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Novas/Velhas lições da crise


Argemiro Luís Brum
A continuidade da crise nos países europeus, a começar pela Grécia, e seus reflexos no mundo nos levam a novas constatações, as quais acabam sendo apenas a confirmação daquilo que já se sabe, porém, poucos gostam de admitir. Em primeiro lugar, no afã de recuperar a economia debilitada pelo capital financeiro especulativo, que abusou da desregulamentação da economia em geral, os Estados procuraram substituir o capital privado como motor do crédito e da retomada. Foram injetados trilhões de dólares na economia mundial, com o convite ao consumo sem precaução. O Brasil foi um dos tantos casos em que isso ocorreu. Assim, o endividamento público aumentou ainda mais, agora acompanhado por um importante endividamento privado. Milhares de famílias fizeram dívidas maiores do que suas possibilidades de pagamento. Com o esgotamento do modelo, por falta de capacidade estatal em continuar o processo, somado a um crescimento importante da inflação, o crédito público diminui fortemente enquanto o crédito privado se torna muito caro. Daí para a inadimplência é um passo. No Brasil a mesma já supera a 8% dos endividados e continua crescendo. Para piorar, o corte de crédito provoca freada na economia, esta por sua vez leva a um crescimento menor (no Brasil as previsões já indicam um PIB abaixo de 4% para 2011 e de 3,6% para 2012), com o conseqüente desemprego. Nesse contexto, todos foram culpados, pois aceitaram especular na promessa de bonança, se endividando, para gerar riqueza, acima de suas possibilidades.

Novas/Velhas lições da crise  (II)

Ora, a economia ensina que “não há almoço grátis”! E isso cansamos de alertar nesse espaço. Gerar uma capacidade de consumo artificial, a partir de uma estrutura incapaz de sustentar o processo, significa recuar logo adiante. Muitos países do mundo estão vivendo isso no momento, especialmente o Brasil. Em nosso caso, chegou a hora de pagar a conta do exagero feito em 2010, muito por motivos eleitorais infelizmente. Era preciso irrigar a economia, para evitar uma crise maior, e nisso o governo acertou. Porém, errou ao exagerar na irrigação diante de uma economia sem infraestrutura suficiente. Assim, o governo atual se vê obrigado a elevar os juros, cortar a disponibilidade de crédito e reduzir investimentos necessários. Mesmo assim, nota-se certa indecisão na ação, pois a situação exige um ajuste fiscal mais duro e permanente, coisa que o governo hesita em fazer. Assim como junto ao mundo, onde a crise ainda levará tempo para ser debelada, deixando fortes seqüelas, aqui no Brasil fica evidente que, na atual realidade, não podemos nos dar ao luxo de crescer mais de 4% ao ano. Isso porque não temos infraestrutura suficiente e não a soubemos construir ao longo da história. Para darmos a volta por cima será preciso investir, e muito (cerca de 25% do PIB). Para investir, será preciso gerar mais poupança, coisa que não sabemos fazer, particularmente junto ao Estado (que continua gastando mais do que tem). Em suma, reformar o Estado e a economia como um todo. Para tanto, a educação é prioritária. É trabalho para duas gerações. Não há milagres!              
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