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Balança comercial se mantém em dificuldades


Argemiro Luís Brum
A balança comercial brasileira, confirmando a tendência esperada para este ano, continua indicando um fraco desempenho. Passados quase os três primeiros meses de 2012 (os dados considerados representam o comércio realizado até o dia 25 de março), o saldo comercial obtido no período é de apenas US$ 1,52 bilhão. O mesmo resulta de exportações no valor de US$ 50,4 bilhões (crescimento de 6,26% sobre o mesmo período de 2011) e importações de US$ 48,9 bilhões (crescimento de 9% em relação ao ano anterior). Assim, o saldo conquistado até o dia 25 de março de 2012 é 41,6% menor do que o obtido no mesmo período de 2011. Isso explica também a preocupação do governo com o câmbio, pois a tendência inicial de uma sobrevalorização ainda maior do Real (antes das medidas oficiais, o mesmo caminhava para R$ 1,40) iria piorar consideravelmente a situação comercial nacional. Mesmo assim, durante os primeiros 25 dias de março, período em que o Real já havia sofrido uma desvalorização importante, com o mesmo chegando a valores entre R$ 1,80 e R$ 1,85, o resultado não foi bom. Em relação a fevereiro passado, as exportações, na média por dia útil, cresceram somente 0,9%, enquanto as importações aumentaram 4%, fato que resultou em um saldo negativo de 12,4% na média diária. Em valores, o saldo dos primeiros 25 dias de março ficou negativo em 29,1% em relação a março de 2011 e negativo em 35,9% em relação a fevereiro de 2012. Esse quadro confirma que nossa produção geral terá dificuldades maiores, nesse ano, para encontrar mercados no exterior, enquanto as compras externas ainda avançam. Não é por nada que o governo continua estimulando o consumo interno, mesmo com o aumento do endividamento e da inadimplência das famílias brasileiras.

JURO COMERCIAL CONTINUA SUBINDO


Apesar da aceleração na redução da taxa Selic e da pressão do governo federal sobre os bancos públicos (Banco do Brasil e Caixa Federal) para que reduzam seus juros, a realidade do mercado é outra. Tanto é verdade que o crédito ao consumidor, mesmo com mais dinheiro oficial disponível, continua subindo. Em janeiro o mesmo era de 38% ao ano, passando a 38,1% em fevereiro. Em março, provavelmente a alta tenha continuado. Isso se deve a alguns fatores já conhecidos. Em primeiro lugar, o aumento da inadimplência no país leva os bancos a aumentarem o spread de risco, o que aumenta o custo do dinheiro. Em segundo lugar, o sistema financeiro brasileiro nunca investe com risco, assumindo uma posição de estímulo à produção. O negócio é sempre obter o lucro garantido, fato que explica porque, mesmo em momentos de fortes crises como a que se vive há cinco anos no mundo, a maioria dos bancos, particularmente no Brasil, continuam tendo lucros enormes. Em terceiro lugar, o setor somente aplica os recursos disponíveis onde pode dar resultado. Setores de risco, como a agropecuária, por exemplo, somente possuem crédito porque o governo federal garante as perdas bancárias, via Proagro. Enfim, na lógica de mercado, e pelas regras que temos, não adianta o governo pedir que os juros baixem. É preciso gerar medidas estruturais que convençam o setor financeiro de que o sistema econômico nacional irá efetivamente melhorar. Ora, todas as medidas até aqui adotadas são conjunturais, que não atingem a causa dos problemas que temos. Os bancos sabem disso e, na dúvida, não entram no discurso oficial.

A ARGENTINA CONTINUA AFUNDANDO

E o populismo do governo argentino, oriundo da era peronista dos anos de 1940 e 1950, continua fazendo estragos econômicos e sociais na Argentina. O governo Kirchner, tendo inviabilizado a produção nacional, através da tentativa superada de controlar os preços e, por tabela, a inflação, por decreto, agora acelera o fechamento de suas fronteiras, impedindo as importações de diversos bens. O Brasil conhece bem esta estratégia, pois seus produtos, inclusive alimentos, têm seguidamente sofrido restrições de entrada no vizinho país. Agora, diante de um déficit importante em sua balança comercial, mesmo com o peso fortemente desvalorizado (não há indústria com competitividade suficiente para exportar adequadamente no vizinho país), o governo da presidente Kirchner estabelece uma cruzada anti-importações. O problema é que tal cruzada não atinge apenas produtos supérfluos, o que teria lógica. Atinge igualmente produtos de primeira necessidade em geral, como sapatos, alguns alimentos, ferros de passar roupa e até livros. Como a indústria nacional está quebrada, devido ao mau gerenciamento estatal e também devido à própria sociedade local que manteve no poder tal governo, começa a faltar um pouco de tudo na Argentina. Nesse momento, faltam, dentre outros, remédios, celulares, eletrodomésticos, autopeças, máquinas agrícolas, livros e alimentos. O sistema de importações aumentou a sua já enorme burocracia e não possuiria critérios para decidir o que importar. Pior: por falta de insumos importados, as empresas locais estão paralisando sua produção. Como a economia internacional ensina, todo e qualquer fechamento comercial aumenta a crise interna, penaliza os consumidores pelo aumento de preços e leva a inflação local para cima. A Argentina acaba de entrar, novamente, em estagflação (estagnação da economia com inflação), e disso não deverá sair tão cedo, comprometendo pelo menos uma geração de jovens. Desde 2002 o vizinho país perdeu o controle da estabilidade econômica e paga a conta pela falta de comando sério em sua economia. Que aprendamos a lição e não caiamos em tentações populistas, alimentadas por demagogias de toda ordem, que seguidamente surgem aqui e acolá ainda hoje em nosso país.

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