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Agronegócios e Geopolítica: qual o futuro?


IZNER HANNA GARCIA

Agronegócios e Geopolítica: qual o futuro?

 

Izner Hanna Garcia

 

Simbiose na biologia: significado e exemplos

 

Qual o futuro é uma pergunta, em grande medida, ingênua por ser tão pretensiosa.

 

As variantes que implicariam aproximar uma predição desta magnitude são tantas e tamanhas que seria impossível, à partir de reunião de dados, ter uma conclusão minimamente acertada.

 

Publicado originalmente em 2004 e com edição em português em 2012, o livro Relatório da Cia., como será o mundo em 2020? trazia uma coletânea de análises, dados cruzados, informações e, claro, as conclusões do que seria o mundo em 2020.

 

Este trabalho errou? Não em uma resposta curta. Platitudes adotadas (como disputa de superpotências por tecnologia, energia, biotecnologia, crises climáticas e etc.) estão no livro. Mas, se pensarmos no mundo que se desenvolveu, a diferença entre o previsto e o que é o mundo hoje, deixou lacunas imprevisíveis. Lacunas as vezes sutis mas que claro fazem uma diferença muito grande no resultado entre o resultado.

 

Analogamente seria como, em uma rota de 10.000 se cometer um desvio de 1º. Em uma rota curta 100 mts., este 1º não fará diferença prática mas em 10.000 kms sim.

 

Mas o que tem “a ver” a geopolítica, a guerra na (ou da) Ucrânia com o agronegócios brasileiro?

 

Tudo. A grandeza do agro brasileiro é uma projeção global, cada dia mais e por esta razão, mesmo que não for agente, será agido pelas forças que moldam a geopolítica.

 

É necessário que se tenha uma compreensão primeira: o Brasil teve, em 2025, uma exportação recorde de algo como USD 170 bilhões do setor agro.

 

É muito? Sim, muito. Prova a eficiência e força do nosso agro.

 

Mas porém todavia contudo entretanto, em termos absolutos e globais, o valor exportado pelo agro brasileiro chega a ser insignificante. Veja: China, em 2025, exportou USD 3,77 trilhões; Japão: USD 738 bilhões; Coreia do Sul: 709 bilhões; India: USD 860 bilhões; Rússia: USD 418 bilhões; Turquia: USD 273 bilhões; Alemanha: USD 1,7 trilhão; USD 1,12 trilhão; Suiça: USD 553 trilhões; Holanda: USD 1,07 trilhão.

 

O que estes números nos dizem?

 

Que nosso volume, que é muito para nós, é muito pequeno em termos financeiros.

 

Pense: Holanda, com uma população de 18 milhões de habitantes, praticamente um pais sem terra (tomada do mar), teve em 2025 um volume de exportação de USD 1,07 trilhão ou quase 20x o Brasil.

 

Mas, novamente com todas o uso das conjunções coordenativas adversativas, então significa que o agronegócio brasileiro é insignificante?

 

A resposta é um sonoro não.

 

Não pelo volume financeiro mas sim pela questão geopolítica na medida que a produção exportável do Brasil tem absoluto (como nenhum outro país) peso de estabilização das necessidades alimentarias do mundo, especialmente para a China mas não só.

 

Em um cenário hipotético em que o Brasil não exportasse nada em um ano de sua produção agropecuária certamente a China e outros mercados não teriam falta de dinheiro mas, sim, com certeza teriam falta de comida, haveria desestabilização real (fome) em muitos lugares.

 

Desta compreensão, muitas vezes não percebida, vem a importância e força do agronegócio brasileiro.

 

Deixemos de lado que o Brasil tenha um ano de perda de safra de 100% de todos seus produtos. Não é crível pensar em tal cenário. Mas se houver uma guerra mesmo entre China e EUA e a produção do Brasil, submetida aos EUA, for bloqueada e proibida de ser vendida à China?

 

E ao inverso: se o Brasil fosse proibido de vender à China e países hostis aos EUA, o que faremos com nossa produção? O quão de excedente gerará no mercado então que nos restará da Europa e EUA?

 

Assim, aqui cabe uma análise da globalização e das perspectivas globais.

 

Em termos simplistas como está a situação mundial hoje?

 

Dentro de uma simplificação podemos compartimentar a análise basicamente em blocos individuados para, então, tentar fazer uma análise conjunta para, só assim, chegar ao agronegócios do Brasil.

 

EUA, China, Europa, Sudoeste Asiático, Oriente Médio, Russia, India e Japão.

