Abelha mandaguari aumenta em 67% produção de café arábica
Estudo destaca papel das abelhas no café
Foto: Pixabay
Uma pesquisa conduzida pela Embrapa Meio Ambiente em parceria com outras instituições apontou que o manejo de abelhas nativas sem ferrão pode elevar em até 67% a produção de frutos do café arábica. Publicado na revista científica Frontiers in Bee Science, o estudo destaca o potencial da polinização manejada como estratégia para ampliar a produtividade e fortalecer a sustentabilidade da cafeicultura.
O trabalho avaliou os efeitos da polinização suplementar realizada pela Scaptotrigona depilis, espécie social do grupo dos meliponíneos presente em diferentes regiões do Brasil. Segundo os pesquisadores, o aumento de até 67% na produção de frutos em ramos localizados próximos às colônias reforça a eficiência da mandaguari como polinizadora do café, inclusive em cultivares autocompatíveis, capazes de se autopolinizar.
Para medir esse efeito, os pesquisadores instalaram colônias em fazendas convencionais, em uma densidade aproximada de dez colônias por hectare, antes do início da florada. A produção foi comparada entre ramos próximos às colônias e ramos mais distantes, permitindo associar o ganho de rendimento à atividade das abelhas.
Além do impacto sobre a produtividade, os pesquisadores investigaram se o uso de inseticidas neonicotinoides poderia afetar a saúde das colônias. O foco foi o tiametoxam, utilizado em safras anteriores em áreas convencionais. Durante o acompanhamento, foram monitorados indicadores como produção de cria, mortalidade de crias e atividade de coleta de alimentos e materiais utilizados na construção das estruturas internas dos ninhos. As avaliações ocorreram em diferentes momentos: uma semana antes da florada, uma semana após a florada e cerca de 45, 75 e 105 dias depois da retirada do talhão de café.
A equipe também analisou resíduos do inseticida e de seu metabólito, a clotianidina, em materiais coletados em campo, como folhas de café, néctar e pólen. Segundo o estudo, a detecção confirmou que o uso de neonicotinoides deixou resíduos nos recursos florais acessíveis aos polinizadores.
Apesar disso, os pesquisadores afirmaram que não foram observados impactos estatisticamente significativos sobre os parâmetros avaliados nas colônias. Indicadores como produção e mortalidade de crias não apresentaram diferenças relevantes entre colônias instaladas em áreas convencionais e aquelas mantidas em propriedades orgânicas após o período de exposição. A atividade de coleta apresentou variações iniciais entre os sistemas, mas essas diferenças diminuíram ao longo do monitoramento.

Os autores destacam duas implicações centrais para a cafeicultura. A primeira é que as abelhas sem ferrão podem atuar como polinizadoras eficientes do café arábica, com potencial para elevar a produtividade mesmo em cultivares autocompatíveis, sem depender obrigatoriamente de outra cultivar compatível para fecundação.
A segunda conclusão do estudo é que, nas condições avaliadas, o uso de defensivos agrícolas dentro das recomendações técnicas não gerou danos mensuráveis às colônias, indicando a possibilidade de conciliar a proteção das lavouras com a preservação dos polinizadores.
Conforme a bióloga Jenifer Ramos, primeira autora do estudo e bolsista de estímulo à inovação da instituição, os resultados reforçam a importância de integrar biodiversidade e produção agrícola. “O estudo demonstra que o uso de abelhas nativas manejadas pode gerar ganhos expressivos de produtividade, ao mesmo tempo em que contribui para a conservação dos polinizadores e para o fortalecimento de sistemas agrícolas mais sustentáveis. Trata-se de uma solução baseada na natureza com grande potencial de aplicação na cafeicultura brasileira”, afirma.
Para o pesquisador Cristiano Menezes, coordenador do trabalho, a pesquisa amplia o entendimento sobre como equilibrar a proteção das lavouras e a conservação dos polinizadores. “A pesquisa traz evidências importantes de que é possível conciliar o manejo fitossanitário com a manutenção da saúde das colônias de abelhas, desde que sejam seguidas as recomendações técnicas. Isso contribui para o desenvolvimento de estratégias integradas que aumentam a produtividade agrícola e promovem a sustentabilidade no campo”, explica.
O aumento da produtividade ocorre em um momento de pressão sobre o mercado global de café. Dados da Organização Internacional do Café indicam que a produção mundial no ciclo 2023/24 foi estimada em 178 milhões de sacas de 60 quilos, enquanto o consumo chegou a 177 milhões. A diferença reduzida entre oferta e demanda mantém o setor vulnerável a oscilações climáticas e perdas de safra nas principais regiões produtoras. Para 2024/25, a estimativa global foi revisada para cerca de 176,2 milhões de sacas, mantendo o cenário de mercado apertado. Agora, as atenções se voltam para a safra 2025/26 e para o desempenho da colheita brasileira, considerada decisiva para o equilíbrio do abastecimento mundial.
O consumo global de café também segue em crescimento, com avanço próximo de 2% ao ano, impulsionado pela abertura de novos mercados e pela consolidação da bebida em países tradicionalmente importadores. Segundo os pesquisadores, esse movimento amplia a demanda por sistemas produtivos mais resilientes e eficientes, capazes de elevar a oferta sem necessidade de expansão sobre novas áreas de cultivo.