Finalmente a União Europeia, em sua reunião do dia 26/10, demonstrou algum poder de reação organizado diante da crise econômica que assola o bloco, na esteira da crise mundial. Os mercados, pelo menos momentaneamente, respiraram aliviados e as bolsas voltaram a subir, enquanto o dólar voltou a se enfraquecer perante as principais moedas mundiais, inclusive o Real.
Na verdade o pacote, visando primeiramente salvar a economia da Grécia, traz uma série de informações que pouco são divulgadas e, talvez, compreendidas. Além disso, ainda é cedo para dizer se, na prática, o mesmo irá realmente encaminhar soluções para a crise local. Em primeiro lugar, o salvamento da Grécia tem como objetivo salvar a Itália. Ou seja, o estouro das contas gregas, seguido de problemas na Espanha, Portugal e outros países menores, atingiu igualmente a Itália.
Ora, o bloco europeu não pode deixar que a Itália afunde. Caso isso venha a ocorrer, afunda também a União Europeia e, particularmente a zona euro. Tanto é verdade que, logo após o anúncio do pacote, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, deu declarações dizendo que foi um erro deixar a Grécia, um país despreparado, ingressar na zona euro. Afora o mal-estar político causado por tal declaração, é fato que os Estados periféricos da zona euro se deixaram levar por gastos públicos acima de suas possibilidades de controle, rompendo com as regras pré-estabelecidas ainda no Tratado de Maastrich, que criou o euro, em 1992. Esse desperdício, diante da crise global, veio à tona e afetou os demais países do bloco.
União Européia reage (II)
Em segundo lugar, o pacote grego é um “presente de grego” para o restante da União Europeia. O perdão de 50% da dívida pública da Grécia (calote), aceito pelos bancos privados, monta a 100 bilhões de euros (cerca de R$ 245 bilhões). Todavia, os bancos não deixaram de graça tal realidade. Será o conjunto da União, através de um fundo, que irá ressarcir os bancos por este “perdão”, fato que transfere os custos do problema para todos os demais países. Isso deverá fazer falta para futuros investimentos, visando uma retomada econômica, comprometendo 2012.
Em terceiro lugar, os europeus decidiram aumentar, pressionados pela decisão anterior e assustados com a possibilidade de realizarem pacotes semelhantes para outros países membros na mesma situação da Grécia, o Fundo Europeu de Estabilização Financeira, dos atuais 400 bilhões de euros para um trilhão de euros. Ora, será uma poupança forçada que, no imediato, igualmente fará falta para a alavancagem de investimentos visando sair da crise. Enfim, e aí se tem algo urgente pela sua necessidade, aumentou-se a exigência de capitalização dos bancos europeus, regulando suas alavancagens. Ou seja, os bancos da Europa terão que ter em caixa ao menos nove euros para cada cem emprestados, a partir de junho de 2012.
Pelo tamanho da crise, ainda é pouco, porém, é um passo importante (o Lehman Brothers, quando quebrou em 15 de setembro de 2008, tinha apenas um dólar em caixa para cada 50 emprestados). Tudo isso, evidentemente, não isenta a Grécia, e os demais países do bloco (assim como do mundo), a ajustarem suas contas públicas, enxugando a máquina estatal e racionalizando seus gastos dentro das condições reais que o país oferece. Caso contrário, em menos de um ano, o problema grego estará de retorno. Em termos de mundo, é um passo importante, porém, a crise global ainda está longe de uma solução duradoura.
E o Brasil nisso tudo?
Nesse contexto internacional, o Brasil, graças aos fortes ajustes realizados a partir de 1994, com a estabilização da economia e, de maneira geral, mantidos até o presente, consegue enfrentar relativamente bem a crise mundial. A ponto de, juntamente com a China, estar sendo pressionado a comprar títulos da dívida pública grega e de outros países em dificuldades para ajudar os mesmos a saírem da crise. Ou seja, os países emergentes, por terem conseguido ou necessitado aumentar suas reservas, mesmo que tenha sido para evitar uma sobrevalorização maior de suas moedas, caso do Brasil, agora surgem como espécie de âncora para o mundo desenvolvido.
Se a ideia parece auspiciosa, por demonstrar que chegamos em outro patamar na economia mundial, a mesma igualmente oferece riscos. O principal deles é comprarmos títulos “podres”, de países em crise, correndo o risco, mesmo que um tanto remoto, de sofrermos calote (algo que fizemos algumas vezes em nossa história com os países ricos).
Assim, tal ação requer uma importante reflexão por parte de nosso governo. Principalmente porque ainda estamos muito fragilizados em nossa economia interna já que não realizamos as reformas estruturais, a começar pelo ajuste estatal. Isso não nos permite, portanto, grandes aventuras externas. Para se ter uma ideia do descontrole interno, no funcionamento do Estado nacional, o qual tira competitividade do sistema produtivo como um todo, nossa tributação continua crescendo em relação ao PIB (hoje entre 36% e 38% do mesmo), sem retorno de serviços estatais condizentes, enquanto se fala na criação de novos tributos.
