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Polinizadores: a diferença de risco e perigo de pesticidas


Decio Luiz Gazzoni

              A avaliação do impacto efetivo dos pesticidas para as abelhas e outros polinizadores baseia-se numa distinção fundamental entre perigo e risco, dois conceitos que são frequentemente confundidos no discurso popular, mas que têm significados distintos e complementares na ciência toxicológica e regulatória.

              Perigo refere-se à capacidade intrínseca de uma substância causar danos, independentemente de qualquer organismo estar efetivamente exposto a ela; já a exposição refere-se ao grau, duração e via pela qual um organismo entra efetivamente em contato com essa substância, em condições reais.

              O risco, na formulação amplamente adotada em ecotoxicologia, é a resultante desses dois fatores: uma substância com perigo intrínseco muito alto representa um risco insignificante se a exposição for efetivamente zero. De outra parte, uma substância com perigo intrínseco comparativamente baixo pode representar um risco substancial, se a exposição for frequente, prolongada ou ocorrer numa fase vulnerável da vida de um organismo.

              Traçando uma analogia, diz-se que um leão faminto é um enorme perigo para os humanos. Porém, se estiver contido em uma jaula inviolável, o risco é negligível.

 

Exposição

              A exposição oral ocorre pela ingestão de néctar, pólen ou gotículas de gutação contaminadas, sendo estas últimas constituídas de pequenos volumes de seiva do xilema, exsudados das margens das folhas, sob condições de alta pressão radicular, que podem conter concentrações de pesticidas até superiores às encontradas no néctar.

              A exposição por contato ocorre quando as abelhas tocam fisicamente a folhagem, ramos ou flores tratadas, o solo ou superfícies com resíduos de pesticidas. A exposição por inalação, embora menos estudada, pode ser relevante para ingredientes ativos voláteis e para material particulado gerado durante certos métodos de aplicação.

              A dimensão temporal da exposição introduz uma camada adicional de complexidade que distingue a avaliação de risco ecologicamente realista dos testes simplificados de toxicidade aguda. Uma única abelha forrageira pode acumular exposição ao longo de múltiplas visitas a diversas flores, durante uma única viagem de forrageamento, e uma única colônia pode sofrer exposição que varia ao longo da estação, à medida que diferentes culturas dentro de sua área de forrageamento florescem em sequência, cada uma potencialmente tratada com diferentes ingredientes ativos.

 

Importância prática

              Essa estrutura de perigo-exposição tem implicações diretas e práticas para a interpretação de dados de toxicidade de pesticidas e para o desenvolvimento de estratégias de mitigação de riscos em sistemas agrícolas onde as abelhas forrageiam. Um pesticida pode apresentar uma dose letal média (DL50) extremamente baixa em bioensaios de laboratório, indicando alto perigo intrínseco, mas, na prática, representar um risco limitado para as populações de abelhas em campo, se sua formulação, método de aplicação e persistência ambiental resultarem em contato mínimo entre o ingrediente ativo e as abelhas.

              Por outro lado, um pesticida com toxicidade aguda comparativamente modesta pode gerar danos substanciais na população de abelhas, se for aplicado repetidamente durante a floração, persistir no pólen e no néctar por longos períodos ou for translocado sistemicamente para os tecidos vegetais que as abelhas consomem posteriormente.

              A quantificação da exposição para abelhas e outros polinizadores requer a consideração de múltiplas vias distintas, cada uma das quais pode predominar sob diferentes circunstâncias agronômicas e ambientais.

 

Mitigação

              A consequência prática da exposição ao perigo para a tomada de decisões agrícolas é que a mitigação do risco pode ser alcançada por meio de intervenções que visam qualquer um dos componentes, de forma independente, ou ambos em combinação. A redução do perigo envolve a seleção de ingredientes ativos com menor toxicidade intrínseca para as abelhas, mantendo o objetivo de controle de pragas, um princípio de substituição incorporado na hierarquia de decisões postulada em programas de Manejo Integrado de Pragas.

              Estudos envolvendo estratégias de mitigação de risco para abelhas concluíram que as medidas de redução da exposição, incluindo o momento das aplicações em relação à floração e o estabelecimento de zonas de amortecimento não tratadas, frequentemente oferecem reduções de risco mais imediatamente implementáveis do que as medidas de redução do perigo, que dependem da disponibilidade de alternativas registradas de menor perigo para a praga-alvo.

              A redução da exposição envolve a modificação do momento, método, formulação ou direcionamento espacial da aplicação de pesticidas, de modo que, mesmo quando um ingrediente ativo altamente perigoso precisar ser usado, a probabilidade e a magnitude do contato das abelhas com essa substância sejam minimizadas.

              A abordagem de mitigação, inserida no contexto de Boas Práticas Agrícolas desenvolvida pela Embrapa para integração harmônica do cultivo de soja e abelhas, estão disponíveis em uma cartilha produzida pelo Senar (bit.ly/3VhUUB9) e um curso de EAD associado (bit.ly/3SXXEpN) representando a tradução prática do paradigma de risco baseado em perigo e exposição, em regras de decisão aplicáveis à escala da propriedade agrícola, conforme elencado anteriormente em livro produzido pela Embrapa, disponível para download em bit.ly/4r4Pw3n.

              Tanto a cartilha quando o EAD produzidos pelo Senar estão recebendo grande aceitação por parte de agricultores e criadores de abelhas, o que tem reduzido substancialmente os impactos negativos de pesticidas sobre abelhas, em especial a mortalidade de colônias, contribuindo para aumentar a sustentabilidade da agricultura brasileira.

 

O autor é engenheiro agrônomo, membro da Academia Brasileira de Ciência Agronômica e do Conselho Científico Agro Sustentável.

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