Entenda as bases conceituais e seus impactos na produção de carne e leite
Guilherme Augusto Vieira[1]
A pecuária de corte e leite no Brasil avançou significativamente nos últimos anos, impulsionada pela evolução dos processos produtivos e pelo consequente aumento da produção e da produtividade
Segundo dados do IBGE (2026)[2], o país atingiu um novo recorde em 2025 com o abate de 42,94 milhões de cabeças de bovinos, o que representa uma alta de 8,2% em relação a 2024. No setor leiteiro, a captação de leite cru alcançou 27,51 bilhões de litros no mesmo período um avanço de 8,5%, impulsionada por um rebanho que supera 15 milhões de vacas em lactação. Esses números evidenciam a força do avanço produtivo do setor pecuário, mesmo diante do cenário econômico adverso.
Apesar dos avanços na pecuária leiteira, a destinação dos bezerros machos continua sendo um grande gargalo produtivo. O foco do rebanho está na recria das fêmeas como futuras matrizes, enquanto a manutenção dos machos gera custos elevados com sanidade, nutrição e conforto térmico. Diante deste quadro, os bezerros machos são eliminados, na maioria das fazendas, logo após o nascimento.
Uma das principais alternativas para mitigar esse problema é a produção beef on dairy, tecnologia que agrega valor aos bezerros machos e evita sua eliminação precoce na atividade leiteira.
O termo Beef on Dairy refere-se ao sistema de produção em que vacas leiteiras são inseminadas com sêmen de raças de corte. Resumindo: trata-se do cruzamento de vacas leiteiras com touros de corte, na sua grande maioria de origem taurina (angus, canchim, hereford,etc,,). Muitos autores, eu me incluo neste quesito, consideram o beef on dairy como cruzamento industrial.
O uso de sêmen de raças de corte em vacas de aptidão leiteira viabiliza a produção de bezerros cruzados com superior ganho de peso, melhor conformação de carcaça e excelente qualidade de carne em relação aos machos de raças puramente leiteiras.
Contudo, a implementação do Beef on Dairy exige planejamento criterioso, descartando acasalamentos aleatórios. Para garantir a máxima valorização dos bezerros cruzados e a eficiência do rebanho, devem-se observar os seguintes critérios técnicos e produtivos:
- Matrizes: As vacas de leiteiras de grande produção leiteira são inseminadas com sêmen sexado de gado leiteiro para manter o ciclo produtivo. Enquanto as Fêmeas de baixa produção e potencial leiteiro são as selecionadas para o cruzamento industrial recebendo o sêmen não sexado de touros de corte;
- Touros: o sêmen do touro selecionado deve contemplar os seguintes parâmetros: touros provados para facilidade de parto, peso ao nascimento, do nascimento a desmama e ao sobreano, conformação da carcaça e velocidade de ganho de peso.
No Brasil a tecnologia ainda está engatinhando. Nos Estados Unidos ganhou impulso há mais de 10 anos. Segundo Guimarães (2026)[3], quatro milhões de bovinos abatidos são oriundos da produção beef on dairy. A maior produção ocorre nos Estados onde tem produção leiteira significativa como Texas, Kansas, Califórnia, Arizona, entre outros.
Diante desse cenário, a produção de Beef on Dairy apresenta expressivo potencial de expansão no Brasil, impulsionada por grandes bacias leiteiras localizadas em estados como Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul e Goiás.
A produção Beef on Dairy beneficia tanto a cadeia produtiva do leite quanto a cadeia da pecuária de corte, a se destacar:
Para o produtor leiteiro:
- Valorização do bezerro macho/mestiço (que antes era considerado um "descarte" de baixo valor comercial);
- Diversificação da fonte de renda da propriedade.
Para a pecuária de corte:
- Oferta regular de animais padronizados, com boa conversão alimentar, alta maciez de carne e acabamento de carcaça superior.
- Preenchimento de lacunas de oferta de bezerros de qualidade no mercado de corte
Assim como o cruzamento industrial revolucionou a pecuária de corte ao unificar rusticidade e carcaça de qualidade, o beef on dairy surge como uma solução ágil e rentável. A prática alivia os custos do produtor de leite e entrega ao mercado carne padronizada e de alto valor.
Na segunda parte do artigo serão tratados os manejos da produção beef on dairy assim como os resultados e as métricas de sucesso, não percam.
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[1] Médico Veterinário, Doutor em História das Ciências, autor dos Manuais Semiconfinamento e Confinamento, atualmente é gestor da Plataforma www.semiconfinamento.com.br Conteudista do Giro do Boi Canal Rural , Programa Rota do Agro ParaísoFM, escreve no Agrolink, Folha Agrícola e O Presente Rural. Contatos com o autor: [email protected] ou Instagram@gvieiraoficial
[3] Guimarães,O.Prosa Quente – Revista DBO, Maio 2026.