CI

O comércio Brasil-Argentina


Argemiro Luís Brum
Em 1991, através do Tratado de Assunção, o Mercosul foi criado oficialmente. O mesmo passou a ser constituído por quatro países (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai). Na época foi definido que uma zona de livre-comércio e uma união aduaneira deveriam ser institucionalizadas a partir de 1º de janeiro de 1995, sendo que a primeira deveria estar funcionando integralmente cinco anos depois (a partir de 1º de janeiro de 2000) e a segunda 10 anos após (a partir de 1º de janeiro de 2006).

Todavia, a crise dos países emergentes durante os anos de 1990, que teve na política cambial um elemento central, atingiu o Brasil em 1999 e a Argentina em 2001. Até então, o regime de câmbio fixo e de bandas cambiais orientou a relação comercial dos países membros, especialmente dos dois gigantes regionais Brasil e Argentina. A partir da crise cambial, passou a imperar o sistema de câmbio flutuante.

Além disso, a economia brasileira, melhor estruturada, acabou ingressando num sistema de valorização do Real, enquanto o peso argentino perdeu constantemente valor. A tal ponto que em 02/01/2002 era preciso R$ 2,31 para comprar um peso argentino. Três anos após (em 03/01/2005) precisávamos apenas de R$ 0,89 para a aquisição de um peso. Em janeiro de 2008, a relação cambial recua para R$ 0,56 por um peso e em janeiro de 2011 a mesma alcança apenas R$ 0,41, permanecendo assim até agora (meados de novembro de 2011). É de se esperar, portanto, que o saldo comercial, no período, seja favorável à Argentina.


O comércio Brasil-Argentina (II)

Entretanto, não foi isso que ocorreu. Assim, como no conjunto de seu comércio exterior, também com a Argentina o Brasil passa a ter um superávit comercial importante, apesar da sobrevalorização do Real. Tanto é verdade que, a partir de 2004, o Brasil registra saldo positivo com o vizinho país, depois de nove anos ininterruptos de déficit comercial com o mesmo.

E mais: o saldo em favor do Brasil vem crescendo quanto mais o Real se valoriza em relação ao peso. Em 2004 o mesmo foi de US$ 1,8 bilhão. Em 2005 passou para US$ 3,7 bilhões. Em 2008 chegou a US$ 4,3 bilhões. A crise mundial provocou um forte recuo em 2009, quando o saldo ficou em apenas US$ 1,5 bilhão. Porém, no ano seguinte, voltou a superar os US$ 4,0 bilhões e deverá, em 2011, bater um recorde. Afinal, nos 10 primeiros meses do ano já atinge a US$ 4,96 bilhões. Ou seja, a Argentina, após a forte crise de 2001/02, voltou a ser gerida por governos populistas que terminaram de sucatear seu setor produtivo em geral e industrial em particular.

Assim, mesmo com um peso fortemente desvalorizado em relação ao Real brasileiro, não consegue obter superávit comercial com o Brasil. Isso explica as constantes medidas protecionistas, adotadas pelo nosso vizinho, sobre os produtos brasileiros, ferindo integralmente o acordo de livre-comércio estabelecido no contexto do Mercosul. Assim, o bloco sul-americano não consolida nem mesmo uma zona de livre-comércio e, ironicamente, apesar do protecionismo a Argentina não consegue reduzir o seu déficit comercial com o Brasil.
Assine a nossa newsletter e receba nossas notícias e informações direto no seu email

Usamos cookies para armazenar informações sobre como você usa o site para tornar sua experiência personalizada. Leia os nossos Termos de Uso e a Privacidade.

2b98f7e1-9590-46d7-af32-2c8a921a53c7