Este artigo fora publicado, há pouco mais de 05 anos. Conseguiriam apontar as identidades ou desigualdades que nele se apresentam em comparação ao momento atual?
Confissões de um consultor
Descendente de família com tradições na atividade produtiva cafeeira, com propriedades no Sul de Minas Gerais, há muitas gerações, como se diz na roça “mamava café com leite” em bebê, pois produzíamos café e leite.
Formado em Engenharia Civil pela UCMG obtive vasta experiência profissional principalmente em orçamentos de custos, gerenciamentos por controle de qualidade, além de outras.
Morávamos em Belo Horizonte onde tínhamos outras atividades e as fazendas ficavam sob a responsabilidade de administrador.
Sentindo a necessidade de tomar a frente do agronegócio mudei-me para Varginha e assim começou a minha experiência profissional como cafeicultor, ou seja, segui e aprendi o caminho do calvário por ser cafeicultor.
Com minha formação superior em engenharia, dono de minha própria construtora acreditei como todos na minha condição pensariam, seria moleza esta nova direção.
Investimentos em novos plantios, utilização de tecnologia de ponta, aprendizados em campo e muita experiência, fizeram com que meus conhecimentos fossem ampliados e aprimorados. Se soubesse de alguma empresa tendo bons resultados lá estava eu copiando-os, até mesmo dias de campo em minha fazenda eram realizados.
Em fevereiro de 1986 conheci a primeira grande vitória vendendo café a US$375 a saca.
O volume financeiro obtido com estes preços me deu sustentação e coragem (euforia) para mais investimentos e assim milhares de pés de café ainda plantei. Tudo estava muito bem até 1992, quando os preços recuaram a patamares de US$ 44 a saca.
Toda a “gordura financeira” obtida no passado foi consumida de 1991 a 1993.
Com uma estrutura produtiva consistente e inteiramente aparelhada tive de procurar adaptar à nova realidade. Realidade de que produzir no conceito do “vamos fazendo” e depois para os resultados seria o “vamos ganhando” não mais daria certo.
Utilizava como a maioria dos produtores de médio a grande porte de assistência técnica agronômica periódica e obedecia rigorosamente às recomendações.
Com o meu perfil de engenheiro iniciei um processo de controle de custos bastante rigoroso. Necessitava ter a produção totalmente controlada em custos e produtividade. Foi então, ao longo de cinco anos de muita observação e constatação que projetei um sistema gerencial tecnológico, que pudesse atender as minhas necessidades. Com experiência profissional em controle de qualidade, orçamentos e técnicas gerenciais, testei a eficiência de tudo que desejava medir e controlar. Contratei um programador e depois repassei isto a uma conceituada empresa de tecnologia, para que tivesse realmente em mãos algo que me atendesse. Tinha então as ferramentas necessárias ao perfeito controle de custos.
Os preços de venda do café começaram a se recuperar em 94, após uma geada severa que atingiu as principais regiões do país.
A partir de então resolvi adequar o perfil produtivo de minhas lavouras para altas produtividades. Novos plantios foram feitos obedecendo a padrões mais dinâmicos, conforme aconselhado pela assistência técnica e resultados em campo.
Apesar de não possuir lavouras com espaçamentos adensados, pois eram 100% mecanizáveis, possuia produtividade média de 36 sacas/hectare ao longo de 05 anos. Isto era o máximo em produtividade média para lavouras não adensadas e sem irrigação.
Controlava rigorosamente os custos e obedecia da mesma forma as recomendações feitas pelo agrônomo, mesmo assim alguma coisa estava errada. Eram os resultados financeiros. Estava acumulando novamente prejuízos.
Então, o que fazer? Onde estava errando? Isto não podia acontecer! Em conversas com meus amigos e parentes, também produtores, todos se queixavam, além de mim, claro. A culpa estava nos preços de venda, assim acreditava. Os custos de produção estavam superiores aos preços de venda.
