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Argentina: a pá de cal


Argemiro Luís Brum
A reeleição de um governo populista, que construiu nos últimos anos uma economia claudicante, personificado em Cristina Kirchner, foi a pá de cal para o enterro definitivo da economia do vizinho país. Dito de outra maneira, e talvez por falta de opção “menos pior”, os argentinos decidiram continuar com um governo que vem afundando o país economicamente.

Por extensão, um governo que está hipotecando um futuro melhor e sustentável para sua população, embora no curto prazo pareça ser o contrário. O governo que hora foi reeleito construiu uma distorção de preços relativos de enorme magnitude nestes últimos anos. Ou seja, os preços dos salários estão artificialmente altos enquanto os preços dos bens de consumo e das tarifas dos serviços públicos estão artificialmente baixos. Essa política populista, visando ganhar as eleições, está quebrando o país vizinho.

Tanto é verdade que as arbitrariedades e erros da política econômica se transformaram em máquina de afugentar capitais. Está-se diante de um governo que não respeita os direitos de propriedade, e não possui disciplina fiscal e monetária (cf. Cachanoski, El Clarin de 09/10/11). Desta forma, o confisco torna-se uma arma que penaliza a sociedade, particularmente as exportações. Paralelamente, os gastos públicos estão em níveis recordes em relação ao PIB, havendo um forte déficit fiscal em evolução. A reeleição de Cristina Kirchner irá aprofundar tal realidade. Tanto é verdade que é impossível, segundo analistas locais, sustentar tal gasto público sem novos confiscos.

Argentina: a pá de cal (II)

Todavia, os subsídios estatais, financiados pelo setor privado, que mantêm tais distorções, estão chegando a um limite. Uma correção deve ser feita, sob pena de vermos a Argentina afundar ainda mais nos próximos anos. E tal correção será dura, difícil e onerosa para a população.

O custo do populismo de ocasião virá com toda a força, comprometendo toda uma geração. Para se ter uma ideia da magnitude de tais distorções, as tarifas dos trens e metrô deveriam sofrer um ajuste de quatro vezes o atual preço, as dos ônibus coletivos de três vezes e as de energia elétrica algo em torno de 300%.

Como se fará isso sem provocar um desastre econômico interno maior do que já existe? E se não o fizer, a Argentina caminha para o total sucateamento de sua infraestrutura, já diminuída. Paralelamente, o câmbio precisa ser desvalorizado na dimensão da inflação elevada já existente (algo bem superior a 20% anuais segundo os institutos privados).

O mesmo, no mínimo, precisaria chegar a 5 pesos por dólar, contra os atuais 4,2 pesos, isso se o Real brasileiro não continuar a se desvalorizar perante o dólar. Enfim, manter aumentos salariais superiores a uma inflação que já escapa ao controle é insustentável. Isso está gerando um forte desemprego que o ritmo artificializado do consumo não conseguirá esconder por muito tempo.

Assim, não haverá aterrissagem suave para a economia argentina e isso cairá como uma bomba sobre a anestesiada população local. Que a preocupante realidade de nossos vizinhos nos sirva de alerta quanto a tentações populistas verde-amarelas.
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