A coisa é tão séria que, desde outubro de 1988 (data da atual Constituição) foram editadas 275.094 normas tributárias, ou seja, 1,3 por hora (cf. ZH, 22/10/11, p. 26). Não há país que resista tal descalabro e incompetência gerencial.
Na verdade o pacote, visando primeiramente salvar a economia da Grécia, traz uma série de informações que pouco são divulgadas e, talvez, compreendidas. Além disso, ainda é cedo para dizer se, na prática, o mesmo irá realmente encaminhar soluções para a crise local. Em primeiro lugar, o salvamento da Grécia tem como objetivo salvar a Itália. Ou seja, o estouro das contas gregas, seguido de problemas na Espanha, Portugal e outros países menores, atingiu igualmente a Itália.
Ora, o bloco europeu não pode deixar que a Itália afunde. Caso isso venha a ocorrer, afunda também a União Europeia e, particularmente a zona euro. Tanto é verdade que, logo após o anúncio do pacote, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, deu declarações dizendo que foi um erro deixar a Grécia, um país despreparado, ingressar na zona euro. Afora o mal-estar político causado por tal declaração, é fato que os Estados periféricos da zona euro se deixaram levar por gastos públicos acima de suas possibilidades de controle, rompendo com as regras pré-estabelecidas ainda no Tratado de Maastrich, que criou o euro, em 1992. Esse desperdício, diante da crise global, veio à tona e afetou os demais países do bloco.
União Européia reage (II)
Em segundo lugar, o pacote grego é um “presente de grego” para o restante da União Europeia. O perdão de 50% da dívida pública da Grécia (calote), aceito pelos bancos privados, monta a 100 bilhões de euros (cerca de R$ 245 bilhões). Todavia, os bancos não deixaram de graça tal realidade. Será o conjunto da União, através de um fundo, que irá ressarcir os bancos por este “perdão”, fato que transfere os custos do problema para todos os demais países. Isso deverá fazer falta para futuros investimentos, visando uma retomada econômica, comprometendo 2012.
Em terceiro lugar, os europeus decidiram aumentar, pressionados pela decisão anterior e assustados com a possibilidade de realizarem pacotes semelhantes para outros países membros na mesma situação da Grécia, o Fundo Europeu de Estabilização Financeira, dos atuais 400 bilhões de euros para um trilhão de euros. Ora, será uma poupança forçada que, no imediato, igualmente fará falta para a alavancagem de investimentos visando sair da crise. Enfim, e aí se tem algo urgente pela sua necessidade, aumentou-se a exigência de capitalização dos bancos europeus, regulando suas alavancagens. Ou seja, os bancos da Europa terão que ter em caixa ao menos nove euros para cada cem emprestados, a partir de junho de 2012.
Pelo tamanho da crise, ainda é pouco, porém, é um passo importante (o Lehman Brothers, quando quebrou em 15 de setembro de 2008, tinha apenas um dólar em caixa para cada 50 emprestados). Tudo isso, evidentemente, não isenta a Grécia, e os demais países do bloco (assim como do mundo), a ajustarem suas contas públicas, enxugando a máquina estatal e racionalizando seus gastos dentro das condições reais que o país oferece. Caso contrário, em menos de um ano, o problema grego estará de retorno. Em termos de mundo, é um passo importante, porém, a crise global ainda está longe de uma solução duradoura.
E o Brasil nisso tudo?
Nesse contexto internacional, o Brasil, graças aos fortes ajustes realizados a partir de 1994, com a estabilização da economia e, de maneira geral, mantidos até o presente, consegue enfrentar relativamente bem a crise mundial. A ponto de, juntamente com a China, estar sendo pressionado a comprar títulos da dívida pública grega e de outros países em dificuldades para ajudar os mesmos a saírem da crise. Ou seja, os países emergentes, por terem conseguido ou necessitado aumentar suas reservas, mesmo que tenha sido para evitar uma sobrevalorização maior de suas moedas, caso do Brasil, agora surgem como espécie de âncora para o mundo desenvolvido.
Se a ideia parece auspiciosa, por demonstrar que chegamos em outro patamar na economia mundial, a mesma igualmente oferece riscos. O principal deles é comprarmos títulos “podres”, de países em crise, correndo o risco, mesmo que um tanto remoto, de sofrermos calote (algo que fizemos algumas vezes em nossa história com os países ricos).
Assim, tal ação requer uma importante reflexão por parte de nosso governo. Principalmente porque ainda estamos muito fragilizados em nossa economia interna já que não realizamos as reformas estruturais, a começar pelo ajuste estatal. Isso não nos permite, portanto, grandes aventuras externas. Para se ter uma ideia do descontrole interno, no funcionamento do Estado nacional, o qual tira competitividade do sistema produtivo como um todo, nossa tributação continua crescendo em relação ao PIB (hoje entre 36% e 38% do mesmo), sem retorno de serviços estatais condizentes, enquanto se fala na criação de novos tributos.
A coisa é tão séria que, desde outubro de 1988 (data da atual Constituição) foram editadas 275.094 normas tributárias, ou seja, 1,3 por hora (cf. ZH, 22/10/11, p. 26). Não há país que resista tal descalabro e incompetência gerencial.