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El Niño de 2026 não tem a cara dos anteriores

Fenômeno deve durar até 2027


Foto: Divulgação

Produção do meteorologista Gabriel Rodrigues, com revisão de Aline Merladete

É fato: estamos entrando em um episódio potencialmente severo de El Niño. As águas do Oceano Pacífico estão muito mais quentes que o normal, e há uma enorme reserva de água aquecida acumulada até cerca de 300 metros abaixo da superfície. Esse calor vem se formando desde o início do ano e é o combustível que sustenta o que vemos agora — é o que avalia o meteorologista Gabriel Rodrigues.

Em meados de junho de 2026, os principais centros climáticos do mundo deixaram para trás a fase de "vigilância" e passaram a tratar o El Niño como um fato consumado. O fenômeno nada mais é do que o aquecimento anômalo do Pacífico equatorial — mas suas consequências chegam ao campo brasileiro através de uma cadeia de efeitos que reorganiza chuva, calor e calendário agrícola de uma ponta a outra do país.

O que é o El Niño. É a fase quente de um ciclo natural chamado ENOS — El Niño–Oscilação Sul. Quando os ventos que normalmente empurram a água quente para o oeste do Pacífico enfraquecem, esse calor se espalha e altera a circulação da atmosfera em escala global. No Brasil, o padrão clássico é simples de guardar: mais chuva no Sul, mais seca e calor no Norte e Nordeste, e temperaturas acima da média em quase todo o território.

O consenso saiu da dúvida para a convicção

A discussão já não é mais "vai ou não vai ter El Niño". É quão forte ele fica e como esse calor se traduz no clima de cada região. Os números divulgados pelos centros oficiais entre maio e junho de 2026 mostram um sinal raramente tão alinhado, segundo Rodrigues.

Em outras palavras: o cenário-base deixou de ser "El Niño fraco e passageiro". Hoje, o caso central é de um fenômeno persistente até o começo de 2027, provavelmente forte, com risco real de muito forte. E ele atua sobre um clima que já está mais quente — o que tende a ampliar ondas de calor, evaporação e chuvas extremas em comparação com os análogos do passado, aponta Rodrigues.

Um aquecimento sem o contraste de antes

Os grandes El Niños que usamos como referência — 1982-1983, 1997-1998 e 2015-2016 — tinham uma assinatura clássica: um núcleo de águas quentes no Pacífico cercado por águas mais frias no entorno. Era um contraste nítido no mapa.

O evento de 2026 não mostra esse mesmo desenho, observa Rodrigues. O que se vê é calor por toda a faixa equatorial do Pacífico, com pouco do "azul" de águas frias que aparecia ao redor nos eventos antigos. A razão é que o aquecimento global elevou o piso de temperatura de todos os oceanos — então o mesmo El Niño aparece hoje "mais quente por inteiro" no mapa, com menos contorno frio.

Vale a ressalva técnica: medições recentes ainda mostram gradiente. A costa leste do Pacífico — região Niño 1+2 — chegou a +2 a +3°C, mais quente que o Pacífico central — região Niño 3.4 —, que estava em torno de +0,7°C em junho. O aquecimento não é uniforme, mas o contraste com as águas do entorno é menor do que nos eventos clássicos. Como todo o oceano está mais quente, comparar a temperatura de hoje com a média histórica passou a inflar os números. Por isso a NOAA e outros centros adotaram um índice "relativo" — o RONI —, que desconta esse aquecimento de fundo e mede a força real do El Niño em si. Por esse critério, o evento atual já rivaliza com os mais severos do registro.

Região Sul: água demais — e não só por causa do El Niño

No Sul, a marca do El Niño é o excesso de chuva. Mas há um agravante em 2026: a probabilidade de termos mais de um fenômeno empurrando chuva para a região ao mesmo tempo. Além do El Niño, devemos ter a influência da Oscilação Madden-Julian — MJO —, que tende a reforçar um inverno mais chuvoso no Sul do país, segundo Rodrigues.

Enquanto o El Niño dura meses, a MJO é um "pulso" de chuva e nuvens que dá a volta no planeta a cada 30 a 60 dias. Quando ela passa pela América do Sul na fase favorável, abre janelas de temporais. Somada a um El Niño que já mantém o Sul úmido, ela pode concentrar episódios intensos de chuva em cima de períodos curtos — o pior cenário para as lavouras de inverno.