Então comecei a estudar e analisar com detalhes de engenheiro, usando a racionalidade, o comportamento do mercado cafeeiro. Muito tempo se passou e muitas projeções foram feitas. Resultado: conhecia as tendências de produção –consumo - preços. Foi então, que minhas preocupações começaram a se concretizar e com elas a “luz no fim do túnel” começou a ficar cada vez menos visível.
Não encontrava saída consistente. Comecei então a engrossar o cordão dos que se dirigiam às lideranças de classe solicitando soluções políticas. Era preciso fazer algo para subir os preços do café, caso contrário eu também iria quebrar!
Soluções políticas, milagres, qualquer coisa era válido, desde que os preços de venda do café permanecessem superiores a U$100 a saca, pois este era histórico.
A diferença estava na forma de minhas colocações. Como havia estudado com muitas análises o comportamento do mercado, tinha a percepção mais profissional das tendências e isto me preocupava com maior intensidade. Neste momento eu já tinha certeza que se continuasse, como estava, iria quebrar, certamente.
Algumas lideranças de classe, conhecidas de meu convívio pessoal não acreditavam ou não davam ouvidos às minhas preocupações e colocações, pois dizia eu que o “bicho iria pegar” se não fosse feito algo com maior profissionalismo e isto não são coisas que políticos ouvem, por mais que sejam próximos do convívio. Existia, como sempre, um fisiologismo enorme nestas lideranças. Faltava algo essencial na política cafeeira, mas nem mesmo eu sabia o que era!
Era um produtor eficiente, inteligente, bem informado e mesmo assim “NADA”!
Esta não era uma atividade lucrativa! Deveria desistir da mesma e procurar outros negócios!
Foi então, que após ter criteriosamente analisado as opções, constatei que:
- Apesar de ser um dos produtores que tinha uma das maiores “produtivaidades” da região;
- Possuir o controle total dos custos;
- Possuir assistência técnica tida como das melhores;
- Bem informado e dinâmico nas posições;
Mesmo assim o barco iria afundar e o pior, comigo dentro!
Havia detectado esta mudança (crise) que atinge atualmente a cafeicultura e analisando os efeitos da economia globalizada, associado à falta de ações da política cafeeira percebi que não iria suportar a competitividade internacional. Resolvi sair da atividade antes do “bicho pegar e comer”.
Já com outra empresa, comecei a refletir sobre onde estavam localizados os erros que cometi.
Então com o pé fora da atividade, refleti com isenção e descobri que:
- Acreditava que tinha tudo e fazia tudo correto, grande engano!
- Faltava o essencial, faltava eu ter planejado todas as minhas ações!
- Faltava ter planejado estratégica e operacionalmente a empresa e suas produções, com metas e objetivos, ter os orçamentos de custos muito antes de executar qualquer atividade ou processo.
- Analisar os custos/benefícios antes de comprar máquinas, equipamentos, produtos.
- Ter exigido dos profissionais que me prestavam assistência técnica um comprometimento com os resultados das recomendações agronômicas face aos resultados produtivos/financeiros; afinal seriam milhares de pés de café sustentados por apenas meus dois pés, pois a inteligência não estava sendo explorada como deveria ser e eu imaginando o contrário.
- Tinha uma produtivaidade e apenas isto! Quanto perdi ou joguei fora! Foram milhões!
- Não espelhar em resultados de outros sem a confirmação devida.
- Alguém me alertou para isto? Alguém me comprovou isto na época?
- Medir os custos simplesmente se traduzia em medir os prejuízos ou lucros que eu havia realizado. Era questão de sorte ou azar! Quantos erros, poucos acertos!
- Controlar os custos de minha fazenda apenas para fazer declaração de imposto de renda? Porque e para que? Qual a finalidade? Eu havia me tornado em apenas mais um produtor, não um empresário dinâmico.
Descobri sentindo na própria pele, que falta um profissionalismo enorme na área gerencial cafeeira.
(Fim do artigo)
E agora, em novembro de 2008, como estará a continuação ou desfecho deste artigo? Como está sendo o desfecho do cenário visualizado na época e projetado ao presente? Alguém ainda acredita não ser possível dimensionar com precisão cenários?
