A soja que não baixa a cabeça

A soja que não baixa a cabeça

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O rápido desenvolvimento da soja no Brasil foi tão impactante para o deslanche do agronegócio nacional, que seria pertinente dividir o desenvolvimento do setor agrícola brasileiro em duas fases: antes da soja e depois da soja. 

Muitos foram os fatores que determinaram tamanho crescimento da oleaginosa nos campos agrícolas brasileiros, mas o uso de mais e melhores tecnologias no processo produtivo foram as que mais contribuíram para esse espetacular avanço. Dentre os desenvolvimentos tecnológicos que mais impactaram no aumento da produção de soja, cabe salientar as conquistas no campo da genética, com destaque para o desenvolvimento da soja adaptada para regiões de baixa latitude, o desenvolvimento da soja transgênica e, mais recentemente, a soja com tipo de crescimento indeterminado, caraterística que lhe confere algumas vantagens quanto a eficiência no tratamento fitossanitário, ampliação da época de plantio e resistência ao acamamento.

A planta de soja se caracteriza por apresentar três tipos de crescimento: determinado, semideterminado e indeterminado. A soja com crescimento determinado tem suas fases reprodutivas (floração, formação das vagens e enchimento dos grãos) bem definidas. Cresce pouco após iniciar o florescimento (10 a 13%) e este ocorre quase simultaneamente desde a base até o topo da planta, o mesmo ocorrendo com a formação das vagens e o enchimento dos grãos. O nó terminal é um rácimo longo com muitas vagens. Essas cultivares são mais sensíveis às variações fotoperiódicas e só permitem a semeadura dentro da melhor época, de vez que plantios anteriores ou posteriores a essa data são prejudicados pela floração precoce, que resulta em porte reduzido e baixa produtividade das plantas.

A soja com crescimento indeterminado, por sua vez, continua o crescimento após iniciar a floração e esta ocorre de forma escalonada, de baixo para cima, podendo apresentar vagens bem desenvolvidas na base e, ao mesmo tempo, flores no topo da planta. Em geral, as folhas do topo são menores que as folhas das demais partes da planta, podendo favorecer a fotossíntese pela maior penetração de luz no dossel, assim como, a melhor distribuição dos agrotóxicos sobre as folhas inferiores da planta. Apesar da diferença de tempo entre o surgimento das vagens basais e as apicais, todas alcançam a maturação aproximadamente ao mesmo tempo. Via de regra, apresentam maior resistência ao acamamento, em contraste com as cultivares de crescimento determinado.

Dada a característica das plantas de hábito de crescimento indeterminado aumentar consideravelmente o porte após o início do florescimento, essas plantas possuem maior flexibilidade quanto à época de semeadura. Embora sejam induzidas a florescer precocemente em semeaduras anteriores e posteriores à melhor época, elas crescem o suficiente durante o período reprodutivo para entregar uma boa safra e, ainda, possibilitar uma 2ª safra de milho com razoável sucesso. Até duas décadas passadas, a soja cultivada no Brasil era essencialmente do tipo de crescimento determinado e os pesquisadores que atuavam no melhoramento genético da cultura acreditavam que as cultivares comerciais de soja cultivadas no Brasil deveriam apresentar essa característica, visto que cultivares de crescimento indeterminado eram apropriadas para cultivo em regiões de climas temperados. Ledo engano.

Não é mais assim. Hoje, a quase totalidade das variedades comerciais desenvolvidas para o mercado brasileiro são do tipo de crescimento indeterminado ou, eventualmente, semideterminado. É a soja preferida dos produtores, pois ajuda a viabilizar o cultivo de segunda safra (milho, algodão, girassol ou feijão), além de reduzir os riscos relacionados ao estresse hídrico na fase de florescimento/início de enchimento de grãos, já que a floração é escalonada.

Muito resistente ao acamamento, é uma soja de porte ereto. Muito dificilmente baixa a cabeça.


 

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