 

EUA. Qual a posição dos EUA hoje?

 

Uma grande potência, sem dúvida. País industrial, com grande população, grande produtor agrícola, grande produtor de serviços, com capacidade militar mundial que projeta-se no mundo todo. Hegemônico como detentor da moeda de curso e reserva global o que lhe atribuí uma grande vantagem.

 

Contudo, a par de todas estas grandezas, logicamente, há muitos problemas objetivos e subjetivos que atingem o Império norte americano. O mais flagrante e visível talvez seja a grande dívida pública da ordem de USD 39 trilhões.

 

O número é assustador em si mas, em essência, não é tão grave como pode parecer até porque os EUA alcançaram a hegemonia da moeda mundial e, de fato, imprimem o dinheiro que devem e têm absorção (colocação) para toda emissão no mundo todo.

 

Em relação à dívida pública o problema é a tendência -- crescente sem sinalização de que venha a reverter – e, então conectando à geopolítica, até quando os EUA conseguirão manter a hegemonia monetária mundial porque, obviamente, sem este lastro (sua hegemonia monetária) em termos puramente financeiros, a dívida é insustentável e impagável.

 

No entanto esta questão é objetiva, mais clara. Os problemas de ordem mais subjetiva dos EUA não são tão auferíveis em uma análise simplista.

 

A partir de 1980 houve um processo de financeirização da economia norte americana onde a participação do setor financeiro saltou de 2,5% do PIB em 1947 para os 21% da atualidade (se incluirmos o bloco FIRE: finanças, seguros e imóveis).

 

O país, com uma participação tão relevante do setor financeiro, termina por tornar-se refém de uma lógica do mercado financeiro, condicionando seus empreendimentos, alocação de recursos, diretivas e gestão produtiva submissas à lógica dos bancos.

 

Em si não se teria de apontar nenhum problema mas, na verdade, há uma consequência nefasta porque os bancos, geralmente compostos em estruturas que são a reunião de capitais e dirigidos por executivos (não donos mesmos) terminam por impor uma visão, no máximo, de médio prazo. Um banco (é natural que assim seja) não estará pensando em 10 ou 20 anos porquanto sua preocupação é o seu balanço semestral, seus resultados imediatos (até porque este resultado será determinante para distribuição de bônus aos executivos que tomam as decisões e de dividendos aos acionistas que colocam estes executivos).

 

Vamos pensar em um exemplo do agronegócios. Pensemos em uma fazenda.

 

Você recebe hoje uma fazenda de pecuária. 2.000 hectares. Terra boa. A fazenda está estruturada. As cercas estão novas. Cochos distribuídos nas pastagens. Os pastos limpos, adubados. Galpão reformado. Instalações (curralama, casas, mangueiro) em perfeitas condições. Garrotada nelore de 10 arrobas.

 

Então você tem o dia 1 e começa a tocar a fazenda.

 

Passado um ano você tem – digamos – o embarque de 500 bois gordos com 18 arrobas. Mais ou menos você teve um faturamento bruto da ordem de R$3 milhões.

 

Então você subtraiu as despesas mensais da fazenda. Somente para efeito de exemplo digamos que você tenha um despesa mensal da ordem de R$20 mil e, assim, anual de R$240 mil.

 

Os seus R$3.000.000,00 milhões são agora R$2.760.000,00.

 

Ok, mas tem de repor os bois abatidos. 500 cabeças x R$3.500,00 = R$1.750.000,00.

 

Dos R$2.760.000 – R$1.750.000,00 = R$1.010.000,00.

 

Que ótimo, não? Está com R$1 milhão de caixa de lucro líquido.

 

Verdade ou não? A informação é errada ou certa?

 

Certa e errada.

 

O número existe, não é mentira.

 

Mas e os seus pastos, suas cercas, seu galpão, suas instalações? Não precisam de manutenção, reformas, reparos, investimentos que custam? Passou um ano e o pasto sujou, não muito, mas sujou. Você não vai limpar?

 

Bem, agora vamos ao banco. Um executivo de um banco, que não é dono da fazenda, que não estará à frente do negócio daqui 5 anos, teria estímulo para fazer estes gastos e investimentos que não são aparentemente necessários e, com isso, diminuir o resultado que apresentará?

