas de manejo podem influenciar a entrada da água no perfil e, consequentemente, sua disponibilidade para as plantas.
Conforme a abordagem apresentada, áreas conduzidas apenas com a prática do plantio direto podem apresentar limitações de infiltração quando comparadas àquelas manejadas em um sistema de plantio direto, que envolve um conjunto de práticas conservacionistas.
IRRIGAÇÃO AMPLIA A SEGURANÇA DA PRODUÇÃO
Ainda na programação do Dia de Campo foi apresentada a experiência da família Zenzen, de Campina das Missões, que alia a irrigação ao manejo adequado do solo. O extensionista Antônio Jung e o agricultor Paulo Weber compartilharam informações sobre o sistema implantado na propriedade, que é uma Unidade de Referência Tecnológica acompanhada pela Emater/RS-Ascar, demonstrando como a irrigação pode contribuir para a estabilidade da produção e a redução dos custos.
Atualmente, Campina das Missões conta com mais de 207 hectares irrigados. Na propriedade da família Zenzen, dos 46,6 hectares de área total, 21,3 hectares são irrigados a partir de um açude com 2,1 hectares de superfície. O projeto, elaborado pela Emater/RS-Ascar, contempla toda área com irrigação e com possibilidade de fertirrigação com dejetos suínos, sistema que permite aplicar nutrientes por meio da água utilizada na irrigação.
Segundo a família, a fertirrigação contribui para a redução dos custos com adubação e torna o sistema financeiramente autossuficiente somente pelo fato de dispensar os custos da distribuição convencional de esterco.
Os resultados da irrigação também foram destacados pelo agricultor, especialmente em períodos de estiagem. "Em um dos anos difíceis de seca, em áreas com a mesma terra vermelha, colhemos 124 sacas de milho por hectare com irrigação e 17 sacas na área sem irrigação", relatou Weber. Em ano de normalidade chegou ao resultado de 207 sacas de milho/ha na área irrigada.
O público presente foi instigado a refletir sobre a importância de integrar práticas conservacionistas de solo e manejo de água para enfrentar os desafios climáticos.