El Niño: veja como as previsões mudaram ao longo de 2026
El Niño se intensifica e muda cenário climático de 2026
Foto: NOAA
As projeções para o El Niño mudaram de forma significativa ao longo de 2026 e agora indicam a possibilidade de um evento muito forte entre a primavera e o verão de 2026–2027. Segundo dados divulgados pela NOAA, por meio do Climate Prediction Center (CPC), a probabilidade de um episódio muito forte no Hemisfério Sul supera 90%, enquanto a chance de ser o evento mais intenso desde 1950 chega a 75% no trimestre outubro-novembro-dezembro.
A nova atualização mensal da NOAA/CPC, publicada nesta quinta-feira (10), mostra que as anomalias da temperatura da superfície do mar (TSM) ultrapassaram 3°C no Pacífico Equatorial Leste em agosto. O aquecimento, combinado aos demais índices de monitoramento, aponta para uma intensificação contínua do El Niño até o fim de 2026.
A evolução chama atenção porque o ano começou com um cenário diferente. Os boletins mensais do Centro de Previsão Climática da NOAA permitem acompanhar a transição de uma condição de La Niña para a neutralidade e, posteriormente, para o desenvolvimento e a intensificação do El Niño.
O fenômeno faz parte do El Niño–Oscilação Sul (ENOS), associado à interação entre o oceano e a atmosfera no Pacífico equatorial. O ciclo apresenta três fases: El Niño, caracterizado pelo aquecimento das águas superficiais do Pacífico equatorial central e leste; La Niña, marcada pelo resfriamento dessas águas; e neutralidade, quando não são observadas condições características de nenhuma das duas fases.
Segundo dados divulgados pela NOAA/CPC, essas condições não seguem uma regularidade fixa. El Niño e La Niña se alternam de maneira irregular, geralmente em intervalos de dois a sete anos, intercalados por períodos de neutralidade.
As diferentes fases do ENOS alteram padrões de circulação atmosférica, temperatura e precipitação em várias partes do planeta. Por isso, embora seja um fenômeno natural, sua evolução pode influenciar o comportamento do clima em diferentes regiões, inclusive no Brasil.
A caracterização do fenômeno depende da análise conjunta das condições oceânicas e atmosféricas. Como essas condições mudam com o tempo, as projeções também são atualizadas à medida que novas observações são incorporadas aos modelos climáticos.
É justamente esse processo que explica a mudança das previsões ao longo de 2026. No início do ano, havia maior incerteza sobre o comportamento do Pacífico Equatorial, já que as condições observadas ainda não apresentavam sinais suficientemente claros sobre a evolução do fenômeno.
Com o avanço do ano, o aquecimento das águas superficiais e subsuperficiais se intensificou. A atmosfera também passou a responder ao aquecimento de maneira cada vez mais consistente com o desenvolvimento do El Niño.
A incorporação dessas novas informações aumentou a concordância entre os modelos e permitiu ajustes nas projeções, elevando gradualmente a confiança nos cenários indicados.
Por isso, previsões feitas com muitos meses de antecedência devem ser interpretadas como probabilidades e tendências, e não como uma indicação de que determinado cenário necessariamente ocorrerá. À medida que novas observações chegam, as projeções podem ser ajustadas para cima ou para baixo.
No Brasil, o cenário projetado para os próximos meses também exige atenção. Segundo dados divulgados pelo Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN), pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB), pela Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (SEDEC) e pelo Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (CENSIPAM), o Boletim nº 3 do Painel El Niño 2026–2027, divulgado em 1º de setembro, aponta diferentes tendências de chuva e temperatura para o país no trimestre setembro-outubro-novembro.
Na Região Sul, especialmente no Rio Grande do Sul, além de áreas de São Paulo e Mato Grosso do Sul, há maior probabilidade de volumes de chuva acima da média histórica. Já as Regiões Norte e Nordeste apresentam maior probabilidade de chuva abaixo da média.
Áreas do Brasil Central e do Sudeste, incluindo partes de Mato Grosso, Tocantins, norte de Goiás, Minas Gerais e Espírito Santo, também apresentam maior probabilidade de chuva abaixo da média.
As temperaturas tendem a permanecer acima da média em grande parte do território nacional. Segundo dados divulgados pelas instituições que integram o Painel El Niño 2026–2027, isso não impede episódios pontuais de queda de temperatura provocados pela passagem de massas de ar frio, especialmente durante a transição entre o inverno e a primavera.
Nas regiões central e norte, a combinação entre temperaturas elevadas e períodos prolongados de estiagem pode favorecer condições de maior risco de propagação do fogo, principalmente se houver atraso no início da estação chuvosa.