 

Será que não poderia pensar: o pasto não está tão sujo, capaz que não limpo este ano e este ‘gasto’ (que na verdade é investimento) não diminuí o lucro que vou apresentar. O galpão destelhou? Mas é só no fundo. Deixa assim por enquanto. Aquela cerca precisa de reforma? Dá para dar uma emendada ali, colocar uns postes no meio. E, quem sabe, ao invés de fazer a reposição com uma bezerrada de cabeceira nelore não reponho com uma tucurada? Serão, no balanço, igualmente 500 cabeças mas o custo de reposição irá ser 20% menor e, claro, o lucro contábil, no balanço, será 20% maior.

 

Se esta fazenda for tocada assim o que acontecerá em 5 anos?

 

A resposta é óbvia. Mas, veja, ao longo destes 5 anos o lucro contábil será extraordinário. Quem olhar somente o resultado contábil (que geralmente é o que se faz no meio financeiro) esta gestão será excelente e os acionistas receberão gordos dividendos e, claro, pagarão altos bônus ao gênio gestor.

 

No entanto, em 5 anos você terá uma fazenda com pastos sujos e degradados, cercas em mal estado, instalações necessitando de reparações urgentes e um gado de pior qualidade e pior rendimento. Já, então, os resultados não serão os mesmos e as consequências desta gestão de médio prazo aparecerão no curto prazo reduzindo sistematicamente sua rentabilidade e, claro, já tendo seu ativo (que é sua fazenda) de menor valor.

 

Este “filme” ou “estória” todos vimos acontecer várias e várias vezes com herdeiros, no campo.

 

Mais ou menos é o que aconteceu com os EUA a muito grosso modo.

 

O pós guerra e os tratados de Bretton Woods deram aos EUA um poder senão hegemônico e absoluto (porque, enfim, a União Soviética mesmo destroçada pela Guerra ainda ficou de pé) ao menos uma proeminência única que de fato merece o título de Império Americano.

 

A partir deste momento (claro que os EUA já eram grandes) o Império dominou a produção de energia (no Oriente Médio), dominou o Japão e Coreia do Sul, subjugou a Europa e, claro, América Latina (expulsando os interesses europeus) e, subsidiariamente, a África também. Mesmo a Inglaterra, com ainda cambaleante Império teve de submeter-se aos ditames norte americanos.

 

E, como herdeiros, vítimas da própria grandeza e riqueza, a “fazenda” ficou cada vez mais longe, as luzes da cidade cada vez mais brilhantes e as decisões cada vez mais focadas nos balanços e não em uma perspectiva de longo prazo.

 

Anos, décadas passaram-se e, então, eis que de repente surge a China em meados dos anos 2000 como uma potência industrial exportadora.

 

Para contextualizar: no ano de 1970 (56 anos passados) o Brasil exportou USD 2,98 bilhões e a China exportou USD 2,27 bilhões.

 

Hoje...

 

Assim, aquele pais lá do fim do mundo, cheio de gente comendo arroz, atrasado, agrário, comunista, aparece no cenário global. A União Soviética, que era o arqui-inimigo dos EUA durante a Guerra Fria, deita por terra e, justamente quando parecia que os EUA teriam seu século de domínio total à frente, vem esta China atrapalhar os planos.

 

Nossa visão da China, na maioria das vezes, é totalmente equivocada. Temos a dimensão da China à partir do domínio britânico e seus 300 anos de decadência. Esquecemos que a China, Império com 3000 ou mais anos, foi na maioria de sua existência o maior império do mundo. A arrogância da vitória leva-nos à ignorância.

 

Assim, voltemos aos anos 2000. A China começa a aparecer. Incomoda. O Império norte americano ressente-se, tem formigamento e coceira afinal quem são estes chineses para pensar que podem sentar à mesa do mundo quando nós somos os imperadores do mundo?

 

Mas o que faz os EUA? Mudam seu rumo? Não, em absoluto. Não mudam. Promovem guerras eternas (Iraque, Afeganistão, Síria, Líbia e agora Irã), continua a “bancar” Taiwan para estigmatizar o gigante asiático. No front interno não procuram mudar os rumos de sua economia e buscam promover uma sociedade de consumo patrocinada por crédito. No campo de políticas públicas não alteram a trajetória de déficits crescentes e consequente aumento do endividamento, não pensam em equilíbrio fiscal e tantos outros etcs..

 

Chegamos então a 2026.

 

Qual a situação?

 

Uma guerra na Ucrânia patrocinada pela OTAN com os EUA à frente logicamente, uma guerra no Irã diretamente envolvendo os EUA. A estrutura do Oriente Médio em convulsão e os países tributários dos EUA (Conselho de Cooperação do Golfo (GCC) são seis nações do Oriente Médio: Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Omã) em situação de frágil equilíbrio.

