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Erros de Replicação e a IA


IZNER HANNA GARCIA

Replicação (duplicação) do DNA: o que é, processo e exercícios - Toda  Matéria

 

Erros de Replicação e a IA

 

                                                                                                                              Izner Hanna Garcia

 

                Outro dia, tratando com um colega advogado com o qual tenho uma ação onde atuamos em conjunto, tínhamos de fazer um e-mail simples – de no máximo 4 linhas – ao gabinete do Magistrado. Fiz o esboço e enviei para leitura e correção do meu colega.

               

                A resposta veio na forma de um texto que ele “jogou” no programa de IA dele.

 

                Não vou derivar esta situação para platitudes ou análises simplórias dizendo que o texto da IA perdeu o conteúdo humano, a empatia ou coisa que o valha. Nem tão pouco posso dizer que o texto estivesse errado. Aliás, sob alguns aspectos, até melhor colocado, devo admitir.

 

                Mas, enfim, fiquei um pouco chocado com o fato porque, claro, era um texto de 4 linhas, sem pesquisas doutrinárias ou de julgados, simplesmente quase só um bilhete, comunicação banal que não deveria depender de maiores informações.

 

                Então, em um ‘estalo’ (ou insight) tive consciência do quanto a IA está literalmente ‘entrando em nossa vida’ e fazendo parte de nosso cotidiano. Para usar uma analogia é como pensarmos no controle remoto: é inconcebível hoje que tenhamos um aparelho de TV sem controle remoto. Sou da época da Telefunken  com aqueles botões e seletor de canal manual.

 

                É óbvio que neste primeiro momento a IA irá ser uma ferramenta fantástica não só pessoal mas de produção mesmo. Fico lembrando-me de consultar a Barsa ou a Larousse quando queria alguma informação. E, claro, informação do passado, não de ontem ou de agora.

 

                A IA, implantada nas redes, ‘girando’ 24 hs e absorvendo trilhões de trilhões de informações, cliques, opiniões, dados, informações encontrou um manancial que, na forma estrutura, possibilita soluções em segundos impensáveis.

 

                Deixando de lado aspectos como desumanização, planificação social, perda da criatividade, extinção de trabalhos (acho que na minha profissão – advocacia – o estrago será enorme como em tantas outras profissões) e tantos mais etcs., veio-me à reflexão um paralelismo com a genética.

 

                Não tenho a idéia fechada e mas somente um embrião.

 

                Os genes, como tais, replicam-se continuamente. Em princípio ideal cada réplica seria como seu antecessor. No entanto, no mundo real, este ato de replicar não está isento de erros chamados justamente erros de replicação. Basicamente estes erros ocorrem: (i) substituição: uma letra do DNA troca por outra; (ii) inserção: uma letra extra entra no código ou (iii) delação: uma letra some do código.

 

                Estes erros de replicação podem ser nulos, benéficos ou maléficos.

 

                Assim, voltando ao caso do ‘bilhete’ submetido à IA e pensando que, digamos, em 5 anos tudo, literalmente, que formos fazer estará sob a égide da IA, me pergunto se estes erros de replicação não ocorrerão no ‘universo IA’.

 

                Aqui tenho de abordar dois temas que interessam: na genética a ‘velocidade’ é infinitamente menor do que o está ocorrendo na IA, tal seja, a replicação no ambiente IA é quadrilhões de vezes mais rápido do que a mutação genética.

 

                Isso importa.

 

                Outro tema: a genética, no tempo biológico termina, pela seleção natural de Darwin, ‘corrigindo’ ou ‘aproveitando’ esta variação de replicação (mutação) e, assim, ou temos novas espécies vencedoras ou antigas espécies extintas.

 

                Assim, se a IA estiver por paradoxo impositivo de ‘rodar’ no modo replicação genética, qual será o resultado dos erros? Se vamos (como acho que sim) aderir totalmente à IA qual será a ‘revisão’ dos erros de replicação? Na medida que um erro da IA for reproduzido e assim sucessivamente por justamente o processo que ela funciona, como será corrigido este erro?

 

                Pensando em outra analogia se a IA traz um aplainamento da paisagem, se tudo será uma planície onde há uma uniformização da informação, linguagem, dados e etc., como irá surgir a divergência evolutiva cognitiva?

 

                Pensemos na linguagem de uma passagem de um poema de Gregório de Matos:

 

Mui grande é vosso amor, e meu delito,

Porém pode ter fim todo o pecar,

E não o vosso amor, que é infinito.

 

Esta razão me obriga a confiar,

Que por mais que pequei, neste conflito

Espero em vosso amor de me salvar.

 

Gregório de Matos, Antologia poética

 

                Esta linguagem, claro, hoje não é usada como, igualmente, antes de surgir como uma corrente (gongorismo e quevedismo) também não era usada. Assim, digamos, foi um ‘variação genética’ cognitiva que surgiu, expressou-se e foi deixada para trás. Mas o ‘deixar para trás’ não significa que tenha sido desimportante porque o que é a linguagem hoje contemporânea também foi construída em virtude do que já passou.

 

                Aqui a pergunta: a uniformização da IA não nos colocará em uma redoma onde não haverá variação quase como se pudéssemos harmonizar a atmosfera do mundo a um clima única e constante?

 

                Em conclusão, conjugando os dois fatores (a uniformização que impede a variação e os erros de replicação do sistema que não inexoráveis) não podemos estar caminhando para um grande default cognitivo?

 

Izner Hanna Garcia, advogado, pós graduado Fundação Getúlio Vargas, autor de Ilegalidades nos Contratos Bancários (3ª edição) entre outros livros.

 

 

               

 

               

 

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