Confirmando a tendência por nós desenhada ainda no segundo semestre do ano passado, os preços da soja, no mercado brasileiro, recuaram fortemente nestes primeiros três meses de 2010.
A pressão de uma colheita recorde nos EUA (definida em 91,5 milhões de toneladas), acompanhada de uma projeção de recorde na América do Sul (67 milhões no Brasil e até 55 milhões de toneladas na Argentina), somada a um dólar que voltou a recuar nessa primeira semana de março (R$ 1,79 por dólar) e a retirada parcial do capital financeiro da Bolsa de Chicago, em função da continuidade da crise econômica mundial, levaram o fechamento da quinta-feira (04/03) a se estabelecer em US$ 9,32/bushel para o primeiro mês cotado.
No final de 2009, a cotação estava em US$ 10,36/bushel e há um ano, nesta mesma época de março, o bushel atingia a US$ 8,75/bushel. Todavia, o câmbio, no início de março de 2009 era de R$ 2,39 por dólar.
Embora Chicago tenha cedido nestes últimos meses, ainda suas cotações se mantêm interessantes nesse momento. Mesmo porque a média histórica (38 anos) naquela Bolsa é de US$ 6,59/bushel. Na verdade, o que mais penaliza o preço nacional continua sendo o câmbio. Diante disso, o preço de balcão, na média gaúcha, que era de R$ 40,96/saco no final de dezembro passado, chega hoje a tão somente R$ 35,00.
Um ano atrás o saco de soja era negociado, nesta modalidade, na média de R$ 43,68/saco no Estado. E o pior ainda pode estar por vir! Pela realidade de Chicago, do câmbio e do prêmio no porto em Rio Grande, no momento da colheita gaúcha, o saco de soja pode muito bem recuar para valores entre R$ 30,00 e R$ 33,00.
A título de comparação, no Mato Grosso, onde a colheita já alcança 50% da área, muitas regiões estão negociando soja a R$ 24,70/saco. Menos mal que nesta safra os custos de produção foram menores e a produtividade média tende a ser melhor. Porém, a estes preços o resultado final, para um grande número de produtores, acabará sendo apertado, impedindo euforias.
Juro irá subir
Embora a pressão contrária, as recentes declarações do presidente do Banco Central brasileiro e os índices inflacionários destes dois primeiros meses de 2010 indicam que teremos sim, como previsto, um aumento na taxa de juro (Selic), com efeito sobre os demais juros de mercado. Inicialmente o mercado estaria esperando o primeiro movimento de alta para a reunião de abril do Copom.
Todavia, a situação da economia interna, associada aos novos problemas externos deste início de ano, pode levar o Copom a antecipar o movimento para a reunião dos dias 16 e 17 de março próximos. Será um duro enfrentamento entre a posição política do ministro da Fazenda, Guido Mantega, hoje comprometido mais com as eleições do que propriamente com a estabilidade econômica, e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, que assume posição mais técnica e responsável.
Para o bem do Brasil, apesar de impopular, esta última postura deveria se impor, como tem sido o caso nos últimos anos. Por enquanto, a tendência da Selic continua sendo de terminar o ano entre 10,75% e 11,75%, contra os atuais 8,75%.
Perigo: novas bolhas especulativas
Os sinais da economia nesse início de 2010 se tornaram novamente vermelhos, puxados por novos arroubos especulativos no mundo. Novas bolhas especulativas se formam em todas as partes. Na China, por exemplo, grande parte dos criadores de suínos está comprando contratos futuros de cobre, pois consideram mais rentável utilizar os empréstimos generosos dados pelos bancos para comprar contratos futuros de metais na Bolsa de Xangai, ao invés de modernizarem suas pocilgas.
Ora, enquanto o preço do suíno praticamente estacionou, o preço da tonelada de cobre alcançou US$ 7.500,00 no início de janeiro de 2010, contra US$ 2.800,00 em dezembro de 2008. Movimentos como esse caracterizam um forte aumento do valor de um ativo sem relação com o jogo normal de oferta e demanda. Eles são causados por investidores que antecipam uma alta e compram massiçamente contratos dos produtos em Bolsa com a esperança de revendê-los mais caros. Sob esse empuxe, o enriquecimento se realiza e atrai novos especuladores, e assim por diante.
Nesse início de 2010, diversos setores da economia mundial voltaram a receber fortes injeções de recursos, particularmente as matérias-primas.
Perigo: novas bolhas especulativas (II)
Os bancos centrais injetaram massiçamente liquidez no mercado, buscando impedir o travamento da economia. Uma parte é investida em títulos e a outra em dois tipos de ativos: matérias-primas não alimentícias e em ações de países emergentes (em 2009, o índice bursátil mundial – MSCI – aumentou 71% e o Ibovespa, no Brasil, ganhou 82,66%, enquanto a economia mundial se mantinha em plena crise).
O preço do petróleo está hoje 35% acima do que deveria estar em função da especulação. O dos metais não preciosos 70% acima. A soja se mantém a US$ 9,50/bushel em Chicago quando a média histórica (38 anos) é de US$ 6,59/bushel, e assim por diante.
No papel os preços aumentam, sem nenhuma razão existente junto a economia real. Movimentos de “carry trade” contribuem a tais aumentos: os especuladores tomam emprestados recursos em uma moeda, cujo rendimento é fraco, como o dólar, para adquirir divisas e ações dos países emergentes que remuneram mais.
Em algum momento esse movimento deve parar, estourando a bolha e arrastando todos para a crise. Hoje, até mesmo os reticentes FMI e BIS (o Banco Central dos bancos centrais) começam a alertar para o perigo das novas bolhas na economia mundial. E o pior é que o arsenal de medidas até aqui adotadas para acalmar os mercados não surtirá o efeito esperado, segundo grande parte dos analistas mundiais. Isso porque, por exemplo, mais o petróleo é caro (puxado pela especulação), maior é a receita que chega aos países produtores.
Mais esses países ganham dólares, mais eles se veem obrigados a investir seu dinheiro em ativos e mais os preços destes sobem, seja ouro ou ações.
O movimento se auto-alimenta, constituindo-se num círculo vicioso.