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Abelhas sem ferrão, o agronegócio e as famílias


Alexander Silva de Resende

O declínio da população de abelhas, causado pela perda de habitat e práticas inadequadas de manejo, é um problema que aflige diversos países no mundo. No Brasil, não é diferente: sem polinização, boa parte da nossa mesa estaria em risco. Imagine ter que polinizar manualmente pomares de maçã ou lavouras de café? Inviável.

Para algumas culturas, os polinizadores são tão importantes quanto os fertilizantes usados no agronegócio, com a grande vantagem de, normalmente, não custarem nada para o agricultor. A conta é simples: polinizadores ativos são sinônimo de produtividade na lavoura. Mas, curiosamente, as abelhas sem ferrão — essenciais nesse processo — estão ganhando um novo espaço na cadeia produtiva do Agro. Mel de Jandaira, Jataí, Uruçu, Mandaguari, Borá, Tiúba são encontrados em empórios especializados e mercados locais, e não só mais o mel da famosa abelha europeia ou africanizada do gênero Apis! Os meliponários de abelhas nativas sem ferrão são encontrados principalmente em áreas rurais mas já ocupam espaço importante nas periferias e áreas urbanas!

Uma rápida busca em sites de vendas revela uma infinidade de caixas, iscas e acessórios para a meliponicultura. O apelo é claro: exigem pouco espaço, o manejo é menos arriscado do que o feito com as abelhas com ferrão, o mercado consumidor é ávido pelo produto! E de quebra, se mantidas em seu local de ocorrência natural, fazem importante papel ambiental.

Espécies como a Jataí adaptam-se bem a ambientes periurbanos, ajudando a polinizar a flora local e, de quebra, produzindo um mel especial para autoconsumo. É um mercado crescente que merece atenção em todos os sentidos da palavra.

Despertei para essa questão porque meu filho de 14 anos me perguntou sobre a possibilidade de termos uma colmeia em casa. Comecei a pesquisar sobre o assunto. Notei que além de meliponários organizados para fins de produção e venda, há também pessoas que criam as abelhas como hobby, tendo uma ou duas caixinhas somente para autoconsumo, criando as abelhas quase que como pets.

Nas férias, notei caixinhas em pousadas e casas de amigos, confirmando que a criação de abelhas sem ferrão já é tida também como um hobby e não somente como atividade comercial! Ao buscar pelos termos “abelha sem ferrão” em sites de compras, encontra-se de tudo: bombom de pólen, caixas variadas, iscas, xarope, cera e até colmeias inteiras! Existe toda uma cadeia produtiva já montada em todas as regiões do Brasil. Além do viés sustentável, se bem cuidadas, as colônias podem se perpetuar por gerações e na teoria, demandam menor dedicação do que normalmente se dá aos pets tradicionais.

Aqui, contudo, vale um ponto de atenção: legislação e genética. Não se deve simplesmente capturar abelhas ou introduzir espécies exóticas em biomas onde elas não ocorrem. É fundamental consultar órgãos ambientais estaduais e plataformas como o Instituto IBA para entender as regras de cadastro e as espécies permitidas para sua região.

Para quem quer trilhar esse caminho, a Embrapa e o Senar disponibilizam cursos on-line gratuitos que são excelentes portas de entrada, além de existirem grupos e comunidades de whatsapp que reúnem especialistas, carpinteiros, criadores e entusiastas.

Ver a sociedade urbana cuidando de abelhas é um sinal positivo. Afinal, quem cuida de uma colmeia começa a entender, na prática, a importância da preservação que o campo tanto precisa. Mas é preciso responsabilidade: quais espécies posso criar e onde, sem causar impactos na população nativa? Essa é uma discussão em que a sociedade precisará entrar para que uma boa intenção não se torne um problema ambiental.

Um forte abraço.

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