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Risco do El Niño está na janela de plantio do Mato Grosso

Ameaça nasce do atraso das chuvas no início do ciclo da soja


Foto: OceanOPS

Consolidou-se no imaginário do agronegócio a ideia de que ano de El Niño é, automaticamente, ano de quebra em Mato Grosso. Segundo a análise do meteorologista do Portal Agrolink, Gabriel Rodrigues, o exame dos oito principais eventos do fenômeno registrados desde o início da década de 1990 desmonta essa associação direta. Em vez de uma relação linear entre o aquecimento do Pacífico Equatorial e a perda de produtividade, o que os dados de Conab, IBGE e Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (IMEA) revelam é um vínculo bem mais sutil, e operacionalmente mais importante para quem planeja a lavoura. “O verdadeiro fator de risco no estado não é a intensidade do índice oceânico, mas o atraso no início da estação chuvosa e a compressão da janela de plantio que ele provoca” , salienta.

De acordo com o especialista, dos oito eventos analizados (1991/92, 1994/95, 1997/98, 2002/03, 2004/05, 2009/10, 2014/15 e 2023/24), apenas dois resultaram em dano expressivo à soja mato-grossense. Em todos os demais, a oleaginosa manteve desempenho dentro ou acima da tendência tecnológica do estado, ainda que sob estresse climático localizado em algumas regiões.

Uma zona de transição climática

Para o meteorologista, a explicação para essa baixa correlação está na geografia climática. “Mato Grosso ocupa uma faixa de transição onde o sinal clássico do El Niño no Brasil, chuva acima da média no Sul e seca no Nordeste, perde nitidez. No Centro-Oeste, o fenômeno tende a se manifestar como irregularidade na distribuição das chuvas, veranicos dentro da estação úmida e temperaturas mais elevadas, e não como uma seca uniforme e previsível. Daí a variabilidade dos resultados de uma safra para outra”, avalia Rodrigues.

“O melhor retrato desse paradoxo está na comparação entre dois eventos de intensidade semelhante”, pontua. O Super El Niño de 1997/98, um dos mais fortes do século XX, coincidiu com uma safra recorde de soja em Mato Grosso. Já o Super El Niño de 2023/24 produziu a maior quebra absoluta da história do estado. Mesma magnitude no Pacífico, desfechos opostos no campo.

A diferença, segundo a leitura das condições daquele ciclo, esteve no Oceano Atlântico. Em 2023/24, o El Niño atuou em conjunto com o aquecimento anômalo do Atlântico Tropical Norte, que deslocou a Zona de Convergência Intertropical e ressecou o Centro-Norte brasileiro. De acordo com Gabriel Rodrigues, a conclusão técnica é direta: a intensidade do Índice Oceânico Niño (ONI) considerada isoladamente não antecipa o impacto em Mato Grosso. É preciso monitorar o Atlântico em paralelo.

O gatilho operacional: a largada da soja

Se a intensidade do fenômeno explica pouco, o calendário explica quase tudo. O especialista explica que quando o El Niño retarda a regularização das chuvas entre setembro e outubro, o produtor é obrigado a empurrar a semeadura da soja para novembro. Esse deslocamento inicial desencadeia uma sequência de efeitos sobre toda a sucessão de culturas.

“A cadeia de transmissão é conhecida: o início irregular das chuvas força atraso ou replantio da soja; a colheita resulta desuniforme e encavalada; a janela ideal para a segunda safra de milho encurta; e o cereal fica mais exposto a déficit hídrico e térmico no fim do ciclo, já no avanço da estação seca. A esse risco somam-se a decisão de trocar a cultura posterior em parte da área e uma pressão sanitária maior, decorrente da dessincronização dos calendários de aplicação", aponta.

O histórico desfaz simplificações

Segundo o meteorologista do Portal Agrolink, a leitura ano a ano confirma o padrão. Nas safras 1991/92 e 1994/95, sob El Niño forte e moderado, Mato Grosso manteve sua trajetória de expansão sem dano relevante, com a segunda safra ainda incipiente no estado. Em 1997/98, mesmo sob o Super El Niño, a soja bateu recorde; quem cedeu terreno foi o arroz de sequeiro, abrindo espaço para a consolidação da oleaginosa e do milho safrinha. Em 2002/03, apesar das previsões alarmantes, o estado registrou supersafra, com salto de cerca de 16% na produção, enquanto a seca severa se concentrava no Rio Grande do Sul.