Na Amazônia Legal e no Pantanal, o período entre setembro e novembro normalmente representa a transição entre a estação seca e a chuvosa. O cenário projetado indica possibilidade de prolongamento da estiagem em algumas áreas, com redução da disponibilidade hídrica e aumento da vulnerabilidade aos incêndios florestais.
No Sul, por outro lado, a maior probabilidade de chuva acima da média aumenta a necessidade de atenção para episódios de chuva intensa, cheias e inundações, especialmente no Rio Grande do Sul. Segundo dados divulgados pelas instituições que integram o Painel El Niño 2026–2027, o acompanhamento contínuo das condições meteorológicas e hidrológicas é necessário diante desse cenário.
As projeções climáticas, porém, não permitem determinar antecipadamente quando ocorrerá uma tempestade, qual cidade será atingida por um evento extremo ou qual volume de chuva será registrado em um episódio específico.
Além disso, nem todo evento meteorológico extremo registrado durante um episódio de El Niño é necessariamente causado pelo fenômeno. O El Niño modifica os padrões de circulação atmosférica e pode aumentar ou reduzir a probabilidade de determinados comportamentos de chuva e temperatura, mas a ocorrência e a intensidade de eventos específicos também dependem da atuação de outros sistemas meteorológicos.
Frentes frias, ciclones, sistemas convectivos e massas de ar estão entre os mecanismos que podem interagir com as condições estabelecidas pelo fenômeno e influenciar a ocorrência de eventos específicos.
Da mesma forma, um El Niño mais intenso não significa automaticamente impactos mais severos em todas as regiões do Brasil. Segundo dados divulgados pelo INMET e pelas demais instituições que integram o Painel El Niño 2026–2027, episódios mais intensos podem aumentar a probabilidade de determinados impactos, mas a ocorrência e a magnitude desses eventos dependem da interação de diferentes fatores atmosféricos e oceânicos e das condições já presentes em cada região.
Por isso, o acompanhamento precisa considerar diferentes escalas de tempo. A previsão climática aponta tendências para os próximos meses, enquanto a previsão do tempo acompanha a evolução da atmosfera nos dias seguintes.
Diante da possibilidade de condições meteorológicas adversas, o INMET também emite avisos meteorológicos, atualizados conforme a evolução dos sistemas atmosféricos.
Com a perspectiva de intensificação do El Niño nos próximos meses, as projeções climáticas ganham importância para o planejamento e a preparação. No entanto, o monitoramento contínuo, as previsões do tempo e os avisos meteorológicos são fundamentais para acompanhar a evolução de eventos específicos.
O cenário projetado pela NOAA/CPC representa, portanto, uma mudança importante em relação ao início de 2026. A sequência dos boletins mostra a passagem de uma condição de La Niña para a neutralidade e, posteriormente, para um El Niño com sinais de intensificação.
A possibilidade de um evento forte ou muito forte exige atenção, mas não permite atribuir automaticamente ao fenômeno todos os eventos extremos que possam ocorrer no Brasil. A interpretação correta das projeções é fundamental para que a informação climática seja utilizada como ferramenta de preparação, prevenção e tomada de decisão.
Evolução das projeções do ENOS em 2026
8 de janeiro de 2026 — La Niña ainda estava presente
Em janeiro, a condição observada ainda era de La Niña, e a NOAA mantinha o status de Aviso de La Niña. A previsão indicava 75% de probabilidade de transição para condições neutras entre janeiro e março. Naquele momento, a neutralidade era considerada o cenário mais provável até pelo menos o final do outono do Hemisfério Sul. A NOAA já identificava um aumento das chances de ocorrência de El Niño em horizontes mais longos, mas destacava a elevada incerteza associada a essas projeções.
12 de fevereiro — cenário ainda favorecia neutralidade
Em fevereiro, a fase La Niña ainda permanecia como condição observada, mas os sinais indicavam que esse episódio se aproximava do fim. A NOAA apontava 60% de probabilidade de transição para condições neutras entre fevereiro e abril, enquanto a probabilidade de manutenção da neutralidade entre junho e agosto chegava a 56%. Naquele momento, portanto, o cenário ainda favorecia a neutralidade, sem indicação de alta confiança para o estabelecimento do El Niño.
12 de março — NOAA inicia Vigilância de El Niño
Em março, a La Niña ainda permanecia como condição observada, mas já apresentava sinais de enfraquecimento. Ao mesmo tempo, as perspectivas para os meses seguintes começaram a mudar de forma mais significativa. Apesar de manter o Aviso de La Niña, a NOAA entrou em estado de Vigilância de El Niño (El Niño Watch). A probabilidade de formação do El Niño entre junho e agosto aumentou para 62%, e as projeções indicavam a possibilidade de que o fenômeno persistisse pelo menos até o final de 2026.
