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O Brasil está vendendo mais carne: o mundo está mudando


Vinícius André de Oliveira

 

O desempenho das exportações brasileiras de proteína animal no primeiro quadrimestre de 2026 revela algo maior do que uma simples expansão das vendas externas. O Brasil está consolidando uma posição estratégica no mercado mundial de alimentos, justamente em um momento em que segurança alimentar, geopolítica, sanidade animal e diversificação de fornecedores passaram a ter peso cada vez maior nas decisões dos grandes compradores internacionais.

Entre janeiro e abril, as três principais cadeias exportadoras de proteína animal apresentaram crescimento. As exportações de carne bovina avançaram 14,6% em volume e chegaram a 1,091 milhão de toneladas, enquanto a receita cresceu muito mais, 32,8%, alcançando US$ 6,047 bilhões. Na carne de frango, os embarques atingiram 1,943 milhão de toneladas, alta de 4,3%, com receita de aproximadamente US$ 3,7 bilhões. Já a carne suína apresentou crescimento de 14,2% no volume, chegando a 532,2 mil toneladas, e receita de US$ 1,244 bilhão, avanço de 14,1%.

O primeiro aspecto que chama atenção é que o Brasil não está crescendo apenas porque um determinado mercado aumentou suas compras. O fenômeno é mais amplo. Há uma combinação de aumento da demanda internacional, competitividade brasileira, disponibilidade de matéria-prima, escala industrial, abertura de novos mercados e, principalmente, capacidade de redirecionar rapidamente a produção para diferentes destinos.

Na carne bovina, a China permanece como o principal comprador e continua sendo o grande motor da demanda. O mercado chinês possui uma importância tão grande que qualquer alteração em suas compras produz efeitos relevantes sobre os preços e sobre a formação da pauta exportadora brasileira. Entretanto, os Estados Unidos e outros mercados também vêm ganhando importância. A questão estratégica, portanto, não é abandonar a China, mas reduzir a dependência relativa de um único comprador. Quanto mais diversificada for a carteira de destinos, maior será o poder de negociação dos exportadores brasileiros.

Na avicultura, essa diversificação aparece de maneira ainda mais evidente. A China continuou sendo o principal destino no primeiro quadrimestre, com aproximadamente 187 mil toneladas, mas suas compras recuaram 2,8%. Os Emirados Árabes Unidos também reduziram as importações em 11,4%. Apesar disso, o Brasil cresceu porque outros mercados compensaram essa retração. O Japão aumentou suas compras em 23,5%, a África do Sul em 20,5%, a União Europeia em impressionantes 31,2% e as Filipinas em 14%.

Esse comportamento é extremamente importante. Significa que o Brasil está desenvolvendo aquilo que, em economia, poderíamos chamar de capacidade de substituição de mercados. Se determinado comprador reduz suas compras, existe uma rede de outros países capazes de absorver parte da oferta. É uma espécie de diversificação de portfólio aplicada ao comércio exterior. Quanto mais destinos relevantes um país possui, menor é sua vulnerabilidade a decisões individuais de um determinado parceiro comercial.

Na carne suína, a transformação é ainda mais clara. As Filipinas assumiram posição de destaque entre os compradores brasileiros, enquanto o Japão apresentou crescimento extraordinário. Somente em abril, as compras japonesas cresceram 131,9%, chegando a 16,6 mil toneladas. As Filipinas importaram 35,9 mil toneladas, crescimento de 20,6%. Em sentido contrário, a China reduziu suas compras em 21,6% no mês. Mesmo assim, as exportações brasileiras de carne suína cresceram 8,3% em abril e acumularam alta de 14,2% no quadrimestre.

É justamente aí que aparece uma das principais explicações para o bom desempenho brasileiro: o mundo está procurando alternativas de fornecimento e o Brasil possui escala para ocupar esse espaço.

A demanda internacional por proteína animal continua estruturalmente elevada. A Ásia é o principal exemplo. Países como China, Japão, Filipinas, Coreia do Sul e outros mercados asiáticos possuem grande população, forte urbanização e, em diferentes graus, limitações próprias de produção. A importação torna-se, portanto, uma questão não apenas comercial, mas também de segurança alimentar.

O Brasil possui uma combinação difícil de reproduzir em outros países: disponibilidade territorial, produção de milho e soja em grande escala, rebanho bovino gigantesco, cadeia avícola e suinícola integrada, indústria frigorífica desenvolvida e capacidade logística para exportar grandes volumes. Essa estrutura permite produzir proteína em escala e atender simultaneamente mercados com características completamente diferentes.

No frango, por exemplo, o Oriente Médio continua sendo fundamental, mas Japão, União Europeia, África do Sul e Filipinas estão ampliando sua participação. No suíno, o crescimento asiático demonstra que o Brasil consegue avançar mesmo quando um dos seus maiores compradores reduz as importações. Essa capacidade de realocação comercial é uma vantagem competitiva que muitas vezes passa despercebida quando observamos apenas os números totais.

