CI

O retorno ameaçador da "velha" mosca do novo mundo nos EUA


Guilherme Augusto Vieira

Guilherme Augusto Vieira[1]

 

Recentemente, a imprensa passou a noticiar os surtos da "mosca-do-novo-mundo" na América do Norte, acendendo o alerta também entre os pecuaristas brasileiros.

Como colaboro com diversos veículos do agronegócio — em mídias digitais, impressas, rádio e TV —, minha caixa de e-mails e as mensagens no Instagram logo foram tomadas por perguntas: afinal, o que é a mosca-do-novo-mundo? Qual é o real perigo que ela representa para a nossa pecuária?

Diante do grande volume de dúvidas, resolvi escrever este artigo para esclarecer os fatos, orientar o produtor e, acima de tudo, trazer tranquilidade ao setor.

A popular "mosca-do-novo-mundo" nada mais é do que a nossa velha conhecida mosca-da-bicheira, causadora da miíase que todo pecuarista bem conhece. Seu nome científico, Cochliomyia hominivorax, traduz de forma literal o seu poder de destruição: em latim, significa "devoradora de homens".

O nome "mosca-do-novo-mundo" remonta à colonização das Américas. O primeiro relato oficial foi feito por um cirurgião naval francês na famosa Ilha do Diabo, na Guiana Francesa. Ele atendeu prisioneiros locais que apresentavam graves infestações de larvas no nariz. Embora a descoberta inicial tenha ocorrido em humanos, logo se observou que os animais de criação eram os hospedeiros mais atingidos pelo parasita.

A fêmea da mosca-da-bicheira deposita seus ovos em ferimentos, cortes, picadas, no umbigo de recém-nascidos ou em outras lesões na pele de animais de sangue quente, incluindo seres humanos. Após 12 a 24 horas, os ovos eclodem e as larvas penetram nos tecidos, alimentando-se de secreções e tecido vivo. À medida que se aprofundam na ferida, a região afetada passa a liberar um líquido amarronzado e com odor forte e característico.

Ao completarem cerca de 7 dias, as larvas bem desenvolvidas saem da ferida e caem no solo para a fase de pupa (período de transição para a forma adulta), que pode durar de 7 a 60 dias. Em seguida, os insetos adultos emergem, acasalam-se e dão continuidade ao ciclo reprodutivo que, nos períodos mais quentes do ano, pode ser concluído em apenas 21 dias.

É um inseto de difícil controle, pois, na fase de pupa, a larva cai na terra, escava o solo e completa seu ciclo em locais mais profundos.

Os Estados Unidos erradicaram a mosca-da-bicheira no final da década de 1950 utilizando a Técnica do Inseto Estéril (TIE). O método consistia em expor as pupas criadas em laboratório à radiação por raios gama. Com isso, os machos se tornavam estéreis, mas permaneciam aptos para o acasalamento. Ao serem liberados na natureza, eles copulavam com as fêmeas, que passavam a pôr ovos inviáveis. O programa foi um grande sucesso e garantiu a erradicação da praga no país por mais de 60 anos.

Como aconteceu o retorno da mosca-da-bicheira?

Contudo, nos últimos dois anos, as autoridades sanitárias dos Estados Unidos entraram em alerta com o aparecimento de focos de infestação em áreas pecuárias. A reintrodução da praga ocorreu devido ao trânsito irregular de animais oriundos da América Central, os quais ingressaram no território norte-americano infestados, atuando como vetores de dispersão do parasita.

Segundo relatos, o USDA[2] estima que um surto de mosca-da-bicheira poderia custar cerca de US$ 1,8 bilhão à economia do Texas — maior estado produtor de gado do país — em mortes de animais, custos de trabalho e gastos com medicamentos.

Atualmente, autoridades e representantes do setor agropecuário debatem as melhores estratégias de combate ao inseto: o retorno da Técnica do Inseto Estéril, o uso do controle químico ou a combinação de ambos. Embora haja defensores de cada abordagem, especialistas alertam que o uso de inseticidas pode atingir os machos estéreis liberados na natureza, comprometendo a eficácia do método. Paralelamente, o governo já reforçou e implementou um rigoroso controle sanitário nas fronteiras.

Com este artigo, espero ter cumprido o objetivo de informar e esclarecer as dúvidas dos leitores sobre a mosca-da-bicheira — também conhecida como mosca-do-novo-mundo , figura tão familiar para os produtores e pecuaristas brasileiros.

Durante minha graduação em Medicina Veterinária, meus professores costumavam alertar que as ciências agrárias não são exatas e que devemos estar sempre atentos às diversas variáveis. Haja vista o caso relatado: uma praga que o continente americano julgava erradicada no século passado está de volta aos holofotes, ameaçando a pecuária e a fauna silvestre no território norte-americano.

Referências bibliográficas estão a disposição com o autor.

 

[1] Médico Veterinário, Doutor em História das Ciências, autor dos Manuais Semiconfinamento e Confinamento, atualmente é gestor da Plataforma www.semiconfinamento.com.br Embaixador de conteúdo do Giro do Boi Canal Rural , Programa Rota do Agro Paraíso FM, escreve no Agrolink, Folha Agrícola e O Presente Rural.  Contatos com o autor: [email protected] ou Instagram@gvieiraoficial

 

[2] USDA: Departamento de Agricultura dos Estados Unidos.

Assine a nossa newsletter e receba nossas notícias e informações direto no seu email

Usamos cookies para armazenar informações sobre como você usa o site para tornar sua experiência personalizada. Leia os nossos Termos de Uso e a Privacidade.

2b98f7e1-9590-46d7-af32-2c8a921a53c7