Uso agrícola de lodo de esgoto e a ocorrência de doenças
Uso agrícola de lodo de esgoto pode ter efeitos na ocorrência de doenças de plantas
Uso agrícola de lodo de esgoto pode ter efeitos na ocorrência de doenças de plantas
Muitas cidades iniciaram, nas últimas décadas, a construção de Estações de Tratamento de Esgoto (ETE), visando à despoluição dos rios e a redução dos problemas de saúde pública. Desse tratamento resulta a produção do lodo de esgoto, que é um resíduo que necessita de uma adequada disposição final para não causar problemas ambientais. Entre as diversas alternativas existentes para a disposição, a para fins agrícolas apresenta-se como uma das mais convenientes, pois, como o lodo é rico em nutrientes e com alto teor de matéria orgânica, é amplamente recomendada sua aplicação como condicionador de solo e fertilizante. Além disso, sob o ponto de vista ambiental, a reciclagem agrícola do lodo de esgoto é uma alternativa das mais convenientes, propiciando também economia de energia e reservas naturais, na medida em que diminui as necessidades de fertilização mineral.
Entretanto, a aplicação de lodo de esgoto no solo causa alterações nas propriedades físicas, químicas e biológicas dos solos. Por esse motivo, há necessidade de se conhecer o que ocorre com essas características, haja vista que cada uma delas está desempenhando um papel fundamental na vida do solo e no funcionamento do agroecossistema. O desconhecimento dos efeitos do lodo de esgoto na comunidade de organismos, nos teores de metais pesados e nas propriedades físicas e químicas dos solos tropicais é um dos problemas relacionados com a sua utilização agrícola. Sabendo-se que a aplicação do lodo de esgoto causa essas alterações, há necessidade de conhecê-las e verificar se suas conseqüências serão benéficas do ponto de vista agronômico.
Os lodos de esgotos produzidos no Brasil estão sendo utilizados em larga escala na agricultura, principalmente nas culturas de cana-de-açúcar, milho, café e eucaliptos. Entretanto, até o momento, apenas os lodos gerados pela CAESB/Brasília, SABESP/Franca, CSJ/Jundiaí, SANASA/Campinas e SANEPAR/Curitiba estão sendo utilizados na agricultura.
Na Embrapa Meio Ambiente (Jaguariúna, SP) está sendo conduzido um experimento interdisciplinar, de longa duração, com a finalidade de avaliar o impacto ambiental do uso agrícola de lodo de esgoto. Estão sendo estudados os efeitos nas comunidades de organismos, nos teores de metais pesados, na mineralização do nitrogênio e nas propriedades físicas e químicas dos solos, entre outros. Os solos estão recebendo a incorporação de diferentes dosagens de dois tipos de lodo de esgoto gerados pela SABESP, há cinco anos. Um é produzido na Estação de Tratamento de Esgoto de Franca, que trata esgoto essencialmente doméstico e outro na ETE Barueri, que trata tanto esgoto industrial, como doméstico.
Dentre os impactos estudados na comunidade de organismos, a ocorrência de doenças de plantas, causadas por microrganismos patogênicos que habitam o solo, constitui um dos mais importantes devido aos prejuízos que podem ocasionar aos agricultores. Por ser rico em matéria orgânica, o lodo de esgoto pode colaborar no controle de doenças de plantas, principalmente pela capacidade de estimular os microrganismos benéficos que também habitam o solo. Entretanto, a aplicação do lodo tem efeitos diferentes para cada doença, podendo estimular alguns fitopatógenos.
Após os cinco anos de aplicação de lodo e plantio de milho, foi verificado que ocorreu um aumento significativo da incidência de podridão do colmo, doença causada por Fusarium, com o aumento das doses dos lodo aplicados. Entretanto, quando os lodos foram aplicados na concentração recomendada, isto é, na dose para fornecer a quantidade de nitrogênio semelhante ao tratamento com adubação mineral, foi baixa a ocorrência da doença, demonstrando a importância de se aplicar a quantidade adequada de lodo. Quando os lodos foram aplicados em doses superiores à recomendada pela norma P4230, da CETESB (1999), que estabelece os critérios para a aplicação de lodos de sistemas de tratamento biológico em áreas agrícolas, a incidência da doença foi alta. Entretanto, essas doses nunca devem ser utilizadas pelos agricultores, pois apesar do aumento na produção do milho, poderão ocorrer sérios problemas de desequilíbrio nutricional e contaminação do lençol freático com nitrato, entre outros. Por outro lado, o resultado demonstra a necessidade de monitoração da ocorrência da doença em áreas onde ocorre o uso contínuo do resíduo, pois poderá apresentar os problemas aqui observados num curto espaço de tempo.
Em trabalhos realizados pela Embrapa Meio Ambiente para outras culturas foi comprovado que a incorporação de lodo de esgoto ao solo resultou em melhor desenvolvimento de mudas de citros e reduziu a podridão de raízes, também conhecida como gomose, doença causada por Phytophthora nicotianae. Para feijão também foi observado o controle do tombamento e da podridão do colo causados pelo fungo Sclerotium rolfsii. Para essa cultura o lodo também apresentou efeito positivo em seu desenvolvimento. Os resultados apresentados estão de acordo com os obtidos em outros países, onde foi verificado que há aumento ou redução na severidade das doenças dependendo do patossistema, isto é, da cultura e do patógeno envolvidos.
Esses resultados evidenciam a necessidade de serem realizados estudos para as diferentes doenças das diferentes culturas. Dessa forma, estão em andamento estudos para avaliar o efeito do lodo de esgoto sobre outras doenças causadas por fungos, bactérias e nematóides.
Seria interessante que esse tipo de estudo também fosse realizado para os demais resíduos urbano-industriais dispostos na agricultura, pois os estudos apenas dos efeitos nutricionais são insuficientes para a decisão da incorporação dos mesmos em solos agrícolas. Com certeza estudos amplos trarão mais segurança para a disposição de resíduos na agricultura.
Autores: Raquel Ghini e Wagner Bettiol são pesquisadores da Embrapa Meio Ambiente.