Segue o julgamento do ex-presidente da Iugoslávia, Slobodan Milosevic, em Haia. Condenação certa. Ele, claro, ordenou boa parte dos massacres que ocorreram no início e final da década de 1990. Pouca dúvida existe sobre a sua culpa e a promotora suíça Carla Del Ponte afirma ter provas da autoria de pelo menos 66 crimes. Embora tratado como um marco da justiça internacional, o julgamento de Milosevic não passa de um complicado jogo político, onde os crimes são apenas o motivo para neutralizar os eslavos e contentar os muçulmanos. Se fosse sério, alguém além do próprio Milosevic, falaria sobre as baixas civis causadas pelos bombardeios da Otan na Sérvia.
Quando subiu ao poder, em 1989, Milosevic vivia num mundo em transformação. Foi o ano da queda do Muro de Berlim e a URSS estava praticamente morta, o que aconteceu dois anos mais tarde. Todo o amor próprio eslavo, cultivado por décadas de ditaduras, parecia não ter justificativa, pois suas obras começavam a sumir. Estados Unidos, Japão e Alemanha dominavam o cenário internacional como as maiores economias, todas com sonhos de bem-estar permanente. Naqueles tempos a Europa perderia duas de suas mais importantes figuras, Margareth Thatcher, obrigada a renunciar por escândalos envolvendo seu filho, e François Mitterrand, vencido pelo câncer e com duas viúvas no funeral. Hong Kong ainda era a menina dos olhos do Ocidente na Ásia e a América Latina vivia mais uma das suas intermináveis crises provocadas por mistura de governos incompetentes e povos analfabetos. A África seguia como um matadouro a céu aberto e o Oriente Médio acabara de ver o fim da guerra entre Irã e Iraque, aguardando também a redução da violência entre palestinos e judeus.
Num mundo como esse, vendo a ideologia de décadas desaparecer, pior, entendendo que não só uma ideologia sumia, mas caia ali a grande chance de os eslavos desafiarem o Ocidente, o novo presidente da Iugoslávia precisava manter o seu país. Mas a abolição - ou abrandamento - das ditaduras permitiu o ressurgimento de velhos conflitos. Ao olhar o mapa, percebe-se que os Bálcãs são o ponto de encontro de, pelo menos, três culturas totalmente distintas: árabe, ocidental e eslava. As lutas na região, protagonizadas por esses povos, ultrapassam os mil anos e avançam muito no passado se considerados casos isolados. Ódio racial e cultural são coisas difíceis de apagar, principalmente quando se trata de vizinhos ou de cidadãos do mesmo país. Aí veio a crise das economias "emergentes" e novos capitalistas e a Iugoslávia também sofreu. A mistura de rivalidades milenares e falta de recursos detonou a luta fratricida no lugar.
Nesse tipo de guerra, não interessa saber quem começou, pois os motivos são tão antigos que um estudioso crédulo ou irônico facilmente traçaria uma linha até Caim e Abel. Do ponto de vista externo, importa apenas saber se a intervenção é uma política inteligente. Essa guerra, juntamente com a da Somália, desenterrou a teoria da não-intervenção dos anos 90, uma adaptação da velha política externa norte-americana de autodeterminação dos povos. Melhor seria deixar o forte dominar o fraco para ver o fim da batalha. Logicamente é uma boa alternativa, só que os meios de comunicação transmitem imagens, sons e letras mostrando a miséria humana e isso acende uma vontade imensa de ajudar os fracos. A imprensa continua moldando as massas, como há séculos. Antes da Revolução Francesa, Mirabeau dissera ao rei que se ele desejasse manter seu trono ou sua cabeça deveria comprar alguns jornalistas populares. A velha nobreza, analisou mais tarde Napoleão, teria sobrevivido se tivesse sabido tornar-se dona das tipografias... "O advento do canhão matou o sistema feudal; a tinta matará o sistema moderno". Tinha razão.
Simplismo
Heróis e vilões são criaturas simples se iluminados pela imprensa. Têm poucas características, deformadas e aumentadas como em uma caricatura, para garantir um mínimo de compreensão às massas iletradas. É a adaptação para o jornalismo do que Bernard Shaw recomendava para conseguir sucesso no teatro. Assim, Milosevic se transformou num monstro sádico assassino de minorias. Sob um certo aspecto, foi, mas isso justifica analisá-lo de modo apressado e burro. Sua luta personificou séculos de disputas. Ele não criou, apenas aproveitou sentimentos já existentes no lugar, assim como Hitler fizera na Alemanha, Stalin na Rússia, Fidel em Cuba e tantos outros.
