Por Marco Ripoli
PhD. em Máquinas Agrícolas, diretor da Bioenergy Consultoria e consultor-associado da PH Advisory Group.
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Está em andamento a segunda edição do Programa Young Farmers, idealizado por Paulo Herrmann, CEO da PH Advisory Group.
O programa foi criado para proporcionar a jovens brasileiros uma experiência de imersão em diferentes realidades produtivas, tecnologias e modelos de gestão do agronegócio com foco na formação de novas lideranças para o agro.
Se a primeira edição reuniu 18 jovens, esta segunda edição selecionou 8 talentos para uma jornada de desenvolvimento e internacionalização no agronegócio.
Na última semana do mês de agosto, foi realizada uma agenda de acompanhamento do Programa Young Farmers no Canadá, cujo roteiro contemplou as províncias de Colúmbia Britânica e Saskatchewan.
O objetivo foi acompanhar de perto o desenvolvimento desta segunda edição, visitar os jovens participantes em seus locais de atuação e compreender como a experiência vem sendo conduzida ao longo do programa.
A comitiva foi integrada por Paulo Herrmann, CEO da PH Advisory Group, Mateus Rocha, diretor técnico da Emater-RS/Ascar, e Clenir Dalcin, presidente da Cotrirosa.
O grupo esteve acompanhado dos parceiros que atuam no Canadá, Rosa Maria Troes, CEO da Canadá Intercâmbio, e Miguel Oliveira, GM da Cornerstone College, ambos brasileiros e parceiros estratégicos na execução local do programa.
Um dos momentos de destaque da programação foi a agenda institucional com o cônsul Nestor José Forster Junior, que reforçou o apoio do Consulado Geral do Canadá no Brasil à iniciativa e a importância do programa para o fortalecimento da relação bilateral no agronegócio.
É importante ressaltar o apoio da Cotrirosa e de seu presidente Clenir Dalcin que, pelo segundo ano consecutivo, entendeu o propósito do programa e viabilizou a participação de quatro jovens nesta vivência internacional.
A segunda edição conta ainda com o patrocínio de Alvorada John Deere, Frigorífico Coqueiro, Marcher Brasil, Puro Grão, RAS, São José, Sicredi Interestados e Syngenta
Mais do que isso, a viagem permitiu observar questões que dizem muito sobre os desafios atuais do agronegócio.
Tecnologia disponível, dados ainda pouco explorados Saskatchewan ocupa posição de destaque na agricultura canadense, especialmente na produção de canola e trigo.
Pela dimensão e importância de sua atividade agrícola, apresenta características que permitem algumas aproximações com grandes regiões produtoras brasileiras.
Nas propriedades visitadas, o nível tecnológico chamou atenção. Uma delas reúne aproximadamente 6,9 mil hectares destinados à produção de grãos e cerca de mil cabeças de gado das raças Simental e Charolês. Máquinas modernas e tratores autônomos já fazem parte da operação.
Mas um aspecto revelou um desafio especialmente relevante: apesar da grande quantidade de informações geradas pelos equipamentos, parte desses dados ainda não é utilizada para aprimorar a gestão e a operação da propriedade.
Esse cenário reforça que a próxima etapa da transformação tecnológica do campo pode estar menos relacionada à aquisição de novas máquinas e mais à capacidade de utilizar melhor os dados já disponíveis.
Equipamentos conectados geram informações sobre produtividade, operação e desempenho. Quando organizados e interpretados adequadamente, esses dados podem qualificar decisões relacionadas a custos, eficiência e planejamento. Surge, assim, um espaço crescente para profissionais e empresas capazes de conectar agricultura, tecnologia e análise de dados.
A sucessão aparece dos dois lados
Outro tema recorrente durante as visitas foi a sucessão familiar. Em diversas propriedades, os atuais produtores já estão na faixa dos 60 anos ou mais, enquanto seus filhos seguiram outros caminhos e se estabeleceram em grandes centros urbanos, sem uma perspectiva clara de retornar para assumir os negócios.
Alguns produtores relataram a intenção de continuar trabalhando por mais uma década. Depois disso, diante da ausência de sucessores, consideram arrendar ou vender suas terras.
A realidade evidencia um processo de envelhecimento no campo e apresenta um desafio conhecido também pelo agronegócio brasileiro.
A sucessão envolve patrimônio, governança e continuidade, mas começa muito antes da transferência formal de uma propriedade. É preciso criar condições para que a nova geração enxergue perspectiva, responsabilidade e espaço dentro do negócio.
Conhecer essa realidade no Canadá reforça que alguns dos principais desafios do agro ultrapassam fronteiras.
Brasil e Canadá têm mais em comum do que parece
Brasil e Canadá possuem diferenças importantes em clima, sistemas produtivos e estrutura econômica, mas compartilham características relevantes: grande extensão territorial, forte presença da agricultura e capacidade de incorporar tecnologia à produção.
O Young Farmers nasceu justamente com o propósito de aproximar jovens agricultores brasileiros das práticas e tecnologias do setor agrícola canadense, promovendo intercâmbio de conhecimento entre os dois países.
Essa relação, porém, pode ir além da observação de modelos. O Canadá apresenta experiências capazes de gerar importantes aprendizados para o Brasil, enquanto o agronegócio brasileiro acumulou conhecimento em agricultura tropical, produção em escala e adaptação a ambientes altamente diversos.
Quando essas experiências se encontram, surgem oportunidades de cooperação, desenvolvimento profissional e novas formas de interpretar desafios comuns.
Uma experiência que continua evoluindo
Os jovens da segunda edição seguem sua experiência no Canadá, com retorno previsto para meados de novembro. Para o Young Farmers, a continuidade do programa também representa aprendizado institucional. Cada edição permite incorporar novos conhecimentos e aprimorar a experiência dos próximos grupos.
Formar uma nova geração para o agronegócio exige contato com tecnologias, mas também repertório para interpretar mudanças. Exige conhecer outras formas de produzir e gerir negócios, além de compreender como diferentes países enfrentam desafios que também fazem parte da realidade brasileira.
As visitas às propriedades rurais permitiram observar que, mesmo em ambientes altamente tecnificados, ainda existem oportunidades para ampliar o uso estratégico dos dados. A sucessão no campo também se mostrou um desafio presente, mesmo em uma das agriculturas mais desenvolvidas do mundo. Essas percepções reforçam o propósito do Young Farmers de aproximar experiências, ampliar perspectivas e fortalecer o diálogo entre Brasil e Canadá.
O agro não para.