Aguardem a continuação...
Confissões de um consultor
Descendente de família com tradições na atividade produtiva cafeeira, com propriedades no Sul de Minas Gerais, há muitas gerações, como se diz na roça “mamava café com leite” em bebê, pois produzíamos café e leite.
Formado em Engenharia Civil pela UCMG obtive vasta experiência profissional principalmente em orçamentos de custos, gerenciamentos por controle de qualidade, além de outras.
Morávamos em Belo Horizonte onde tínhamos outras atividades e as fazendas ficavam sob a responsabilidade de administrador.
Sentindo a necessidade de tomar a frente do agronegócio mudei-me para Varginha e assim começou a minha experiência profissional como cafeicultor, ou seja, segui e aprendi o caminho do calvário por ser cafeicultor.
Com minha formação superior em engenharia, dono de minha própria construtora acreditei como todos na minha condição pensariam, seria moleza esta nova direção.
Investimentos em novos plantios, utilização de tecnologia de ponta, aprendizados em campo e muita experiência, fizeram com que meus conhecimentos fossem ampliados e aprimorados. Se soubesse de alguma empresa tendo bons resultados lá estava eu copiando-os, até mesmo dias de campo em minha fazenda eram realizados.
Em fevereiro de 1986 conheci a primeira grande vitória vendendo café a US$375 a saca.
O volume financeiro obtido com estes preços me deu sustentação e coragem (euforia) para mais investimentos e assim milhares de pés de café ainda plantei. Tudo estava muito bem até 1992, quando os preços recuaram a patamares de US$ 44 a saca.
Toda a “gordura financeira” obtida no passado foi consumida de 1991 a 1993.
Com uma estrutura produtiva consistente e inteiramente aparelhada tive de procurar adaptar à nova realidade. Realidade de que produzir no conceito do “vamos fazendo” e depois para os resultados seria o “vamos ganhando” não mais daria certo.
Utilizava como a maioria dos produtores de médio a grande porte de assistência técnica agronômica periódica e obedecia rigorosamente às recomendações.
Com o meu perfil de engenheiro iniciei um processo de controle de custos bastante rigoroso. Necessitava ter a produção totalmente controlada em custos e produtividade. Foi então, ao longo de cinco anos de muita observação e constatação que projetei um sistema gerencial tecnológico, que pudesse atender as minhas necessidades. Com experiência profissional em controle de qualidade, orçamentos e técnicas gerenciais, testei a eficiência de tudo que desejava medir e controlar. Contratei um programador e depois repassei isto a uma conceituada empresa de tecnologia, para que tivesse realmente em mãos algo que me atendesse. Tinha então as ferramentas necessárias ao perfeito controle de custos.
Os preços de venda do café começaram a se recuperar em 94, após uma geada severa que atingiu as principais regiões do país.
A partir de então resolvi adequar o perfil produtivo de minhas lavouras para altas produtividades. Novos plantios foram feitos obedecendo a padrões mais dinâmicos, conforme aconselhado pela assistência técnica e resultados em campo.
Apesar de não possuir lavouras com espaçamentos adensados, pois eram 100% mecanizáveis, possuia produtividade média de 36 sacas/hectare ao longo de 05 anos. Isto era o máximo em produtividade média para lavouras não adensadas e sem irrigação.
Controlava rigorosamente os custos e obedecia da mesma forma as recomendações feitas pelo agrônomo, mesmo assim alguma coisa estava errada. Eram os resultados financeiros. Estava acumulando novamente prejuízos.
Então, o que fazer? Onde estava errando? Isto não podia acontecer! Em conversas com meus amigos e parentes, também produtores, todos se queixavam, além de mim, claro. A culpa estava nos preços de venda, assim acreditava. Os custos de produção estavam superiores aos preços de venda.
Então comecei a estudar e analisar com detalhes de engenheiro, usando a racionalidade, o comportamento do mercado cafeeiro. Muito tempo se passou e muitas projeções foram feitas. Resultado: conhecia as tendências de produção –consumo - preços. Foi então, que minhas preocupações começaram a se concretizar e com elas a “luz no fim do túnel” começou a ficar cada vez menos visível.
