Como o agro brasileiro multiplicou sua produção em 50 anos
Considerando 1975 como ponto inicial, o indicador acumulava aumento de 297% em 2019.
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O crescimento do agro brasileiro é frequentemente explicado pela expansão da área cultivada. A abertura de novas regiões produtivas teve importância, mas os dados históricos mostram que ela é apenas parte da resposta.
Nas últimas cinco décadas, o Brasil também aumentou a quantidade produzida por unidade de terra, trabalho e capital. Pesquisa tropical, correção de solos, melhoramento genético, mecanização, plantio direto, novas práticas de manejo e intensificação das lavouras permitiram multiplicar a produção.
O resultado é uma agricultura muito diferente daquela existente na década de 1970. O país deixou de ser um participante secundário em várias cadeias e passou a ocupar posição central no comércio internacional de soja, milho, carnes, café, açúcar, algodão e celulose.
A Produtividade Total dos Fatores, conhecida como PTF, mede quanto a produção cresce em relação ao conjunto de recursos utilizados, como terra, mão de obra e capital.
Entre 1975 e 2020, a PTF da agropecuária brasileira apresentou crescimento médio de 3,37% ao ano, segundo estudo publicado pela Embrapa. Considerando 1975 como ponto inicial, o indicador acumulava aumento de 297% em 2019.
No mesmo intervalo, o volume de produtos aumentou 392%, enquanto o conjunto de insumos avançou 24%. Essa diferença indica que o crescimento não veio apenas da utilização de mais recursos. Houve aumento expressivo da eficiência com que esses recursos foram empregados.
Uma atualização da série, abrangendo 1975 a 2022, calculou crescimento médio anual de 3,23% para a PTF, diante de expansão de 3,70% do produto e de 0,45% dos insumos.
As duas análises utilizam períodos e atualizações diferentes, mas apontam para a mesma conclusão: a produtividade foi um dos principais motores da transformação agrícola brasileira.
Entre 2000 e 2023, a produção brasileira de grãos avançou de 81 milhões para 287 milhões de toneladas, segundo dados do IBGE reunidos em estudo da Embrapa.
Isso representa crescimento aproximado de 254% no período. A produção de soja passou de 33 milhões para 148 milhões de toneladas, enquanto a de milho aumentou de 32 milhões para 116 milhões.
A produção de carnes também dobrou entre 2000 e 2023, passando de aproximadamente 15 milhões para 30 milhões de toneladas em peso de carcaça. A carne de frango avançou de 6 milhões para 15 milhões de toneladas.
Esses movimentos mostram que o desenvolvimento não ficou restrito às lavouras. O crescimento da oferta de grãos ampliou a base para cadeias de proteína animal, processamento, rações, biocombustíveis e exportação.
Na safra 2024/25, a produção brasileira de grãos chegou ao recorde de 350,2 milhões de toneladas, segundo o levantamento final da Companhia Nacional de Abastecimento.
A área cultivada passou de 79,9 milhões para 81,7 milhões de hectares, expansão de 1,9 milhão de hectares. Ao mesmo tempo, a produtividade média subiu 13,7%, de 3.769 para 4.284 quilos por hectare.
Os números ajudam a evitar dois erros comuns. O primeiro é afirmar que o agro brasileiro cresceu sem qualquer expansão territorial. O segundo é atribuir todo o aumento da produção somente à abertura de área.
Na safra recorde, os dois fatores estiveram presentes, mas a recuperação da produtividade foi proporcionalmente muito maior: a área cresceu aproximadamente 2,3%, enquanto o rendimento médio avançou 13,7%.
É importante observar que os números de 2000 a 2023 e os dados da safra 2024/25 vêm de levantamentos com períodos e metodologias diferentes. O IBGE trabalha com produção anual, enquanto a Conab acompanha anos-safra e uma cesta própria de produtos. Eles ajudam a compreender a tendência, mas não devem ser unidos como se formassem uma única série perfeitamente contínua.
O avanço brasileiro foi resultado de uma combinação de instituições, políticas e conhecimento técnico.
Estudo da Embrapa divide essa transformação em grandes fases. Entre 1965 e 2000, ganharam força as instituições de pesquisa, as políticas agrícolas, as entidades representativas e as agroindústrias de insumos e processamento. No século 21, o processo passou a ser marcado pela intensificação tecnológica e pela conexão crescente com cadeias globais de valor.
A agricultura precisou ser adaptada às condições tropicais. Solos, temperaturas, regime de chuvas, pragas e doenças exigiam soluções diferentes das utilizadas em regiões agrícolas de clima temperado.
Pesquisa e assistência técnica contribuíram para desenvolver sementes adaptadas, correção e fertilização de solos, manejo de pragas, sistemas de plantio e integração entre atividades.
O crescimento também foi impulsionado pela mecanização, pela expansão das telecomunicações, pelo uso de dados climáticos e, mais recentemente, pela agricultura de precisão.
Um dos movimentos mais importantes foi a intensificação do uso das áreas já abertas. Em diferentes regiões, tornou-se possível produzir soja no verão e milho ou algodão na sequência, dentro do mesmo ano agrícola.
Esse sistema permite obter duas colheitas na mesma área, embora dependa de planejamento, tecnologia, sementes de ciclo adequado e condições climáticas favoráveis.
A expansão da segunda safra ajudou a transformar o milho brasileiro. O produto deixou de estar concentrado apenas na safra de verão e passou a ocupar uma janela posterior à colheita da soja, especialmente no Centro-Oeste.
O crescimento da produtividade e da intensidade de uso da terra reduz a necessidade de ampliar a área na mesma proporção da produção. A Embrapa destaca sistemas como plantio direto e integração lavoura-pecuária-floresta entre as práticas que permitem utilizar os recursos de forma mais eficiente.
Os ganhos de produtividade variam conforme a cultura, a região e o tamanho do estabelecimento. Propriedades com acesso a crédito, assistência técnica, seguro, máquinas e conectividade tendem a incorporar inovações com maior velocidade.
A própria Embrapa aponta como desafio a inclusão econômica de pequenos produtores, particularmente em regiões sujeitas a secas, baixa escala produtiva e limitações de infraestrutura.
Portanto, os recordes nacionais não eliminam diferenças dentro do setor. O Brasil pode apresentar elevada produtividade média em uma cadeia e, simultaneamente, manter produtores com dificuldades para acessar tecnologia e mercados.
Repetir nas próximas décadas o crescimento observado desde 1975 exigirá enfrentar um conjunto diferente de problemas.
A expansão de área encontra maiores restrições econômicas, ambientais e regulatórias. Ao mesmo tempo, eventos climáticos extremos, custos de produção, limitações de armazenagem e maior volatilidade internacional elevam o risco das atividades.
A Embrapa identifica entre as principais tendências para o futuro a adaptação climática, a digitalização, a intensificação tecnológica, a agregação de valor, a biotecnologia e a gestão de riscos.
O desenvolvimento do agro brasileiro não pode ser explicado apenas pela disponibilidade de terra. Ele foi construído sobre pesquisa, produtividade, crédito, infraestrutura, empreendedorismo e acesso a mercados.
Nas próximas décadas, o desafio será produzir mais valor e não somente mais quantidade.