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Mudança alimentar redefine comércio agrícola

“O que se observa, ao final, é um sistema que evolui com mais coordenação interna"


“O que se observa, ao final, é um sistema que evolui com mais coordenação interna" “O que se observa, ao final, é um sistema que evolui com mais coordenação interna" - Foto: Divulgação

O sistema alimentar chinês passa por uma reorganização que combina mudanças no padrão de consumo, maior eficiência produtiva e busca por menor exposição a riscos externos. A avaliação é de Maria Flávia Tavares, economista e doutora em agronegócio, a partir da leitura do Relatório de Perspectivas Agrícolas da China 2026–2035.

Segundo a análise, a transformação da dieta aparece como um dos principais vetores desse processo. O consumo deixa de ser orientado apenas por volume e passa a valorizar qualidade, processamento e sofisticação, movimento observado com mais clareza em lácteos, frutas e hortaliças. Nos lácteos, o avanço é consistente e acompanhado por maior exigência do consumidor. No caso das frutas, o crescimento ocorre menos pela quantidade e mais pela agregação de valor, em linha com o aumento da renda, a urbanização e novos hábitos alimentares.

Esse cenário também altera a leitura sobre o óleo de soja. A orientação de reduzir o consumo de óleos vegetais indica preocupação com saúde e afeta a dinâmica da indústria, já que óleo e farelo são produzidos de forma conjunta. Com menor pressão pelo óleo, o processamento tende a se aproximar mais da demanda por farelo, reforçando a soja como insumo estratégico para a produção de proteína animal.

Na soja, a análise aponta um ajuste, não uma substituição. A redução projetada das importações ao longo do tempo não retira a importância do grão, mas indica maior controle sobre sua função no sistema alimentar. O papel da soja segue central na ração, enquanto produtividade doméstica, eficiência e mudanças no consumo de proteínas reduzem a necessidade de expansão contínua das compras externas.

A reconfiguração do consumo de carnes também pesa nesse movimento. A carne suína perde gradualmente protagonismo, embora continue relevante, enquanto as aves ganham espaço por apresentarem melhor conversão alimentar e menor pressão sobre milho e farelo de soja. Em paralelo, a China busca diversificar fornecedores e fortalecer a produção interna, em resposta à instabilidade geopolítica e à volatilidade de custos.

“O que se observa, ao final, é um sistema que evolui com mais coordenação interna, no qual consumo, produção e comércio passam a responder menos a movimentos pontuais e mais a uma lógica de planejamento, o que tende a tornar a demanda chinesa mais previsível no longo prazo, mas também mais exigente em termos de qualidade e consistência da oferta”, conclui.
 

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