El Niño pode definir preços da soja nos EUA
Fenômeno acende alerta para o 3º trimestre
Foto: Seane Lennon
O terceiro trimestre de 2026 promete ser decisivo para o mercado global de soja. Segundo dados divulgados pela StoneX, em relatório trimestral de perspectivas para commodities, o Brasil colhe uma safra recorde e mantém ritmo forte de exportações, enquanto os olhos do mercado se voltam para o desenvolvimento da lavoura americana, o avanço do El Niño e os desdobramentos comerciais entre China e Estados Unidos, fatores que devem pesar na formação de preços até setembro.
Com a safra 2025/26 encerrada, o Brasil consolidou uma produção recorde de 182,1 milhões de toneladas de soja, impulsionada pela expansão da área cultivada e pelo bom desempenho produtivo na maioria das regiões, segundo a StoneX. As exportações brasileiras seguem em ritmo elevado — a consultoria projeta embarques de cerca de 113 milhões de toneladas ao longo de 2026, número que mantém o país na posição de principal fornecedor global da oleaginosa. De acordo com a especialista de Inteligência de Mercado da StoneX, Ana Luiza Lodi, a oferta abundante brasileira sustenta um volume expressivo de vendas externas mesmo no período em que os Estados Unidos costumam ganhar espaço no comércio internacional, o que ajuda a manter o abastecimento global em nível confortável. No país, o processamento interno também segue aquecido: o crescimento da produção de biodiesel e as margens favoráveis têm estimulado o esmagamento, tendência que a StoneX espera que continue no segundo semestre.
Enquanto isso, todas as atenções do mercado internacional se concentram agora nos Estados Unidos, onde a soja da safra 2026/27 entra na fase mais sensível do seu ciclo produtivo. Segundo a StoneX, o plantio por lá foi concluído em ritmo acima da média histórica, com aumento da área cultivada — movimento explicado pela maior competitividade da soja frente ao milho, em meio a custos elevados com fertilizantes nitrogenados e depois de uma safra recorde do cereal no ano anterior. Para Ana Luiza, esse será o trimestre que vai definir os preços globais, já que coincide exatamente com a etapa crítica de formação da produtividade americana. Um dos principais marcos aguardados é o relatório WASDE de agosto, que trará as primeiras estimativas oficiais baseadas em pesquisas de campo com produtores dos EUA.
Soma-se a esse cenário a confirmação oficial do El Niño pela NOAA em junho, fenômeno climático que, segundo projeções internacionais citadas pela StoneX, tem alta probabilidade de atingir intensidade forte até o fim do ano. A especialista da StoneX pondera que, historicamente, o El Niño tende a reduzir os riscos de seca prolongada no verão americano, o que favoreceria as lavouras — mas a intensidade projetada para este ciclo aumenta a incerteza e exige monitoramento constante das condições climáticas nos próximos meses.
Do lado da demanda, a StoneX destaca o fortalecimento contínuo da indústria de biocombustíveis como um dos principais motores de consumo da soja americana. As margens de esmagamento seguem em níveis historicamente atrativos, favorecidas pelo aumento dos mandatos de biocombustíveis previstos para 2026 e 2027, pela valorização dos créditos do setor e pela alta dos preços internacionais de energia, que tornou os combustíveis renováveis mais competitivos. Segundo Ana Luiza, o esmagamento é hoje o principal vetor de crescimento da demanda por soja nos Estados Unidos, ampliando a importância do óleo de soja no balanço global.
Outro ponto de atenção é a relação comercial entre China e Estados Unidos. O compromisso de compra de soja americana firmado entre os dois países segue vigente, mas a StoneX observa que ainda há dúvidas no mercado sobre o real cumprimento dos volumes acordados — assim como de compromissos mais amplos envolvendo outros produtos agrícolas dos EUA. Caso essas compras se concretizem integralmente, avalia a consultoria, o balanço de oferta e demanda americano pode ficar mais ajustado do que o atualmente projetado.
A Argentina também contribui para o quadro de oferta global: sua produção superou as expectativas iniciais, e o país segue direcionando grande parte da soja colhida ao processamento industrial, mantendo relevância como exportador de farelo e óleo. Apesar de todos esses elementos apontarem para um cenário de oferta ampla, a StoneX alerta que o grau de incerteza para o terceiro trimestre é maior do que o observado nos meses anteriores. Segundo Ana Luiza, embora não existam hoje restrições relevantes no balanço global, o mercado permanece sujeito a surpresas — e o potencial produtivo dos Estados Unidos, os efeitos do El Niño e as decisões de plantio dos produtores sul-americanos devem seguir como os principais pontos de observação até o fim de setembro.