O trigo é o exemplo mais claro: não tolera encharcamento no período reprodutivo nem chuva na pré-colheita. E, como o El Niño deve seguir ativo em 2027, há risco real de chuva no momento da colheita — o pior momento possível. Um estudo publicado em 2026 sobre as chuvas extremas de abril-maio de 2024 no Rio Grande do Sul concluiu que o episódio foi raro até para o clima atual, e que o El Niño anterior somado ao aquecimento global ajudaram a elevar a probabilidade do evento. Isso não significa que 2026/27 vá repetir 2024 — mas mostra que um El Niño forte hoje incide sobre um sistema já mais propenso a extremos.

Centro do Brasil: calor e seca na largada da safra de verão

Na parcela central do país, a história se inverte: as condições tendem a ser mais quentes e secas. O problema não é falta de água no ano todo, e sim o atraso e a irregularidade no início das chuvas, bem na hora em que a soja e o milho de verão entram no plantio. Solo seco e calor dificultam o estabelecimento da semeadura, alerta Rodrigues.

Se a seca atrasar a semeadura — ou pior, exigir replantio em áreas extensas —, todo o calendário escorrega para frente. O resultado aparece lá na frente: aperto na janela da segunda safra de 2027. O milho de segunda safra — a "safrinha" — é plantado logo após a colheita da soja. Se a soja atrasa, o milho é empurrado para fora da janela ideal — e sua fase mais sensível, a polinização, acaba caindo no período em que as chuvas começam a faltar e o frio chega à região central. É assim que um atraso lá no plantio de outubro vira quebra de milho em 2027.

Os riscos, cultura por cultura

O Brasil entra nesse cenário com um colchão de oferta confortável — a Conab projeta safra recorde de grãos em 2025/26 de 358,6 milhões de toneladas, café em torno de 66,7 milhões de sacas e cana acima de 700 milhões de toneladas. Isso reduz o risco de desabastecimento imediato, mas não protege a safra nova, avalia Rodrigues.

Um ponto que costuma se perder na conversa: o risco nacional pode ser "médio", mas o risco regional pode ser alto. Em 2026/27 isso vale especialmente para o Matopiba, para o Centro-Oeste que depende da largada das chuvas e para o Sul que depende de drenagem e logística. É aí que o impacto aparece primeiro, ressalta Rodrigues.

A janela de maior risco

Prepare-se para o pior cenário

A mensagem que o meteorologista Gabriel Rodrigues deixa ao produtor e a quem toma decisão no agro é simples: se prepare para o pior cenário. E diz isso não com tom de alarmismo, mas para induzir a busca pelas melhores estratégias de mitigação diante do que está se formando no Pacífico.Na prática, isso significa trocar a lógica do "calendário médio" pela do "calendário condicional" — decidir conforme o clima for se confirmando, e não conforme o costume. Cinco frentes concentram o essencial:

Escalonar o plantio. Distribuir a semeadura em mais de uma janela e combinar cultivares de ciclos diferentes, para que a lavoura inteira não chegue às fases sensíveis ao mesmo tempo.

Seguir o ZARC. O Zoneamento Agrícola de Risco Climático indica as janelas de menor risco por cultura e região — e é exigência para o crédito e para o seguro. Em ano atípico, ele vira ferramenta de sobrevivência, não burocracia.

Escolher cultivares por tolerância. Materiais com resistência a doenças no Sul úmido e com tolerância a estresse hídrico e térmico no centro-norte seco.

Investir na infraestrutura certa. No Sul, drenagem, pátio, secagem e armazenagem para operar em solo encharcado. No centro-norte, preservar a palhada e a umidade do solo.

Proteger o caixa. Seguro rural compatível com o risco maior, e travas parciais de preço — porque a ameaça aqui é a volatilidade, não um único movimento de mercado.

O El Niño de 2026 chega com uma assinatura própria e com chances reais de entrar para o grupo dos mais severos já registrados. O clima não se controla — mas a exposição a ele, sim. Quem planejar para o pior cenário não estará sendo pessimista. Estará sendo profissional.

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