Queima das bainhas: veja como escolher o fungicida
Como acertar o manejo da queima das bainhas
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A queima das bainhas no arroz é uma das principais doenças do arroz irrigado no Sul do Brasil e exige atenção desde o monitoramento da lavoura até a escolha do fungicida. Causada por Rhizoctonia solani, a doença encontra condições favoráveis em ambientes com alta umidade, temperaturas elevadas e lâmina contínua de água, tornando o manejo preventivo importante entre o emborrachamento e o enchimento dos grãos.
Nos sistemas de arroz irrigado, especialmente no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, o desenvolvimento da cultura ocorre principalmente entre a primavera e o outono. Nesse período, a combinação de temperaturas mais elevadas, umidade relativa alta, lâmina contínua de água e maior adensamento das plantas cria condições favoráveis ao desenvolvimento da doença.
O fungo Rhizoctonia solani, cuja fase sexuada é denominada Thanatephorus cucumeris, sobrevive em restos culturais e no solo na forma de escleródios. Essas estruturas podem permanecer viáveis por vários anos, fazendo com que áreas com histórico da doença apresentem maior pressão de inóculo nas safras seguintes.
Os sintomas aparecem principalmente a partir do emborrachamento e podem avançar durante o enchimento dos grãos. A doença ataca principalmente as bainhas foliares e os colmos e, em infecções mais severas, pode atingir as panículas.
As primeiras lesões costumam ser aquosas e aparecer nas bainhas próximas ao nível da água ou na região mediana das plantas. Com a evolução, tornam-se elípticas ou irregulares, com coloração parda a palha e bordas mais escuras.
As lesões podem se unir e comprometer grande parte da bainha. Em situações severas, ocorre degradação dos tecidos, aumentando o risco de acamamento e de colonização da base das panículas, o que pode resultar em grãos chochos ou mal formados.
A identificação correta é importante porque a queima das bainhas pode ser confundida com outras doenças foliares. A posição das lesões, principalmente nas bainhas e nos colmos das partes inferior e mediana das plantas, deve ser observada junto com o histórico da área.
Quando houver dúvida, a confirmação por laboratório ou por profissional treinado em diagnóstico fitossanitário ajuda a definir o problema antes da escolha do tratamento.
A doença pode reduzir a área fotossinteticamente ativa e restringir o fluxo de água e assimilados para as panículas. Quando não é manejada adequadamente, pode comprometer o enchimento dos grãos e reduzir a produtividade.
Também podem aumentar os grãos mal formados, chochos e quebrados, com reflexos sobre a qualidade industrial e o rendimento de engenho. O acamamento ainda dificulta a colheita e pode elevar as perdas mecânicas.
Outro impacto está relacionado ao custo de produção. Quando o controle não é eficiente, pode haver necessidade de aplicações adicionais de fungicidas, aumentando os gastos da lavoura.
A decisão sobre o momento de aplicar fungicida deve considerar o histórico da área, a suscetibilidade da cultivar, as condições ambientais, o estádio de desenvolvimento do arroz e o nível de infestação observado.
Áreas com ocorrência frequente da doença exigem monitoramento mais intenso e podem demandar aplicações preventivas ou realizadas no início dos sintomas. A rotação de culturas e o manejo dos restos culturais também influenciam a quantidade de inóculo presente no início da safra.
A cultivar é outro fator importante. Os materiais de arroz irrigado apresentam diferentes níveis de suscetibilidade à queima das bainhas. Em cultivares mais suscetíveis, o monitoramento deve ser mais rigoroso e pode ser necessária uma aplicação próxima ao emborrachamento, mesmo quando os sintomas ainda são discretos.
As condições ambientais também precisam ser acompanhadas. Alta umidade relativa, temperaturas amenas a elevadas, lâmina contínua de água e períodos prolongados de molhamento foliar favorecem o desenvolvimento e a progressão da doença.
O estádio fenológico merece atenção especial. A queima das bainhas tende a se intensificar do emborrachamento ao início do enchimento dos grãos, enquanto o período entre o emborrachamento e o florescimento é considerado crítico para as intervenções.
Nesse intervalo, o controle químico busca proteger o potencial produtivo antes que a doença avance para níveis mais elevados. A inspeção deve ser feita em diferentes pontos da lavoura, observando a presença de lesões nas bainhas e verificando se elas estão avançando das partes inferiores para as superiores das plantas.
Na escolha do fungicida, três pontos devem orientar a decisão: o registro do produto para a cultura e para o alvo biológico, o grupo químico e o modo de ação e o posicionamento técnico de acordo com o estádio da cultura e as condições encontradas no campo.
O primeiro cuidado é verificar se o produto está registrado para o arroz e especificamente para o controle da queima das bainhas ou de Rhizoctonia solani. Também é necessário conferir na bula os estádios recomendados para aplicação.
Os fungicidas apresentam diferentes formas de atuação. Há produtos de contato, cuja proteção ocorre principalmente na superfície dos tecidos, e produtos sistêmicos ou translaminares, que se movimentam dentro da planta e podem proteger tecidos em crescimento.
Também existem misturas prontas de ingredientes ativos com modos de ação complementares. Fungicidas com maior ação sistêmica costumam ser posicionados em estádios como o emborrachamento e o início da emissão da panícula, buscando proteger tecidos novos e reduzir a progressão da doença.
O perfil de ação também deve ser considerado. Produtos predominantemente preventivos precisam ser aplicados antes que a doença avance, preferencialmente no início dos sintomas ou conforme a recomendação técnica.