Outro fator importante é a sanidade animal. No comércio internacional de alimentos, confiança é um ativo econômico. Um país pode possuir terra, grãos e capacidade industrial, mas se não conseguir garantir padrões sanitários e rastreabilidade, terá dificuldade para acessar mercados sofisticados.

O Brasil já demonstrou capacidade de reagir a episódios sanitários e preservar sua posição internacional. Ao mesmo tempo, o ambiente está ficando mais exigente. Mercados como Japão e União Europeia impõem padrões elevados e, portanto, o crescimento das exportações dependerá cada vez mais da capacidade brasileira de demonstrar controle sanitário, rastreabilidade, qualidade e conformidade regulatória.

Há também uma dimensão geopolítica. O comércio internacional de alimentos está se tornando mais fragmentado. Guerras, sanções, barreiras comerciais, mudanças tarifárias, problemas climáticos e doenças animais alteram rapidamente os fluxos internacionais. Nesse cenário, países importadores procuram não depender excessivamente de um único fornecedor.

Isso favorece o Brasil.

A segurança alimentar mundial depende de grandes produtores capazes de entregar grandes volumes com regularidade. E poucos países possuem capacidade semelhante à brasileira. O Brasil não é apenas um exportador relevante de carne; tornou-se uma peça importante na arquitetura mundial de abastecimento de proteínas.

Mas essa posição também cria riscos.

A China continuará sendo indispensável para a pecuária brasileira, mas não pode ser tratada como destino exclusivo. O mesmo vale para os Estados Unidos, Japão, Oriente Médio e União Europeia. Barreiras sanitárias, tarifas, cotas ou mudanças regulatórias podem alterar rapidamente as condições de acesso.

Por isso, a estratégia brasileira deveria ser clara: continuar expandindo os grandes mercados existentes e, simultaneamente, abrir novos destinos.

A expansão de mercados para produtos agropecuários brasileiros vem sendo acelerada. Em abril, o Brasil alcançou novos acordos de acesso para produtos agropecuários em países como Filipinas, Coreia do Sul e Cuba, elevando o número de mercados abertos desde 2023 para cerca de 600, segundo informações divulgadas pelo Ministério da Agricultura. Esse movimento é economicamente relevante porque cada novo mercado reduz, ainda que marginalmente, a dependência dos compradores tradicionais.

Existe, porém, uma questão ainda mais importante: o Brasil precisa decidir se quer apenas exportar mais toneladas ou se quer capturar mais valor por tonelada.

Durante décadas, nossa vantagem competitiva esteve fortemente associada à capacidade de produzir commodities em grande escala. Isso continuará sendo importante. Mas o próximo salto do agronegócio brasileiro deverá ocorrer na industrialização da proteína: cortes de maior valor agregado, produtos processados, alimentos prontos, marcas, certificações, rastreabilidade e produtos direcionados a nichos específicos.

O crescimento das compras japonesas é um bom exemplo. O Japão não é simplesmente um mercado interessado em volume. É um mercado exigente, com alto padrão de qualidade e capacidade de remunerar produtos diferenciados. A conquista e consolidação de mercados desse tipo pode ser economicamente mais importante do que simplesmente aumentar toneladas embarcadas.

As perspectivas para 2026 continuam positivas. A ABPA trabalha com possibilidade de crescimento de até 10,3% nas exportações de carne de frango e de até 5,9% nas exportações de carne suína. A carne bovina também apresenta cenário favorável, embora esteja mais exposta às decisões dos grandes compradores, especialmente China e Estados Unidos.

O cenário, portanto, não é de crescimento automático. O Brasil continuará enfrentando protecionismo, barreiras sanitárias, disputas comerciais e oscilações de preços. Mas há uma diferença importante em relação ao passado: hoje o país possui uma carteira internacional muito mais diversificada e uma capacidade produtiva que lhe permite aproveitar rapidamente as oportunidades abertas por problemas de oferta em outros grandes produtores.

Os números do primeiro quadrimestre mostram, em última análise, que a competitividade brasileira não está baseada em um único fator. É resultado da combinação entre escala produtiva, disponibilidade de grãos, tecnologia, indústria, sanidade, logística e uma rede cada vez maior de mercados consumidores.

O mundo está comprando mais proteína brasileira porque precisa dela, mas também porque o Brasil se tornou capaz de entregar aquilo que poucos concorrentes conseguem oferecer simultaneamente: volume, regularidade e competitividade.

O grande desafio agora é transformar essa vantagem produtiva em uma vantagem econômica ainda maior. Não basta que o Brasil seja o país que mais vende carne para o mundo. É preciso que seja também aquele que captura maior valor, desenvolve marcas, industrializa sua produção, gera tecnologia e transforma a enorme vantagem comparativa do campo em renda e desenvolvimento dentro do país.

O primeiro quadrimestre de 2026 deixa uma mensagem bastante clara: o Brasil não está apenas vendendo mais proteína animal. Está ocupando um espaço cada vez maior na segurança alimentar do planeta. A questão para os próximos anos será quanto valor o país conseguirá extrair dessa posição estratégica.

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