 

O Estreito de Ormuz (rota vital) conflagrado. O Mar Vermelho e Estreito de Bab el-Mandeb sob ataques dos Houties. O Mar Negro fechado literalmente pela Rússia.

 

O Japão (aliado norte americano) em séria crise financeira precisando de resgate conjunto dos EUA para segurar sua moeda.

 

A marinha (crescente) da China confrontando a marinha norte americana no Mar da China e no Estreito de Taiwan.

 

A Rússia hostilizando-se o Japão pela disputa do Arquipélogo das Curilas.

 

O Japão mudando sua política externa e preparando-se para um rearmamento. Igualmente a Alemanha tocando tambores de guerra e, pela 1ª vez desde a 2ª Guerra, enviando uma brigada militar para o exterior (Lituânia).

 

Enfim, o que seria o século do Império norte americano está se mostrando, na prática, mais um possível ocaso deste Império visto que há muitos sinais que os EUA não poderão manter todos estes enfrentamentos sem deixar que ‘bolas passem’, por assim dizer.

 

A par deste panorama militar há cada dia mais uma pressão sobre a economia norte americana e ocidental porque, claro, toda uma desestruturação desta magnitude está gerando e acelerando uma vantagem competitiva justamente para o Oriente, para a China e países asiáticos e, claro, a Índia.

 

Em uma retroalimentação cada vez que os EUA querem mais agir como Império e reagem à ameaça de sua hegemonia como um Imperador justa e precisamente, perde mais e mais este império porque criam estímulos para que os outros agentes encontrem soluções alternativas.

 

Somente pensemos no exemplo da Guerra na Ucrânia. Os EUA impuseram à Rússia mais de 10 mil sanções. Pensavam que estas sanções (nunca vistas nesta extensão) iriam resultar na subjugação russa. Não aconteceu. Mas o que aconteceu? A Rússia achou mecanismos alternativos e segue na Guerra, cada vez mais estruturada.

 

Está ensinando o caminho como, igualmente, o Irã está mostrando ao mundo que se pode dizer não aos EUA e continuar de pé.

 

Usar estas sanções como instrumento de guerra (porque são mais fáceis e fazem parte da lógica de um país que pensa dentro do esquema de financeirização) somente acelera justamente a perda da hegemonia do dólar como moeda global. É como a chantagem. Somente vale até ser exercida. Se for exercida, então, para o chantagista já não resta qualquer instrumento.

 

Deste modo, para tentar fechar uma conclusão, a situação global hoje aponta para um EUA como um Império assolado por todos os lados, a Rússia retomando o comando de suas ações soberanas à despeito da OTAN, um Oriente Médio conflagrado e um custo de energia (e correlatos) elevado em 30%, China e Índia como 2 gigantes tentando passar ao largo do tiroteio para, ilesas, crescerem mais, Europa à reboque dos EUA e a América Latina sob o foco do domínio norte americano que, até por enfrentar dificuldades em outras regiões, parece que foca mais nos ‘irmãos do sul’.

 

Depois deste passeio todo voltemos ao agronegócio.

 

Qual a perspectiva, qual o futuro, quais os riscos que estamos envolvidos como setor essencial do Brasil?

 

Antes de qualquer coisa devemos lembrar de geografia: de quem estamos longe e de quem estamos perto? Quem está perto é nosso comprador? E quem está longe?

 

Esquecendo qualquer análise ideológica ou matiz político a pergunta é: em termos complementários, racionais, o agronegócio é vendedor para quem?

 

País que produz compra o que vendemos?

 

Por exemplo: vamos vender trigo ou soja para Argentina? Vamos vender café para Vietnã ou Colômbia? Vamos vender petróleo para a Arabia Saudita?

 

Acho que este raciocínio simples faz com que se perceba que, em princípio, os EUA que são grandes produtores agrícolas, não serão nunca nossos compradores de 1ª linha, embora, claro, tenhamos muita exportação para eles.

 

Com China à frente e outra gama de tantos outros países, os grandes compradores são países que não produzem mas tem dinheiro, como por exemplo Arabia Saudita, China e etc.

 

Na verdade países produtores (como EUA em primeiro lugar e Argentina) são nossos concorrentes.

 

O Brasil colheu seu primeiro 100 milhões de toneladas de grãos em 2000/2001. Em 2014/2015 passamos a 200 milhões e agora chegaremos em 360 milhões de toneladas.

