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China e Estados Unidos: de quem o agro brasileiro depende mais?

As exportações brasileiras do agronegócio alcançaram US$ 169,2 bilhões em 2025.


Foto: Canva

Na comparação China x Estados Unidos no agro brasileiro, os números apresentam um vencedor claro: a China é, com ampla vantagem, o principal mercado dos produtos agrícolas do Brasil.

Mas o tamanho das compras não conta toda a história. Os Estados Unidos também são relevantes como destino de produtos brasileiros, concorrentes em mercados internacionais e protagonistas na formação das expectativas sobre algumas das principais commodities agrícolas.

Em valor exportado, o Brasil depende muito mais da China. Em competição internacional, diversificação e influência sobre o comércio global, os norte-americanos continuam tendo papel estratégico.

As exportações brasileiras do agronegócio alcançaram US$ 169,2 bilhões em 2025, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária.

A China comprou US$ 55,3 bilhões, o equivalente a 32,7% de toda a receita obtida pelo agro brasileiro no exterior. Os Estados Unidos adquiriram US$ 11,4 bilhões e responderam por 6,7% do total. O mercado norte-americano foi o terceiro principal destino individual dos produtos do setor naquele ano.

Em termos financeiros, as compras chinesas foram aproximadamente 4,85 vezes maiores que as norte-americanas. A relação foi calculada com base nos valores anuais divulgados pelo Mapa.
 

Os números mostram que uma mudança expressiva na demanda chinesa possui potencial para atingir a balança comercial, o fluxo nos portos e a renda de diversas cadeias brasileiras.

A relação com a China é fortemente baseada em commodities. Em 2025, os cinco principais produtos do agro brasileiro vendidos ao país foram soja em grão, carne bovina in natura, celulose, açúcar bruto e algodão.

Somente a soja gerou aproximadamente US$ 34,51 bilhões em vendas para o mercado chinês. Na sequência apareceram a carne bovina in natura, com US$ 8,84 bilhões; a celulose, com cerca de US$ 5 bilhões; o açúcar bruto, com US$ 1,89 bilhão; e o algodão, com US$ 828 milhões.

A soja representou aproximadamente 62,4% de tudo o que o agro brasileiro faturou com a China, segundo cálculo feito sobre os dados do Mapa.

O país asiático comprou cerca de 85,4 milhões de toneladas de soja brasileira em 2025. Esse volume correspondeu a quase 80% de toda a soja exportada pelo Brasil. Na carne bovina in natura, a China respondeu por 53,2% do valor exportado pelo país.

Essa concentração cria escala, liquidez e oportunidades para o produtor brasileiro, mas também aumenta a exposição a alterações regulatórias, sanitárias, econômicas e diplomáticas dentro de um único mercado.

O perfil das exportações para os Estados Unidos é diferente. O país compra menos em valor total, mas possui importância para produtos como café verde, celulose e outros itens ligados à agroindústria.

Em 2025, os norte-americanos adquiriram aproximadamente US$ 1,91 bilhão em café verde brasileiro e US$ 1,32 bilhão em celulose. Os dados mostram que a importância de um destino não deve ser medida somente pelo total da pauta, mas também pela dependência de cada cadeia específica.

Para um produtor de soja, a China tende a ter impacto comercial muito maior. Para determinados exportadores de café, sucos, produtos florestais ou alimentos processados, o mercado norte-americano pode apresentar peso proporcionalmente mais elevado.

Os Estados Unidos também são consumidores com elevada renda e exigências específicas de qualidade, rastreabilidade, sanidade e padronização. O acesso a esse mercado pode ajudar empresas brasileiras a desenvolver produtos de maior valor agregado, embora também envolva custos regulatórios e comerciais.

A relação com os Estados Unidos possui outra característica importante. Enquanto a China atua principalmente como grande compradora, os norte-americanos disputam mercados com o Brasil.

Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada identifica concorrência entre os dois países em segmentos como soja em grão e óleo de soja, celulose, carne de frango, algodão, fumo, carne suína e couros.

Essa concorrência significa que a safra dos Estados Unidos pode alterar a disponibilidade mundial de produtos e as decisões dos importadores. Uma produção norte-americana maior tende a ampliar a oferta global. Problemas climáticos no país, por outro lado, podem reduzir essa oferta e mudar as expectativas dos mercados.

Na soja e no milho, os Estados Unidos também possuem forte presença nas bolsas de futuros e nos relatórios internacionais acompanhados por tradings, indústrias e produtores. Isso não significa que Washington determine sozinho os preços recebidos no Brasil, mas as condições da produção norte-americana fazem parte da formação das expectativas globais.

China e Estados Unidos estão ligados ao agro brasileiro não apenas por relações bilaterais separadas. As negociações comerciais entre os dois países também podem mudar o espaço ocupado pelo Brasil.

Quando a China amplia compras agrícolas dos Estados Unidos, os exportadores brasileiros enfrentam maior concorrência pelo mesmo cliente. Quando existem restrições comerciais entre Pequim e Washington, compradores chineses podem buscar mais produtos na América do Sul.

O efeito final depende de diversos fatores:

tamanho das safras brasileira e norte-americana;

preços internacionais;

custo do frete;

câmbio;

disponibilidade nos portos;

acordos comerciais;

tarifas e barreiras sanitárias;

necessidade chinesa de recompor estoques.

A expansão da presença chinesa não ocorreu de forma repentina. O crescimento econômico do país e o aumento da demanda por alimentos, rações, fibras e energia transformaram a pauta exportadora brasileira desde o início dos anos 2000.

Análises do Ipea apontam que a China passou a representar aproximadamente um terço das receitas externas do agronegócio brasileiro, enquanto compradores tradicionais perderam participação relativa.

Os dados mais recentes disponíveis em 2026 continuaram mostrando a China como principal destino das exportações do setor. Isso indica que a relação não se limita a uma safra específica, mas se tornou estrutural.

Uma participação de 32,7% em um único destino não deve ser interpretada apenas como vulnerabilidade. O mercado chinês também proporcionou escala para o crescimento da produção, investimentos em logística e abertura de novas regiões exportadoras.

O risco aparece quando uma cadeia possui poucos compradores alternativos ou quando grande parte da receita depende de um único produto.

Na prática, a China é hoje o mercado mais importante para o agro brasileiro em valor e volume. Os Estados Unidos, embora muito menores como compradores, continuam estratégicos por três motivos: compram produtos relevantes, disputam mercados com o Brasil e influenciam as expectativas sobre a oferta agrícola mundial.

Quanto maior a diversificação de produtos e destinos, menor será o impacto de uma tarifa, embargo, crise econômica ou mudança diplomática sobre a renda do produtor brasileiro.

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