9 de abril — La Niña termina e possibilidade de El Niño aumenta
Em abril, as condições observadas passaram para neutralidade, caracterizando um período de ENOS-neutro. Com o encerramento da La Niña, a NOAA retirou o Aviso de La Niña, mas manteve o estado de Vigilância de El Niño. A probabilidade de formação do El Niño entre maio e julho chegou a 61%, e as projeções indicavam a possibilidade de continuidade do fenômeno pelo menos até o final do ano.
14 de maio — probabilidade de El Niño sobe para 82%
Em maio, as condições observadas ainda eram classificadas como ENOS-neutro, mas o aquecimento do Pacífico Equatorial já se tornava mais evidente. O índice semanal Niño 3.4 atingiu +0,4 °C, aproximando-se do limiar utilizado como referência para condições de El Niño. Diante da evolução das condições oceânicas e atmosféricas, a NOAA passou a indicar 82% de probabilidade de estabelecimento do El Niño entre maio e julho. Para dezembro de 2026 a fevereiro de 2027, a probabilidade de permanência do fenômeno chegou a 96%.
11 de junho — El Niño é oficialmente declarado
Em junho, o El Niño já era a condição observada, ainda em estágio inicial de desenvolvimento. Após confirmar o estabelecimento das condições do fenômeno, a NOAA alterou o status para Aviso de El Niño (El Niño Advisory). O índice semanal Niño 3.4 atingiu +0,7 °C, valor que, considerando a magnitude da anomalia naquele momento, situava-se na faixa associada a um El Niño fraco. Apesar disso, as projeções já indicavam um rápido fortalecimento do fenômeno em direção ao final de 2026 e ao verão 2026/2027 do Hemisfério Sul.
9 de julho — El Niño continua se fortalecendo
Em julho, o El Niño já apresentava intensidade moderada e continuava em processo de fortalecimento. O índice semanal Niño 3.4 alcançou +1,2 °C, valor associado a um episódio de intensidade moderada. A NOAA informou que o fenômeno continuaria se intensificando até o final do ano e estimou em 97% a probabilidade de sua permanência até o início do outono de 2027 no Hemisfério Sul. Embora a tendência de intensificação já estivesse claramente estabelecida, naquele momento o fenômeno observado ainda não havia alcançado a faixa de forte intensidade.
13 de agosto — Probabilidade superior a 90% de El Niño muito forte
Em agosto, o El Niño seguia em rápida intensificação, com os valores observados na região Niño 3.4 próximos da transição entre as faixas de intensidade moderada e forte. A média mensal do Niño 3.4 referente a julho chegou a +1,4 °C, enquanto outras regiões do Pacífico apresentavam aquecimento ainda mais expressivo, com o Niño 1+2 atingindo +2,9 °C. A anomalia de +1,4 °C na região Niño 3.4 encontrava-se no limite superior da faixa normalmente associada a um El Niño moderado e próxima do patamar de forte intensidade. Ao mesmo tempo, as projeções indicavam o rápido fortalecimento do fenômeno. A NOAA passou a indicar probabilidade superior a 90% de ocorrência de um El Niño muito forte durante o a primavera de 2026 e o verão de 2026/2027 no Hemisfério Sul.
10 de setembro — Probabilidade de 75% de ser o evento mais forte registrado desde 1950
O El Niño se intensificou ainda mais em agosto, com as anomalias da temperatura da superfície do mar excedendo +3,0 °C no Pacífico Equatorial Leste. Com exceção do índice Niño 4, que diminuiu para +0,1 °C, os valores dos demais índices Niño aumentaram, atingindo +1,8 °C na região Niño 3.4, +2,5 °C na região Niño 3 e +3,4 °C na região Niño 1+2. O El Niño continuará se intensificando até o final de 2026. A NOAA indicou probabilidade superior a 90% de ocorrência de um evento muito forte durante a primavera e o verão de 2026–2027 no Hemisfério Sul e probabilidade de 75% de ser o evento mais forte registrado desde 1950, durante o trimestre outubro–dezembro de 2026. Com um evento dessa magnitude, aumentam as chances de ocorrência de impactos consistentes com o El Niño.
Em resumo, o El Niño está se intensificando, com mais de 90% de probabilidade de ocorrência de um evento muito forte durante a primavera e o verão de 2026–2027 no Hemisfério Sul.