"Em se plantando, tudo dá." A célebre frase atribuída a Pero Vaz de Caminha, na verdade, nunca existiu dessa forma. Observador atento, o escriba português registrou em sua carta algo diferente:
“Águas são muitas; infinitas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem...”
O que impressionou a esquadra portuguesa há mais de 500 anos não foi a fertilidade do nosso solo, mas a imensidão dos nossos rios. E Pero estava certo em admirar esse recurso: o Brasil detém cerca de 12% de toda a água doce superficial do planeta.
O problema é a distribuição.
Segundo a Agência Nacional de Águas (ANA), a região Norte concentra 68% da água disponível no país, mas abriga apenas 9% da população. No outro extremo, o Sudeste reúne 42% dos brasileiros, mas dispõe de apenas 6% dos recursos hídricos. Onde há mais gente e produção concentrada, há menos água à disposição.
Essa mesma lógica se aplica ao solo. Abundância territorial não significa disponibilidade de terra para o processo produtivo.
É por isso que a degradação dos solos é um desafio silencioso, mas devastador, dentro de tantas propriedades rurais. Garantir a neutralidade da degradação da terra — evitando o desgaste, reduzindo danos e recuperando áreas degradadas — não é apenas uma pauta ambiental; é uma questão de segurança produtiva e econômica para o agronegócio brasileiro.
Daí a importância de o Brasil ter lançado hoje, na COP na Mongólia, sua Meta Voluntária de Neutralidade da Degradação da Terra para 2030, reunindo 17 submetas que buscam evitar, reduzir e reverter a degradação das terras.
Despertar os olhares do mundo para essa questão é necessário e urgente.
Talvez seja o momento de corrigirmos a interpretação da frase de Caminha. A natureza nos deu abundância, mas a disponibilidade real e o uso eficiente desses recursos dependem exclusivamente da nossa gestão.
Afinal, em se cuidando, muita coisa dá.
Um forte abraço.
Para mais informações, acesse o link do Ministério do Meio Ambiente sobre a Meta Voluntária de Neutralidade da Degradação da Terra para 2030.
https://www.gov.br/mma/pt-br/noticias-defeso-eleitoral/brasil-apresenta-meta-para-neutralidade-da-degradacao-da-terra-durante-cop-17-na-mongolia