A safra 2004/05 exige uma correção frequentemente ignorada. Lembrada como uma das piores para a renda do produtor, ela não foi, em Mato Grosso, uma quebra de origem climática. O epicentro da estiagem esteve no Sul e em Mato Grosso do Sul. No estado mato-grossense, o golpe foi de natureza econômica e fitossanitária — queda de preços, valorização do real, explosão de custos com fungicidas por conta da ferrugem asiática e endividamento. O clima local foi coadjuvante.

Em 2009/10, um El Niño moderado atrasou o plantio em pontos do médio-norte. Em Deciolândia, choveu apenas 33 milímetros em outubro, contra 140 a 160 milímetros da média, o que forçou replantios e subtraiu cerca de 1 milhão de toneladas de soja. A regularização posterior das chuvas, porém, garantiu uma segunda safra de milho excelente. O atraso inicial foi absorvido.

2014/15 e 2015/16: o efeito-dominó em estado puro

De acordo com a análise, o par de safras 2014/15 e 2015/16 oferece o exemplo mais didático do encadeamento. Em 2014/15, com o El Niño em formação, a estiagem de outubro atrasou a semeadura de forma aguda: na primeira semana de novembro, apenas 67% da área de soja estava plantada em Mato Grosso, contra 86% no mesmo período do ano anterior. A Aprosoja-MT chegou a projetar redução de até 40% na área de milho segunda safra em algumas regiões, diante da perda da janela ideal para o cereal.

O dano de fato se materializou no ciclo seguinte. Em 2015/16, no auge do fenômeno, a produtividade da soja recuou de 4 a 6 sacas por hectare em diversas regiões, e o milho segunda safra quebrou cerca de 30% no estado, conforme avaliação de CNA e Conab. Atraso em um ciclo, prejuízo no outro — o roteiro completo do efeito cascata.

2023/24: o caso extremo e a reviravolta da safrinha

A safra 2023/24 representou o teste de estresse mais severo do sistema produtivo mato-grossense. “A combinação de Super El Niño e Atlântico aquecido levou ao replantio de cerca de 700 mil hectares e à maturação antecipada de 10 a 20 dias em parte das lavouras, segundo o acompanhamento da Conab. A produção estadual de soja fechou entre 38,4 milhões de toneladas, na contabilidade do IMEA, e 40,4 milhões, na da Conab, a maior quebra absoluta já registrada no estado, estimada em torno de 20% sobre o potencial inicial", comenta.

A segunda safra, contudo, trouxe uma reviravolta. As chuvas se prolongaram no outono e sustentaram o desenvolvimento do milho, inclusive nas áreas semeadas fora da janela ideal. O resultado é instrutivo: a produção do cereal recuou cerca de 10%, para 47,2 milhões de toneladas, mas a queda decorreu da redução de área, e não de perda de produtividade, essa, na verdade, subiu para 115,6 sacas por hectare no consolidado do IMEA. O algodão de segunda safra, beneficiado pela maior tolerância térmica, avançou rumo a um recorde. O sistema produtivo se reorganizou em meio à adversidade.

O alerta para 2026/27

Gabriel Rodrigues avalia que a discussão volta ao centro das atenções porque o ciclo pode se repetir. A agência climática norte-americana NOAA opera em estado de alerta para a formação de um novo El Niño, com probabilidade próxima de 98% para o trimestre maio-julho de 2026, e o IMEA já incorporou esse risco às projeções, indicando recuo em torno de 5% na produção de soja de Mato Grosso na safra 2026/27.

A lição que atravessa três décadas de dados é clara para a gestão de risco no estado. Um ONI elevado, por si só, não é sentença de quebra. O monitoramento do início efetivo das chuvas e do percentual de área plantada em datas de corte , abaixo de 30% até 31 de outubro, por exemplo, antecipa melhor o problema do que o índice oceânico. E o Atlântico Tropical Norte precisa entrar na conta. Diante de um El Niño, a pergunta decisiva para o produtor mato-grossense não é se vai chover menos, mas quando a chuva vai começar.

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