 

Não é difícil estabelecer a correlação entre o crescimento exponencial do agronegócio dos anos 2000 até hoje com, justamente, o crescimento exponencial da China e de sua riqueza. Na medida que a China cresceu e enriqueceu demandou mais comida e mais comida propiciou o mercado que hoje temos para vender.

 

Dito isso, voltemos à geopolítica.

 

Em 3 de janeiro de 2026, em uma operação militar especial, digna dos roteiros de Hollywood, o até então presidente da Venezuela Nicolás Maduro foi literalmente arrancado do seu palácio presidencial e levado sob custódia para ser julgado nos EUA. A partir de então o governo norte americano subjugou o governo venezuelano praticamente transformando a Venezuela em um estado títere.

 

Mas o que tem isso a ver com o agronegócios do Brasil?

 

Pensemos. Concatenemos os pontos.

 

A China tinha interesses econômicos na Venezuela que, claro, agora estão submetidos à decisão norte americana. Pode até ser que ajam acordos e os EUA irão respeitar ou indenizar estes interesses mas, ao final, o fato é que os EUA ‘tomaram’ a Venezuela e a China não poderá ter ‘livre’ trânsito ali.

 

De modo semelhante (mas sem a ação militar direta) aconteceu no Canal do Panamá onde os EUA pressionaram o governo local para romper os laços com Pequim, expulsando os interesses chineses do Panamá ou, ao menos, reduzindo substancialmente.

 

Tal aparenta ser uma mudança da política externa dos EUA em relação à América Latina, aliás, um reviver do que sempre foi a Doutrina Monroe de domínio dos EUA da América Latina.

 

Esta mudança veio acompanhada da reativação do Comando Sul, da 4ª frota naval que “cuida” do América do Sul.

 

Então, vamos levantar de nossa cadeira e tentar passar ao outro lado da mesa, do lado que estão os chineses.

 

Dentro do cenário mundial há uma elevação das tensões e confrontações. China e EUA mostram-se os dentes e rangem. Qual seria a situação se, por exemplo, China invade e toma Taiwan? Os EUA exerceriam o bloqueio da China à América Latina? Se isso ocorresse o que seria do nosso agro, da nossa produção?

 

E a China o que será que pensa desta possibilidade? Ou será que não pensa? Entendamos: o abastecimento de grãos para China não é questão de preço e sim de estabilidade social. Por exemplo agora nesta guerra comercial do Brasil com os EUA, o governo norte americano deixou de fora das tarifas vários produtos, entre eles a carne para que não chegasse mais cara ao consumidor norte americano. Mas, no caso da China, se não pudesse comprar grãos da América Latina (Brasil e Argentina substancialmente) a questão não seria de preço e sim de fome.

 

Fica claro que a China já pensou isso. Mas não só pensou como também elaborou planos de ação para ver-se fora de um cerco em caso extremo. Qual seria a solução da China? Evidente que ainda não pode plantar na Lua. Também expandir sua produção não é possível de modo relevante.

 

A solução que a China encontrou e que parece-me bem lógica a médio prazo é promover o desenvolvimento na África de infraestrutura e expansão agrícola para que, então, a África seja o celeiro e não mais os países submetidos ao guarda chuva dos EUA.

 

Vamos pensar para trás para raciocinar para frente.

 

A borracha. O Brasil já foi o rei da borracha. A riqueza e fortuna fluiu em Manaus. O que aconteceu? Desenvolveram outros centros de produção e tudo acabou. O café foi outro exemplo. Em certa época o Brasil no mercado até que os ingleses desenvolveram a cultura na África e sudeste asiático e, claro que o Brasil ainda é um grande produtor, não tem mais o domínio do mercado.

 

Desta maneira o agronegócios não deve temer a China ou invasão chinesa e sim ao contrário, o fim do interesse da China pela nossa produção.

 

Não há que pensar em uma iniciativa governamental mas as entidades representativas do agro deveria, urgentemente, criar grupos de trabalho e ações justamente para apresentar meios e propostas para, justamente, motivar a China a estreitar laços com o agro brasileiro (não só como compradora final) para que o radar do gigante asiático não aponte para ir do Brasil e sim para vir e participar do Brasil.

 

Somente, com inteligência, nos mesclando em uma simbiose entre produtor/consumidor entre o agro do Brasil e a China poderemos não ser, no futuro, deixados de lado com uma produção abarrotando armazéns mas sem mercado.

 

Izner Hanna Garcia, advogado, pós graduado FGV

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