Em sua defesa, no Tribunal de Haia, ouviu promotor com dois neurônios dizer que ele, Milosevic, foi o arquiteto de três guerras nos Bálcãs nos anos 1990 e que encabeçou uma aventura criminosa, uma tentativa de exterminar os não-sérvios da região. A resposta, em servo-croata, é um marco do bom-senso: "Ele (o promotor) provavelmente pensa que sou um super-homem, que tenho poderes sobre-humanos para influenciar as pessoas". Traduzindo: o povo fez o que desejava. Não se aprende a querer...
Milosevic não pode ser eximido da culpa, mas a ironia das análise paternalistas, que consideram o povo iludido por governos tiranos, é que ela vai contra a base reconhecida das atuais democracias. Ora, "se todo o poder emana do povo", um jargão dos códigos modernos, por que o povo não tem o direito de guerra, mesmo de genocídio? Qual a hierarquia nessa legislação? A explicação adotada é a ilusão do povo. Um homem ou grupo manobra as massas e as leva para o mau caminho. Pfui. Esse é um dos dogmas do mundo moderno. Assim como outrora os ramos do cristianismo que aceitavam a trindade ou a transubstanciação classificavam-nas como dogma, isto é, algo que não admite questionamento, o sistema atual necessita dos seus próprios conceitos pétreos para se sustentar. Admitindo-se a "maldade", a "agressividade", a "selvageria" inata dos homens, admitindo-se a sua vontade (e talvez direito) de exterminar os outros, rui a maior parte da legislação internacional. Para que o nosso mundo tenha sentido, o homem deve nascer bom e ser depravado pela sociedade.
O Tribunal de Haia empreende uma tentativa de culpar um só pelos crimes de toda uma nação. Não poderia condenar os sérvios, os bósnios, os croatas ou os kosovares, essa nova paixão internacional. É impossível condenar um povo. Embora a prática tenha conseguido relativo sucesso na Alemanha, sua aplicação em outros lugares é discutível. Funcionou após a Segunda Guerra num país arrasado, dependente dos vencedores até para comer. É fácil dobrar quem tem muita fome e pouca esperança. Exércitos marchando na ex-Iugoslávia teriam criado possibilidades semelhantes de sucesso. Mas qual país arriscaria seus soldados em uma missão dura e sem ganhos? Fizeram contra Hitler porque temiam pela própria segurança. Milosevic jamais almejou conquistar a Europa.
Julgamentos
Outro ponto que torna o Tribunal de Haia risível aos olhos de um observador inteligente e sem interesse econômico na sua existência é a escolha dos culpados. Todo tribunal pós-guerra não passa de uma tentativa de legalizar decisões já tomadas. Ai dos vencidos... A derrota é um crime que não admite absolvição, pois a justiça pertence aos vencedores. O mesmo tribunal que condenará Milosevic à prisão perpétua - só não condena à morte porque nenhum tribunal da ONU tem esse poder -, admitiu a imunidade diplomática de governantes em exercício. Isso abre precedente para suspender o processo contra Ariel Sharon pelo massacre de 1982, para suspender o processo contra Fidel Castro, contra Yasser Arafat e contra qualquer um que detenha o poder.
Óbvio que a possibilidade de processar um chefe de estado em exercício é demente, mas então a conclusão lógica é que tudo pode quem detém o poder e enquanto o detiver. Eis o que o tribunal admitiu veladamente. Nem sempre soa bem ouvir a admissão das leis naturais sacramentadas pela experiência, principalmente quando se consegue pensar em termos globais e perceber as contradições implícitas. Para as massas, serve.
Há ainda crimes não-julgados porque as conclusões - e sequer as discussões - não interessam. Quem defende o direito dos alemães escravizados na URSS depois da Segunda Guerra? Nem o seu próprio governo, que não exita em pagar grandes somas a estrangeiros escravizados em território alemão. Günter Grass, Nobel de Literatura em 1999, lançou um romance interessante sobre a questão (Im Krebsgang - A Marcha do Caranguejo), abordando o massacre de civis e militares alemães pelos soldados soviéticos, coisa ignorada por um país que gasta milhares de euros em indenizações para estrangeiros.
Deve-se lembrar ainda do caso dos guerrilheiros kosavares. O Exército de Libertação de Kosovo assassina há anos civis sérvios. Permanece impune e certamente continuará assim por muito tempo. Os oprimidos de ontem, se ganharem força, serão os opressores de amanhã.
Interesse externo
A perseguição a Milosevic tem origem numa tentativa do Ocidente de neutralizar um suposto avanço eslavo e de acalmar os ânimos dos muçulmanos. Como nenhum país que dominou o Oriente Médio por tantos anos parece se importar com a luta dos palestinos - em verdade apóiam Israel - há necessidade de condenar alguém por crimes contra os muçulmanos. Quem melhor do que Milosevic? Está em decadência, sua condenação não prejudicará em nada a política internacional, seu país não conta mais. É o perfeito carneiro para o sacrifício. Certamente não é inocente, pois realmente cometeu barbaridades, mas se cada um fosse julgado de acordo com os seus méritos, quem restaria?