A frase da música de Raulzito traz uma reflexão que vai muito além dos limites das propriedades. Fala do “eu” em detrimento do “nós”, do ego, das ideologias e de tantas outras cercas que construímos entre nós.
Mas o papo aqui é outro. Quero falar das cercas mesmo.
Já rodei bastante pelo Brasil. E aprendi que as cercas contam histórias. Basta olhar para elas.
Nas cidades e capitais, quase indiscriminadamente, nossas cercas são de tijolo, cimento, concreto e, mais recentemente, vidro. É quase um padrão.
Mas a criatividade está no campo.
Quando eu era criança, no interior do Rio de Janeiro, meu avô fazia cercas de bambu rachado – tanto na frente de casa quanto ao redor do galinheiro. Tínhamos muito bambu por lá.
As cercas de arame farpado ou liso também são muito comuns. Antigamente, os moirões eram de braúna ou de outra madeira quase indestrutível como ela, espaçados a cada três metros. Hoje, são mais comuns os de concreto ou de eucalipto tratado. Desmatamos muito e, de certa forma, até nossas cercas mudaram. Cinco fios de arame farpado ou três de arame liso, sendo um eletrificado, são comuns por aqui.
Já rodei também pelo interior do Nordeste. Na Caatinga, as cercas são feitas com aquilo que a própria Caatinga oferece. Não vejo eucalipto tratado com a mesma frequência. São cercas parecidas com as de bambu: madeiras coladinhas umas às outras e pouco arame.
Nas áreas de carnaúba, no Rio Grande do Norte, são comuns as cercas feitas com troncos roliços de carnaúba. Quando são plantadas para esse fim, aparecem o sabiá e a jurema-preta, geralmente estaqueados a cada metro, com sete a nove fios de arame farpado para ver se seguram os cabritos do vizinho.
E é na Caatinga que vejo algumas das cercas mais bonitas: aquelas feitas de pedra. Em certos lugares, parecem verdadeiras obras de arte.
As cercas vivas, dividindo propriedades, também são comuns Brasil afora. Bambu, eucalipto, sabiá, figueiras, esponjinhas, gliricídia... Hoje já as vemos em muitos lugares. E como são vivas!
E já vi muita cerca diferente, feita com materiais reutilizados: garrafas PET e de vidro, pneus...
No fim, as cercas refletem a abundância de cada lugar. Revelam o que a natureza oferece, o que a atividade econômica produz e até aquilo que sobra.
Cada uma conta uma história.
Depois de tantos anos rodando por esse Brasil, tenho na memória um belo livro de fotografias de cercas. Cada região, um material. Cada material, uma paisagem. Cada paisagem, um pedaço da nossa história.
Apesar de tanta beleza... como seria bom poder viver em um mundo sem cercas embandeiradas que separam nossos quintais.
Um forte abraço.