Corte da cana influencia vida útil do canavial
Condições do campo orientam regulagem
Foto: Pixabay
A altura de corte da cana-de-açúcar durante a colheita mecanizada pode interferir diretamente na brotação do ciclo seguinte, na preservação da soqueira e no aproveitamento da matéria-prima. Cortes muito baixos aumentam o risco de danos às gemas e ao sistema radicular, enquanto cortes excessivamente altos podem deixar parte do colmo no campo. Por isso, não existe uma altura única que possa ser adotada como padrão em todos os canaviais. A regulagem da colhedora deve considerar as condições de cada talhão, como tipo e umidade do solo, relevo, variedade, quantidade de palhada, idade e vigor da soqueira.
A soqueira é formada pelos colmos e pelas gemas que permanecem no campo após a colheita e dão origem às novas brotações. Entre elas estão as gemas basais, localizadas próximas ao solo e importantes para a retomada do desenvolvimento da cultura. O desafio durante a colheita é cortar o colmo próximo à base sem provocar danos excessivos. Quando o sistema trabalha muito baixo, próximo ou abaixo da linha do solo, pode raspar e lascar os colmos, esmagar gemas e até arrancar parcialmente as soqueiras, especialmente quando o solo está úmido.
Ferimentos profundos também podem facilitar a entrada de fungos e bactérias. Além disso, o trabalho excessivamente próximo ao solo pode aumentar os riscos de compactação e de alterações físicas, principalmente em áreas argilosas e com alta umidade. Esses problemas podem resultar em brotação desuniforme, falhas no canavial e maior necessidade de replantio.
Corte alto também gera perdas
Se cortar muito baixo traz riscos, manter a altura acima do necessário também pode prejudicar o sistema de produção. Nesse caso, parte da massa do colmo permanece no campo e deixa de ser aproveitada na colheita. Tocos elevados também podem interferir na uniformidade da nova brotação e deixar gemas mais expostas à perda de umidade e às variações de temperatura.
A regulagem deve, portanto, buscar um equilíbrio entre o aproveitamento da matéria-prima e a preservação da estrutura responsável pelo próximo ciclo da cultura. Entre os principais objetivos estão manter as gemas basais íntegras, limitar danos ao sistema radicular e reduzir perdas de colmo.
Condições do campo orientam regulagem
A época do ano também influencia a decisão. Durante períodos chuvosos, a maior umidade do solo e da palhada pode ampliar o risco de compactação, danos à soqueira e apodrecimento das gemas. Nessas condições, devem ser evitados cortes extremamente baixos, principalmente em solos mais pesados. Nos períodos mais secos, o solo firme pode diminuir o risco de arranquio das soqueiras. Por outro lado, a maior exposição das gemas pode favorecer a dessecação.
A manutenção da palhada sobre as linhas ajuda a proteger a soqueira. Como as condições podem mudar ao longo da safra, o ajuste da máquina deve acompanhar a realidade encontrada no campo e não depender apenas de um calendário fixo.
Máquina precisa acompanhar as condições do terreno
Na colhedora, a altura é determinada principalmente pelo sistema de corte de base e pelo sistema de flutuação. Equipamentos com piloto automático de altura também podem utilizar sensores para acompanhar o perfil do terreno e ajustar a posição do corte. Outro fator importante é a velocidade de deslocamento. Quando a máquina opera em velocidades muito elevadas, os sistemas de regulagem têm menos tempo para responder às irregularidades encontradas ao longo do talhão.
A recomendação é realizar uma inspeção da área antes de iniciar a operação e fazer um teste em uma pequena faixa. Após alguns metros de colheita, a equipe deve observar as condições das touceiras. Colmos quebrados, fibras excessivamente expostas e bases raspadas podem indicar que o corte está baixo demais. Já a presença frequente de tocos longos e de partes do colmo maduro no campo pode sinalizar uma altura excessiva.
Os ajustes devem ser feitos gradualmente até que a operação apresente cortes mais limpos e uniformes.
Monitoramento deve continuar durante a colheita
A regulagem feita no início da operação não deve ser considerada definitiva. A umidade do solo pode mudar durante o dia e a distribuição da palhada também pode sofrer alterações, modificando as condições de trabalho da máquina. Por isso, a inspeção visual da soqueira após a passagem da colhedora é uma das formas práticas de acompanhar a qualidade da operação e identificar a necessidade de novos ajustes.
Os efeitos da altura de corte também podem aparecer nas safras seguintes. Danos sucessivos na base das touceiras podem comprometer a brotação e reduzir a longevidade do canavial.
Falhas de brotação podem ainda exigir replantios localizados ou antecipar a reforma da área, aumentando os custos de produção. O material analisado, no entanto, não apresenta percentuais ou valores que permitam quantificar essas perdas.
Manejo vai além da altura do corte
A regulagem da colhedora também precisa estar integrada a outras práticas realizadas após a colheita. Entre elas estão o manejo da palhada, o controle de plantas daninhas, o tráfego de máquinas e a adubação da soqueira.
A preservação da estrutura remanescente do canavial contribui para a continuidade dos tratos culturais, enquanto a palhada auxilia na proteção das gemas e interfere nas condições de temperatura e umidade do solo.
A operação deve ainda seguir as recomendações do fabricante da colhedora, as normas de segurança e o planejamento agronômico da propriedade.
Na prática, definir a altura de corte significa equilibrar o máximo aproveitamento possível dos colmos com a preservação da soqueira que dará origem ao próximo ciclo. A observação constante das condições de campo e a adaptação da regulagem da máquina são pontos importantes para reduzir danos, evitar perdas e favorecer a continuidade produtiva do canavial.