Produtos com boa ação curativa podem reduzir a evolução de infecções já instaladas, mas também apresentam melhor desempenho quando a doença ainda não atingiu níveis elevados.
O manejo da resistência é outro ponto que não pode ser deixado de lado. O uso repetido de fungicidas com o mesmo modo de ação aumenta o risco de seleção de populações de R. solani menos sensíveis.
Por isso, a alternância de modos de ação ao longo das safras é uma estratégia importante. Também é recomendável evitar mais de duas aplicações consecutivas de fungicidas pertencentes ao mesmo grupo.
As misturas em tanque podem ser utilizadas quando existe necessidade de controlar simultaneamente diferentes doenças, como a queima das bainhas e a brusone. Nesse caso, a combinação deve ser planejada tecnicamente e respeitar o que estiver autorizado em bula.
Quando houver risco elevado de outras doenças foliares ou de panícula, pode ser considerada a combinação de fungicidas com espectros de controle complementares. Um produto pode apresentar melhor desempenho sobre doenças foliares, enquanto outro pode ter maior eficiência sobre bainhas e colmos.
A mistura também pode contribuir para o manejo da resistência quando reúne ingredientes ativos de modos de ação diferentes e que apresentam eficiência sobre o alvo. O objetivo é evitar que um dos componentes esteja presente apenas como complemento sem contribuir efetivamente para o controle de R. solani.
Antes de preparar a calda, é necessário verificar a compatibilidade física e química dos produtos. As bulas devem ser consultadas para identificar eventuais restrições ou recomendações específicas para a mistura.
Ensaios de jarra podem ser utilizados pelo técnico para avaliar o comportamento da combinação em pequena escala. A prática ajuda a identificar problemas como precipitação ou separação de fases antes que a mistura seja colocada no tanque completo.
A ordem de adição dos produtos também merece atenção. De forma geral, a sequência recomendada é água, corretivos de pH ou condicionadores quando indicados, produtos em pó ou granulados dispersíveis, produtos líquidos concentrados e, por fim, adjuvantes.
Seguir a ordem correta reduz o risco de formação de grumos, entupimento de bicos e perda de eficiência durante a aplicação.
Os adjuvantes podem melhorar características como espalhamento, aderência e penetração dos fungicidas nas folhas e bainhas. Seu uso, porém, deve seguir as orientações de bula e considerar o tipo de fungicida e as condições ambientais no momento da aplicação.
Mesmo com a escolha adequada do produto e da mistura, a aplicação pode comprometer o resultado quando não é realizada corretamente. A regulagem do pulverizador deve garantir volume de calda compatível com o estádio da cultura e com a densidade das plantas.
A escolha das pontas também deve proporcionar cobertura adequada do dossel e das bainhas, com espectro de gotas que reduza a deriva e favoreça a deposição do produto.
As aplicações devem ser realizadas em horários de menor temperatura e maior umidade relativa, reduzindo a evaporação e favorecendo a absorção.
O manejo da água também integra o controle. A lâmina deve permanecer dentro dos níveis recomendados para cada fase da cultura. Uma lâmina excessiva pode favorecer a doença, enquanto variações bruscas podem provocar estresse nas plantas.
O controle químico, porém, não deve ser analisado de forma isolada. A redução da pressão da doença e do número de aplicações depende da integração com outras práticas de manejo.
Sempre que possível, o uso de cultivares menos suscetíveis pode contribuir para reduzir os riscos. O manejo equilibrado do nitrogênio também é importante, principalmente porque doses excessivas, especialmente em cobertura tardia, aumentam a densidade do dossel e favorecem um microclima mais úmido.
A rotação de culturas e o manejo dos restos culturais podem ajudar a reduzir a população de inóculo no solo. Quando viável, a alternância do arroz com outras espécies contribui para esse objetivo, assim como o manejo adequado da palhada.
A densidade de semeadura e o espaçamento também precisam ser ajustados conforme as recomendações técnicas para cada cultivar. Semeaduras muito densas aumentam o sombreamento e a umidade dentro do dossel, criando condições mais favoráveis à doença.
Na irrigação, o objetivo é evitar tanto uma lâmina permanentemente muito alta quanto variações extremas. O manejo adequado da água ajuda a reduzir as condições favoráveis às infecções na base das plantas.
O uso de fungicidas na cultura do arroz deve seguir a legislação vigente e as recomendações de segurança. As aplicações devem ser realizadas com receituário agronômico emitido por engenheiro(a) agrônomo(a), respeitando doses, intervalos de segurança e limitações indicadas no rótulo e na bula.
Os equipamentos de proteção individual devem ser utilizados durante a preparação e aplicação dos produtos e na lavagem dos equipamentos. As embalagens vazias também precisam receber a destinação correta, de acordo com os programas oficiais de logística reversa.
O registro das aplicações permite manter a rastreabilidade das operações e avaliar os resultados ao longo das safras. Essas informações também ajudam a aprimorar as estratégias de manejo para os ciclos seguintes.
Assim, a escolha do fungicida para a queima das bainhas deve partir do diagnóstico correto da doença e considerar o histórico da área, a cultivar, o ambiente e o estádio da cultura. A definição do produto, do modo de ação e de eventuais misturas em tanque precisa estar alinhada às recomendações de bula e à avaliação técnica.
O manejo integrado completa a estratégia, reunindo controle químico, equilíbrio nutricional, manejo da água, densidade adequada de plantas, rotação de culturas e acompanhamento constante da lavoura.
A combinação dessas práticas ajuda o produtor a tomar decisões mais precisas, evitando aplicações desnecessárias e reduzindo o risco de atrasar o controle quando a doença apresenta condições favoráveis para avançar.