Não encontrava saída consistente. Comecei então a engrossar o cordão dos que se dirigiam às lideranças de classe solicitando soluções políticas. Era preciso fazer algo para subir os preços do café, caso contrário eu também iria quebrar!
Soluções políticas, milagres, qualquer coisa era válido, desde que os preços de venda do café permanecessem superiores a U$100 a saca, pois este era histórico.
A diferença estava na forma de minhas colocações. Como havia estudado com muitas análises o comportamento do mercado, tinha a percepção mais profissional das tendências e isto me preocupava com maior intensidade. Neste momento eu já tinha certeza que se continuasse, como estava, iria quebrar, certamente.
Algumas lideranças de classe, conhecidas de meu convívio pessoal não acreditavam ou não davam ouvidos às minhas preocupações e colocações, pois dizia eu que o “bicho iria pegar” se não fosse feito algo com maior profissionalismo e isto não são coisas que políticos ouvem, por mais que sejam próximos do convívio. Existia, como sempre, um fisiologismo enorme nestas lideranças. Faltava algo essencial na política cafeeira, mas nem mesmo eu sabia o que era!
Era um produtor eficiente, inteligente, bem informado e mesmo assim “NADA”!
Esta não era uma atividade lucrativa! Deveria desistir da mesma e procurar outros negócios!
Foi então, que após ter criteriosamente analisado as opções, constatei que:
- Apesar de ser um dos produtores que tinha uma das maiores “produtivaidades” da região;
- Possuir o controle total dos custos;
- Possuir assistência técnica tida como das melhores;
- Bem informado e dinâmico nas posições;
Mesmo assim o barco iria afundar e o pior, comigo dentro!
Havia detectado esta mudança (crise) que atinge atualmente a cafeicultura e analisando os efeitos da economia globalizada, associado à falta de ações da política cafeeira percebi que não iria suportar a competitividade internacional. Resolvi sair da atividade antes do “bicho pegar e comer”.
Já com outra empresa, comecei a refletir sobre onde estavam localizados os erros que cometi.
Então com o pé fora da atividade, refleti com isenção e descobri que:
- Acreditava que tinha tudo e fazia tudo correto, grande engano!
- Faltava o essencial, faltava eu ter planejado todas as minhas ações!
- Faltava ter planejado estratégica e operacionalmente a empresa e suas produções, com metas e objetivos, ter os orçamentos de custos muito antes de executar qualquer atividade ou processo.
- Analisar os custos/benefícios antes de comprar máquinas, equipamentos, produtos.
- Ter exigido dos profissionais que me prestavam assistência técnica um comprometimento com os resultados das recomendações agronômicas face aos resultados produtivos/financeiros; afinal seriam milhares de pés de café sustentados por apenas meus dois pés, pois a inteligência não estava sendo explorada como deveria ser e eu imaginando o contrário.
- Tinha uma produtivaidade e apenas isto! Quanto perdi ou joguei fora! Foram milhões!
- Não espelhar em resultados de outros sem a confirmação devida.
- Alguém me alertou para isto? Alguém me comprovou isto na época?
- Medir os custos simplesmente se traduzia em medir os prejuízos ou lucros que eu havia realizado. Era questão de sorte ou azar! Quantos erros, poucos acertos!
- Controlar os custos de minha fazenda apenas para fazer declaração de imposto de renda? Porque e para que? Qual a finalidade? Eu havia me tornado em apenas mais um produtor, não um empresário dinâmico.
Descobri sentindo na própria pele, que falta um profissionalismo enorme na área gerencial cafeeira.
(Fim do artigo)
E agora, em novembro de 2008, como estará a continuação ou desfecho deste artigo? Como está sendo o desfecho do cenário visualizado na época e projetado ao presente? Alguém ainda acredita não ser possível dimensionar com precisão cenários?
Aguardem a continuação...